Arquivo da categoria: Críticas

Você não vai sentir minha falta

As várias faces de uma face

Embora independente, esse filme norte-americano ainda duvida da capacidade do espectador

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Metalinguagem é uma das ferramentas mais espinhosas para se trabalhar num roteiro. Usada com habilidade, pode se tornar uma fonte rica de interpretações. Do contrário, pode acabar como em Você Não Vai Sentir Minha Falta. Insinuado de forma relativamente elegante, o jogo entre ator e “pessoa real” aparece de forma mais clara no final, quando a audição para um filme é mostrada.

Uma série de questionamentos cênicos é jogada nesse momento, mas não faz diferença alguma. Ou melhor, faz: super-expõe todo o processo já mostrado até então. As câmeras estão sempre próximas ao rosto dos atores, como se fossem seu interlocutor, ou filmam o que os personagens olham. Algumas vezes, celulares e câmeras digitais são utilizados, e não resta dúvida que o diretor pretendia alcançar o realismo.

A trama alterna cenas no hospital psiquiátrico em que Shelly (Stella Schnabel, co-autora do roteiro) foi internada e sua vida fora, regada a drogas, homens e desentendimentos. A interpretação de Schnabel mostra um tipo de letargia que não se extrai de atores, bons ou ruins. Seu compromisso com a verdade é tamanho que sua veracidade se torna palpável, totalmente perceptível. Fica bem claro que aquilo não é uma atuação, propriamente dita.

Além disso, existe todo um subtexto sobre fachadas e vida real. A protagonista passa alguns minutos em uma cena explicando que não se finge nada que não é. Para os mais desatentos, há passagens em que Shelly participa de audiências para uma peça, um filme e um vídeo, e sua expressividade não se altera ao “atuar”.

Há um fragmento particularmente desnecessário em que a atriz/personagem entra no saguão de um hotel e é mandada para fora. A câmera escondida grita que aquilo é uma aplicação do roteiro à vida real, mas exagera no didatismo. Como se não bastasse, a protagonista ressalta essa fixação pela identidade e pela possibilidade de ser outra pessoa quando narra sua visão das drogas.

A narração em off é um dos quatro elementos usados para dizer a mesma coisa: ainda há a metalinguagem, a estética visual e a “entrevista” com o doutor do hospital psiquiátrico. Se a intenção era embaçar a linha entre o real e o encenado, a diretora e roteirista Russo-Young não precisava esmiuçar a já exposta personalidade de Schnabel no “clímax” – a audição para o filme.

De fato, não sentiremos sua falta, Shelly. Não porque sua identidade real foi trocada pelo seu eu cinematográfico, mas sim porque já tivemos uma overdose de ambos.

VOCÊ NÃO VAI SENTIR MINHA FALTA
(You Won’t Miss Me), 2009, EUA. (81 min.)
Dir.: Ry Russo-Young

Seguindo em Frente

A vida após a morte

O diretor de Ninguém Pode Saber mostra o demônio familiar com esperança, mas sem conciliação definitiva

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

A história acompanha dois dias de uma reunião familiar na casa do patriarca (Yoshio Harada) e de sua esposa (Kirin Kiki). A visita ocorre para lembrar a morte de Junpei, o primogênito. Ryota (Hoshiro Abe), agora o filho mais velho, enfrenta o desdém do pai, que não aceita que ele não tenha seguido a profissão de médico.

No começo, tudo parece em ordem. O alimento, metáfora constante no filme, traz desentendimentos saudáveis. Mesmo assim, o encontro está fadado ao caos. Em vez de encarar essa inevitabilidade com pesar, a família Yokoyama prefere aproveitar o tempo junto comendo muito e se divertindo. Eles sabem que precisam falar, gritar e rir constantemente para não se lembrarem do falecido.

A matriarca parece incrivelmente evoluída perante o marido. Ela consegue participar e até mesmo comentar as mágoas de perder um filho – versatilidade que Kiki alcança com louvores. A tensão também se dá por causa de Ryota. Além de ter negado os planos do pai, ele se casou com uma viúva, que é obviamente mal vista.

É sutil a abordagem desses pequenos ressentimentos. Em meio conversas despojadas, surgem frases (“Crianças não crescem necessariamente como queremos”) que têm significados fortes para o homem da casa. Ele responde sem a mesma delicadeza, como se sentisse todas essas “farpas” e as devolvesse em represália.

Apesar dessa disputa de gerações, constantemente abordada pelo Cinema japonês, o tema do parente morto é crucial. Em certa cena, a esposa de Ryota (a excelente Yui Natsukawa) ouve da sogra que seria bom ela não engravidar, pelo bem do filho que tivera no primeiro casamento. Fica uma dúvida: ela estava sendo desagradável ou apenas comunicando as dores de ser mãe? E como a nora entendeu? Seu eterno e cordial sorriso é triste nesse momento, mas seria por raiva ou por pena?

Kore-eda, no entanto, não quer apenas contar uma história e criar personagens. Existe todo um pensamento estético. Na maioria dos planos, a câmera se mantém parada – sempre que a perspectiva é mudada, há um corte para outra tomada imóvel. Essa regra se estende até para as cenas de caminhada. Por mais que andem, os personagens não saem do lugar. Num momento, a avó tenta pegar uma borboleta que entrou na casa, crendo que é seu filho morto. A câmera se move. Mesmo assim, é uma euforia breve e limitada: ela anda em círculos, buscando o que já se perdeu.

Os pais do primogênito acabam prendendo toda a família nesse redemoinho. Mesmo assim, a segunda geração consegue deixar as tristezas de lado assim que vai embora, e a terceira, acompanhada de uma vívida trilha sonora, está mais distante ainda. É só dentro deles (mas à distância) que os antepassados podem viver em paz.

SEGUINDO EM FRENTE
(Aruitemo aruitemo), 2008, Japão. (114 min.)
Dir.: Hirokazu Kore-eda

| Disponível em streaming pelo site: The Auteurs |

Mau Dia Para Pescar

Alegre fracasso

Com boa fotografia mas fraca direção, Mau Dia Para Pescar narra história de fracasso e redenção

MAIRA GIOSA
ESPECIAL PARA O FINO DA MOSTRA

Já ouvi dizer este ano de diversas pessoas que os filmes desta 33ª Mostra não estão tão bons quanto os do ano passado. Após assistir três filmes [por enquanto], posso dizer que concordo.

E um dos motivos para pensar assim é este filme espanhol e uruguaio, Mau Dia Para Pescar. Conta a história de um lutador de luta-livre alemão, Jacob von Oppen, e seu agente trambiqueiro Príncipe Orsini. Fracassado e velho, von Oppen não tem outra opção senão desafiar competidores comuns a lutar em troca de mil dólares.

Com sua corpulência de viking, a vitória é fácil para ele e o dinheiro entra relativamente fácil para Orsini. É assim que ambos chegam na América do Sul, no vilarejo de Santa María, na Argentina, para apresentar a robustez de Oppen e desafiar mais pobres coitados e ignorantes.

O que não esperavam, contudo, era o desafio de um homem através de sua namorada, Adriana. A garota acredita piamente que o “turco”, seu futuro noivo [e que à primeira vista lembra Javier Bardem], pode vencer o já acabado alemão e ganhar os mil dólares que financiarão seu casamento e cuidarão de seu filho que nascerá em pouco tempo.

Apesar da bela fotografia e produção, os personagens são mal construídos e a direção não é das melhores. A trilha sonora, beirando a comicidade com a ópera Fígaro, ajuda a criar uma atmosfera absolutamente positiva para uma história de fracasso e agonia – causando certo estranhamento.

A história triste de von Oppen também não nos afeta, apesar do esforço de ambos ator e diretor de demonstrar o quão desconfortável com a situação o lutador está, exibindo cenas de sua provável maluquice – como quando ele bate a cabeça incessantemente no armário, ou todas as vezes quando chora. E se por um lado mostra essa fragilidade de um homem tão grande [o que mais parece ridículo do que triste], mostra também a canalhice de Príncipe e seus interesses em ganhar dinheiro em cima de seu “protegido”.

O que acontece, ao final, é que não nos apegamos a nenhum dos personagens – nem mesmo à garota -, e acabamos torcendo pelo mais improvável deles, que nada tinha a ver com as emoções ali envolvidas e parecia ser o mais alienado da situação. Assim, lidando com sentimentos simples, a história parece se arrastar.

Para mim, o final pareceu inesperado exatamente porque esperava algo diferente, que realmente me fizesse pensar que o paradoxo da história e da música fosse proposital. Para outros, pareceu óbvio, e é compreensível porque pensem assim, uma vez que tudo se encaminhava para um final positivo.

Claramente uma história de redenção sem um final feliz aparente, os personagens têm atitudes que se contradizem, revelando a fragilidade do roteiro. O que se salva, talvez, seja a bela fotografia do início e os closes nos protagonistas, e alguns diálogos que são muito bons [como aquele quando Príncipe conversa com o dono do jornal - "eu só fumo porque incomoda os outros", diz Orsini. "Excelente razão", responde o jornalista; ou quando há referência ao título do filme].

Sem acrescentar muito, saímos do cinema com a impressão de que nada aconteceu durante boa parte do longa, e que o diretor uruguaio – apesar de muito simpático – talvez não tivesse recursos suficientes para desenvolver a história de forma melhor, ou ainda que não estava totalmente pronto para algo mais complexo.

MAU DIA PARA PESCAR
(Mal Día para Pescar), 2009, Espanha/Uruguai. 100 min
Dir.: Alvaro Brechner
FINALISTA ENTRE OS INDICADOS A PRÊMIO NA MOSTRA

A Ressurreição de Adam

Chaminés no lugar do coração

A jornada intensa pela mente de um homem marcado pelo Holocausto

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Depois de um incidente violento, Adam (Jeff Goldblum) é levado de volta para um instituto especial. Só sobreviventes do Holocausto são tratados no local, situado no meio de um deserto em Israel. Os outros residentes, tanto pacientes quanto médicos, reagem de formas diferentes à postura do homem. Ele se sente superior, chegando até a conversar com o diretor em sua sala. Porém, nessa nova estadia, Adam é confrontado com suas memórias e traumas mais violentos.

O impacto psicológico do filme é muito forte, e quanto menos for revelado, melhor. O roteiro de Noah Stollman não hesita em reunir temas pesados por si só, como o Holocausto, a loucura e a morte. Não parando por aí, o roteirista ainda os mescla com elementos fantásticos. Logo, quando Adam revê seus colegas insanos, existe muito para o espectador estranhar e muitas linhas de raciocínio para seguir. É corajoso negar a resolução de certos mistérios, pois mantém o interesse até o fim.

Em alguns casos, é possível explicar os fenômenos sobrenaturais com o conceito de “mente sobre matéria”. Muito do que acomete Adam pode ser uma manifestação física de coisas que acontecem em sua cabeça. Entretanto, essa interpretação não resolve o poder do protagonista de “ler as pessoas”. Sua relação com os cachorros, por outro lado, é exposta detalhadamente.

Através de cenas em preto-e-branco horrível, o calvário no campo de concentração e seu passado como apresentador de circo são lentamente revelados. A alternância temporal segue regras definidas, deixando claro que as ações do presente são influenciadas pelo passado. Apesar de Stollman abrir mão do mistério que enriquece tanto a narrativa, os efeitos no personagem são elaborados. Fica implícito que Adam é obcecado com a superioridade.

Os abusos que sofreu cristalizaram em sua mente essa noção de superior e inferior – de humano e cachorro. Estes animais o perturbam, pois remetem a uma humilhação atroz e à perda da humanidade em prol da sobrevivência. Ele encara os horrores de outros pacientes para se sentir acima deles – afinal, só ele é capaz de confrontar o passado. A verdade é que ele é controlado por seus traumas. A integridade psicológica é só uma fachada.

A Ressurreição de Adam ainda conta com uma interpretação acachapante de Goldblum, que irradia e atrai todos os elementos da história. Sua voz, seus olhos e sua estatura colaboram para uma intensidade dramática que se opõe à alegria de suas diabruras circenses. Quando os dois aspectos se combinam, a carga emocional chega ao máximo. A ótima trilha sonora de Gabriel Yared também ajuda no impacto. Apesar de ter falhas sérias, o filme é uma experiência bastante interessante. Vale a pena, nem que seja para sair atordoado da sessão.

A RESSURREIÇÃO DE ADAM
(Adam Resurrected), 2008, Alemanha/EUA/Israel. (102 min.)
Dir.: Paul Schrader

04/11 (Qua) | 22:00 – Sessão 1296 | Cine Bombril 2

I Love You Phillip Morris

Não corra com tesouras!

A promissora comédia é um exemplo de como um filme pode ser cortado até perder o que tem de mais essencial

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Estranhamente para uma comédia com Jim Carrey, I Love You Phillip Morris demorou para encontrar uma distribuidora nos Estados Unidos. É uma situação atípica para um filme atípico. O mais curioso é que os defeitos são ridiculamente comuns. A montagem, ainda em processo na premiere em Sundance, tornou a narrativa apressada.

Baseada em fatos e pessoas reais, a história gira em torno de Steven Russell (Carey). Depois de assumir sua homossexualidade, ele larga a família para viver uma vida “chiquérrima”. O dinheiro vem de uma série de golpes, e não demora para ele ser preso. Na cadeia ele conhece Phillip (Ewan McGregor), e se apaixona perdidamente. Em meio a transferências de prisão e mais falcatruas, a relação encontra inúmeros obstáculos.

A obra é muito bem dirigida. Sem se lixar para o politicamente correto, os diretores também evitam o outro extremo. O meio-termo é encontrado em um tom de deboche constante, que equilibra pequenos tiques estereotipados com momentos moderados. O resultado é um genuíno filme gay, que respeita, desrespeita e se mantém sincero.

É estranho que algo tão peculiar acabe prejudicado pela montagem. O resultado é uma chacina: não há quase nenhuma cena, propriamente dita. Tudo é contado através de resumos e narrações que passam zunindo pelas fases da vida dos personagens. Periodicamente, surge um momento isolado para mudar o rumo da trama, e voltamos a acompanhar sequências de sequências.

O personagem que mais sofre com isso é Morris, que, dada sua importância, praticamente inexiste. Embora ótimo em seus contidos maneirismos e sotaque leve, McGregor é apenas um rostinho bonito para ser idealizado. Steven, dadas as circunstâncias, é mais profundo e cria um divertido questionamento.

É interessante como, apenas com uma excepcional adaptabilidade, o protagonista consegue fingir profissionalismo. Estudo e dedicação não podem competir com esperteza e desenvoltura: a sociedade está atrás dessa fachada, e não do conteúdo do indivíduo. O roteiro acerta em relacionar Steven com essa visão de mundo, tornando-o vítima irrecuperável de um sistema fundado na falsidade e na ilusão do dinheiro.

A sutil falta de seriedade de Carey é perfeitamente adequada a essa proposta. É muito triste que em meio a acertos difíceis o filme acabe trucidado por uma tola e excessiva edição. Os personagens e os acontecimentos deslizam na tela sem firmeza. Isso é perfeitamente compreensível para Steven, mas seu sentimento por Phillip, e o próprio Phillip, se tornam vazios. Amar alguém pode ser superficial, mas não pode ser vazio.

I LOVE YOU PHILLIP MORRIS
(Idem), 2009, Estados Unidos. (102 min.)
Dir.: Glen Ficarra e John Requa

04/11 (Qua) | 22:50 – Sessão 1311 | CineSesc
05/11 (Qui) | 19:50 – Sessão 1414 | HSBC Belas Artes – Cândido Portinari

500 Dias com Ela

Que seja infinito enquanto durem os 500 dias

Pautada num amor que foge da fôrma, 500 Dias com ela é uma comédia romântica leve e diferente, que peita o machismo ao apresentar a menina desencanada e o menino apaixonado

NATALIA HORITA
O FINO DA MOSTRA

Summer (Zooey Deschanel) é uma morena bonita de olhos azuis que conquista, logo de cara, o companheiro de escritório Tom (Joseph Gordon-Levitt). Para aguçar ainda mais esse amor recém-nascido, ambos partilham do mesmo gosto musical. Depois de um início de relacionamento peculiar, Tom se vê apaixonado por Summer que, por sua vez, alimenta uma visão bem diferente sobre o amor. Aqui, o aviso do narrador no começo do filme se torna relevante: “essa não é uma história romântica”, pois Summer começa a dar sinais de que não deseja ter nada sério e que não acredita no amor, enquanto Tom cada vez mais se afoga no “namoro”.

A simpática morena poderia ser rotulada como a grande vilã do filme, não fosse sua complexidade intrigante. Mais do que diferente, Summer é também o retrato de tudo aquilo que se opõe aquele amor padrão, imposto por tantos “finais felizes” que proliferam por aí, seja no cinema, na literatura ou em qualquer lugar. O discurso dela de não acreditar em almas gêmeas pode ser um baque, – ainda mais para aqueles mais sentimentais – mas faz sentido. E ela o leva a ferro e fogo, tanto que nutre uma relação com Tom por meses sem conseguir se definir como sua namorada.

E é nesse emaranhado de amores tradicionais e alternativos que a trama se desenrola. A opção do diretor Mark Webb de não sustentar a linearidade é um tempero especial na história. A trajetória do relacionamento dos protagonistas é apresentada de forma quebradiça, com flashes do início intercalados com episódios do término, pós-término e do desfecho, o que confere à obra um artifício de aprisionamento do espectador. Acabamos por esperar, avidamente, o desenlace. É interessante reparar que em momento nenhum é mostrado uma conversa derradeira de fim de relação, mas, mesmo assim, vê-se o interesse de Summer esvaindo-se com o passar dos episódios. Webb, assim, rompe com o comum clímax, que acaba não existindo.

A música é pop, flertando com o antigo e clássico, como Simon and Garfunkel, até baladinhas nouvelle-vague, na voz da estonteante Carla Bruni. Mas The Smiths é que ganha posição especial no filme, pois embala o começo do relacionamento de Tom e Summer.

A direção oscila entre certeira e imatura. Prova disso é a cantoria de Tom após ter ficado com Summer pela primeira vez. Os poucos segundos de canto são um grande deslize, que fazem com que o filme se assemelhe High School Musical. Em compensação, idéias originais do diretor são consideráveis, como a divisão da tela em duas, apresentando, simultaneamente, a expectativa de Tom e o que realmente aconteceu em determinada situação.

500 dias com ela é um filme aprazível e divertido, que não entrou no circuito comercial à toa. Não vale só o ingresso, mas também um pensamento aprofundado na mensagem que passa.

500 DIAS COM ELA
((500) Days of Summer), 2009, Estados Unidos. (95 min.)
Dir.: Marc Webb

Flor Congelada

…E a rosa despetalada

No grotesco filme coreano, um frio monarca gay congela e ameaça toda a nação

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

O contato entre o cinema da Coreia do Sul e o dos Estados Unidos está cada vez maior. O excelente O Hospedeiro foi bastante comentado e elogiado na América do Norte. Escrito, péssimo pastiche que esteve até na repescagem da Mostra passada, usava trilhas sonoras de filmes americanos e copiava a estética da série Jogos Mortais. Infelizmente, esse é o caso de Flor Congelada: o intercâmbio de ideias gerou péssimos resultados.

A história se passa na Dinastia Goryeo (918-1392 d.C.), e mostra o romance do Rei (Ju Jin-Mo) com seu guardacostas, o capitão Hong Lim (Jo In-Seong). Essa relação impede que o monarca gere um herdeiro com a Rainha (Song Ji-Hyo), e Hong é secretamente ordenado a tentar engravidá-la. Porém, ele começa a se envolver com a mulher, o que enfurece o Rei. Ao mesmo tempo, forma-se um complô para destronar o regente infértil.

Ao tratar de um tema tão espinhoso quanto a homossexualidade, o diretor Yu Ha ao menos não cometeu o pecado da omissão: esse é um filme de excessos. Para começar, a mensagem é majoritariamente homofóbica. O Rei é visto como incompetente e perigoso, ameaçando toda a integridade do país com seu desequilíbrio emocional.

Hong sofre da mesma montanha-russa amorosa, mas seus desvarios sempre apontam para a concepção da Rainha – e isso é um benefício para todos. A paixão homossexual leva à morte, à destruição e à loucura. Jin-Mo infelizmente embarca na ideia, e não demora em fazer de seu personagem um homem infeliz e insatisfeito.

Nas relações sexuais (explícitas), também parece haver preconceito. Com uma sonoplastia pesada, beirando o grotesco, a impressão que fica é a de repulsa ao ato homossexual. Ledo engano. O sexo heterossexual é filmado da mesma maneira, talvez com até mais deselegância. Essas semelhanças até se explicam: o amor gay chega a ser “aceito”, só por demagogia e necessidade dramática. Entretanto, a metáfora é clara.

Embora o roteiro bipolar seja ruim por si só, a pior parte é a direção. A ação é tão mal filmada que é impossível saber se é realista ou fantástica. O sangue sai em jatos, mas com o ruído líquido de um terror americano. Qualquer sequência, seja um festival ou uma silenciosa troca de olhares, traz tomadas demais, editadas à exaustão. Não é nem preciso comentar a horrenda cena do ameaçador Rei surgindo em meio a relâmpagos.

É curioso que um dos piores filmes da 33ª Mostra seja coreano, assim como um dos melhores: Mother. E é notável como este trabalha cuidadosamente as fórmulas ocidentais, e como Flor Congelada prefere segui-las erraticamente.

FLOR CONGELADA
(Ssang-hwa-jeom), 2008, Coreia do Sul. (133 min.)
Dir.: Yoo Ha

01/11 (Dom) | 22:30 – Sessão 985 | Unibanco Arteplex 5