Ao falar de um dos escritores mais ousados do século passado, documentário adota um formato convencional
PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA
Uma das técnicas que o escritor William S. Burroughs usava era a “cut-up”, que consistia em cortar textos comuns em vários pedaços e rearranjá-los para gerar um sentido distorcido. Processo similar era o do “fold-in”, que consiste em dobrar a folha de um livro, jornal ou revista para baixo e lê o texto que se forma com a metade da primeira página com a metade da página abaixo. Os dois métodos foram utilizados por Burroughs. Por que, então, William S. Burroughs: Um Retrato Íntimo é tão convencional é um mistério.
O diretor Yony Leyser aborda aspectos variados da vida do autor, como sua alardeada homossexualidade, as experiências com drogas, o vício em heroína e a fixação por armas de fogo. O título sugere revelações sentimentais que são feitas ao longo do filme, mas sobram muitas lacunas em que ninguém encontra explicação. Neste quesito misterioso, e menos no emocional, o formato quadrado do documentário pesa negativamente.
Não contente apenas em setorizar as facetas de Burroughs, Leyser ainda escancara a escolha através de pequenas vinhetas em stop-motion, bem feitas, mas patéticas em sua função simplória. Toda e qualquer anarquia, liberdade destrutiva, desapego a ditames – ou seja, qualquer possibilidade não-óbvia – vem diretamente dos registros audiovisuais e escritos do escritor. Quando os fragmentos de entrevistas, frases polêmicas e registros caseiros causam alguma impressão, é porque falam por si só.
As referências autobiográficas em vários dos livros do autor são meramente tangenciadas, nunca trabalhadas; as polêmicas seguem um caminho engessado de exposição-consequência-justificativa-elogio; até mesmo a escolha predominante por declarações de artistas amigos ou influenciados (Cronenberg, van Sant, Waters, Iggy Pop, Patti Smith, Genesis P-orridge) revela um esquematismo difícil de engolir.
O trunfo que resta é a inusitada busca ao homem sentimental. Que ele seja encontrado, ao lado de uma fragilidade que ia muito além de senilidade e problemas com drogas, é uma surpresa não só para a figura pública, como para o retrato feito ao longo do filme. Detalhes menos pessoais, como o gosto por atirar com revólveres e espingardas, permanecem turvos, ao passo que os afetos amorosos são devassados com uma naturalidade quase elementar.
Esse viés específico tem a prerrogativa de seguir uma lógica linear – no caso, investigativa e dedutiva –, já que sempre teve como objetivo montar uma faceta obscura, de aspectos fragmentários. Daí para desculpar todo o desserviço de fazer um verdadeiro catálogo humano há uma grande distância. A linearidade não fere a integridade do documentário nos casos particulares, e sim no contexto geral.
Por mais que a investigação de Leyser tenha sido produtiva, seu medo de experimentar puxa a obra para baixo de forma irremediável. Um registro esquemático de William S. Burroughs, que, em sua época, pensou coisas que “nem eram ilegais ainda” é puro desperdício. Não precisava emular o autor, mas se bastar nos cânones narrativos é quase uma ofensa.
(William S. Burroughs: A Man Within), 2010, EUA. (87 min).
Dir.: Yony Leyser
29/10 (Sex) | 16h40 – Sessão 767 | Reserva Cultural 1




