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O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus

Tom de homenagem prejudica Parnassus

CHRISTIAN COSTA
O FINO DA MOSTRA

Terry Gilliam é um diretor brilhante. Seu currículo conta com algumas das melhores comédias do Monty Python, duas das melhores ficções-científicas já realizadas (Brazil e 12 Macacos) e outros longas que adquiriram status de cult, como Medo e Delírio. No entanto, o que se vê em O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus é majoritariamente um réquiem de luxo para Heath Ledger, talentoso ator que faleceu durante as filmagens e ficou imortalizado pela sua atuação como Coringa, em Batman: o cavaleiro das trevas, lançado já postumamente.

O filme mostra o duelo milenar entre Parnassus (Christopher Plummer) e o Diabo (Tom Waits), chegando a um momento crítico: a filha do primeiro deve ser entregue ao cramunhão, em função de uma barganha feita num passado remoto. Em meio a isso, surge uma misteriosa figura com amnésia (Ledger) que, aos poucos, se mostra disposta a ajudar o doutor a virar o jogo e não perder sua filha.

Uma premissa tentadora, um elenco fabuloso e efeitos especiais estonteantes. Com todos esses recursos em mão, por que Gilliam não conseguiu tornar “Parnassus” em mais um de seus clássicos?

Antes de tudo, é triste ver a transição artística que Gilliam fez, hoje lembrando muito mais um genérico burtoniano do que o genial produtor de cenários distópicos, que forneceram inspiração para a próxima geração de diretores, mais nitidamente Jean Pierre Jeunet, durante os anos 90. Nem mesmo o timing de certas cenas parece certo, sobretudo as que contêm Ledger.

Nesse aspecto, cabe a hipótese de não ter havido tempo para fazer os takes definitivos, mas isso não justifica que certos momentos pareçam mais laboratórios de atuação do que cenas sérias. Gilliam já execrou publicamente a teoria de que a imersão no personagem Coringa teria sido a principal razão da morte do jovem ator, afirmando que existia um bom clima durante as filmagens. Ainda assim, existe um mau desempenho inicial que pode ter relação com a ingestão abusiva de remédios que, posteriormente, o levou à morte. Em tempo, deve-se admitir que, com o passar da história, parece que o ator vai ficando mais à vontade, conseguindo desenvolver bem as características de seu personagem, com destaque para o notável sotaque britânico.

Méritos à parte, as atuações que ficarão marcadas na memória são as dos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, que substituíram o ator nas cenas que ele não teve tempo de encenar (em sua maioria, partes com computação gráfica). Todos fazem atuações marcantes e nitidamente preocupadas em serem fiéis à visão que Ledger tinha do personagem.

Saindo das questões de elenco, a trilha sonora escorrega ao não respeitar bons ganchos para silêncio e complementar de forma burocrática as demais passagens. Os momentos em CG, em que pessoas passam pelo espelho mágico de Parnassus, por mais dalinianos e grandiosos que sejam, não aparecem de forma homogênea com o resto da película, resultando também numa desproporção incômoda.

Enfim, por mais que a produção tenha sido cancelada e depois retomada por Gilliam, ainda permanece a sensação de que ele está incompleto. Desde a poética aparição inicial de Ledger, em que está morto e revive, até os créditos finais que indicam que foi realizada por “Ledger e amigos”, tudo parece comprometer a independência da obra, mostrando-a refém de seus fatos exteriores – e é isso que perturba. Ele insiste, intencionalmente ou não, em ser uma constante homenagem em vez de ser o grande filme que poderia ser. Trata-se da despedida mais lírica e emocionante que o Cinema poderia dar a Ledger, mas ainda assim, é uma pena que isso tenha impedido que a história fosse contada impecavelmente, como é do feitio de Terry Gilliam contar.

O MUNDO IMAGINÁRIO DE DR. PARNASSUS
(The Imaginarium of Dr. Parnassus), 2009, Reino Unido. (125 min.)
Dir.: Terry Gilliam

31/10 (Sáb) | 23:30 – Sessão 924 | HSBC Belas Artes – Sala 2
01/11 (Dom) | 19:00 – Sessão 1054 | Cinemark Cidade Jardim
03/10 (Ter) | 21:30 – Sessão 1161 | Unibanco Arteplex 1

Hanami – Cerejeiras em Flor

Hanami expressa beleza de todas as formas
Com dois grandes eixos temáticos – a indiferença dos filhos, e o amor incondicional e além-túmulo, Hanami – Cherry Blossoms se mostra um filme crítico sem a aridez esperada daqueles com este tipo de abordagem

NATALIA HORITA
O FINO DA MOSTRA

Apesar de pecar na duração – 126 minutos que seriam facilmente enxugados –, Hanami – Cherry Blossoms aborda temas que tangenciam a sensibilidade de quem assiste. Muito aprazível, todos os cenários que o filme dispõe são bem estruturados e bem definidos, com cores ricas e sintonizadas, o que muito remete à cultura oriental. O nome, aliás, provém de uma mescla entre a comemoração da chegada da primavera (Hanami), com a árvore cujas flores são típicas do Japão, Cerejeiras (ou Cherry Blossoms).

Trudi é uma devota esposa, que nutre um fascínio pelo estudo e conhecimento da cultura japonesa, especialmente pela dança butô, mas deixa seu gosto de lado por vergonha e por seu marido Rudi não partilhar deste deleite. Ao ficar ciente da condição de paciente terminal de seu esposo, ela decide omitir a verdade e fazer com que ele aproveite os dias que lhe restam. Programa, então, uma ida à Berlim para rever dois de seus três filhos. Mas a súbita visita não procede do jeito imaginado. O casal é negligenciado, e os filhos adotam como sinônimos falta de disposição e falta de tempo. Sentindo o desconforto, marido e mulher rumam para a praia e a ironia do destino bate à porta – Trudi repentinamente morre, deixando o marido, que desconhece sua real situação, sozinho.

O viúvo pena para aceitar a morte de sua ex-esposa, e resolve embarcar para o Japão para vivenciar tudo aquilo que Trudi amava. Lá, também é mal-recebido pelo filho que antes era protegido, Karl, que o trata com a mesma indiferença de Karolin e Klaus, os filhos que moram em Berlim. Desolado, vagando por um país em que não é familiarizado com nada, Rudi conhece a menina Yu, com quem edifica uma sincera e bonita amizade, que muito se assemelha com a relação afetuosa pai e filha.

O final é previsível, mas gravado de forma tão emocionante e bem-feita que facilmente produz lágrimas em quem assiste. A estética e a harmonia de cores e movimentos ajudam a compor o clímax do filme.

A indiferença, a apatia, a solidão e a desorientação frente à morte de um ente querido são alguns dos muitos assuntos que moldam o leque temático de Hanami e o tornam um filme tão humano e intrinsecamente belo. O desinteresse com o qual os filhos tratam os pais é uma evidente crítica a essa triste impessoalidade que as relações adquiriram em tempos corridos, ocupados, com valores invertidos. E, ainda assim, a amizade e a dedicação a um amor ainda acham uma brecha, e chamam mais atenção do que a insistência do homem em não manter suas relações pessoais de forma respeitosa.

HANAMI – CEREJEIRAS EM FLOR
(Hanami – Cherry Blossoms, 2008. Alemanha. 126 min.)
Dir.: Doris Dörrie

17/10 (Sex) | 21:30 | Cinemark Cidade Jardim
18/10 (Sab) | 21:00 | iG Cine
21/10 (Ter) | 14:00 | Espaço Unibanco Pompéia 1
22/10 (Qua) | 13:30 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 2
25/10 (Sab) | 20:00 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 3
27/10 (Seg) | 17:20 | HSBC Belas Artes 2