A liberdade agonizante

O novo filme do cineasta tailandês traz uma visão melancólica da experiência humana – e das outras além
 
PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA
 
Desde o início, Apichatpong Weerasethakul esteve atrás de liberdade. A busca transparece tanto nas pulsões que movem os personagens quanto na produção em si. Em Eternamente Sua o ideal é perceptível, tanto quanto suas limitações: um dia na floresta pode ser livre de tudo que existe fora, mas continua sendo apenas um dia.
 
Então, a solução foi estender a lógica e dinamizar os processos da narrativa. Com Síndromes e um Século, uma percepção fresca de acontecimento cênico e narrativo é valorizada. Mais que distensão, a palavra-chave é dispersão, pois histórias, personagens, espaços e eventos vão e vêm, tendo em comum apenas a visão grave do cineasta. Esta proposta se intensifica em Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas.
 
É verdade que a trama é mais compacta que a do longa anterior de Weerasethakul, pois Boonmee, sua cunhada Jen o filho desta, Thong, participam de boa parte da trama. Os locais, como a casa de Boonmee, o campo ao lado e as florestas próximas também causam uma sensação (mais que uma percepção mensurável) de unidade. Na linha narrativa, apenas uma digressão, sólida e linear, é introduzida. Mesmo assim, é possível ver a lógica do universo fílmico se repartir.
 
A cena do jantar apresenta várias perspectivas díspares. Lendas anunciam entidades mitológicas, aparições se insinuam pelo misticismo da morte, um flerte com a criptozoologia aponta para animais desconhecidos e novas possibilidades de presença cênica são permitidas pela transmutação corpórea e espiritual no além-vida. E mesmo levando em conta o coletivo destas noções de mundo, existe alguma coesão – de novo, mais sensível que perceptível – nas partes e no todo.
 
A liberdade para não destrinchá-las, às vezes apenas tocando-as brevemente, eleva o filme a um estado onírico nada etéreo. Os macacos-fantasma, por exemplo, têm nome e comportamento definido, mas sua natureza se mantém misteriosa – em parte graças à maravilhosa fotografia, que os destaca ao homogeneizar o ambiente. A firmeza de cada devaneio, em alternância com rotinas e dramas mundanos, já garante a predisposição do diretor a evitar atmosferas triviais e generalizantes, pois encontramos muitas em trânsito no filme. E esta é apenas a dispersão posta em prática na estrutura narrativa.
 
É de se estranhar a pronunciada montagem, sendo este um filme de “Joe” (como Weerasethakul se intitula para estrangeiros). O interior do carro, recorrente nos filmes do cineasta, passa por vários cortes, de um personagem para o outro e para a estrada em frente. Em comparação com Eternamente Sua ou Síndromes e um Século, os planos são breves, indicando que há muito a enquadrar e muitas maneiras de fazê-lo.
 
Afinal, tudo que a obra acompanha parece prestes a se despedaçar. Este é inclusive o movimento, gradual ou brusco, de todos, mais ou menos ajudados pelo meio: a princesa que se livra de suas jóias, o líquido que escorre de Boonmee, os macacos-fantasma que se multiplicam e a própria percepção da morte como ruptura com quase todos os pontos de convergência da vida.
 
Todos passamos por esse processo de dispersão sem notar, seja em vida (atenção para a tevê) ou na morte. E como fica a liberdade? Seriamente lesada, a julgar pela passagem que fecha o filme: uma simples bipartição aleija as duas metades. Uma conversa de Boonmee com sua falecida esposa Huay reforça o pessimismo, pois a perda de amarras é compulsória, jogando os mortos em incerteza. O indivíduo é livre, na vida ou na morte, para acertar e errar, mas apenas dentro de regras auto-estabelecidas.
 
É uma constatação conquistada com o suor de um cineasta que vive sua utopia enquanto realizador. Mesmo vivendo essa liberdade expressiva, ele não consegue enxergá-la como uma perspectiva positiva para o mundo. O cinema é seu sonho, onde, de alguma forma ilógica, a divisibilidade torna a obra mais sublime.

TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS
(Lung Boonme Raluek Chat), 2010, Tailândia, Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Espanha. (113 min.)
 
30/10 (Sáb) | Unibanco Arteplex 1 – Sessão 819 | 17:50
31/10 (Dom) | Reserva Cultural 1 – Sessão 988 | 19:20
02/11 (Ter) | Unibanco Arteplex 2 – Sessão 1120 | 21:00

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