Arquivo do mês: novembro 2009

Mau Dia Para Pescar

Alegre fracasso

Com boa fotografia mas fraca direção, Mau Dia Para Pescar narra história de fracasso e redenção

MAIRA GIOSA
ESPECIAL PARA O FINO DA MOSTRA

Já ouvi dizer este ano de diversas pessoas que os filmes desta 33ª Mostra não estão tão bons quanto os do ano passado. Após assistir três filmes [por enquanto], posso dizer que concordo.

E um dos motivos para pensar assim é este filme espanhol e uruguaio, Mau Dia Para Pescar. Conta a história de um lutador de luta-livre alemão, Jacob von Oppen, e seu agente trambiqueiro Príncipe Orsini. Fracassado e velho, von Oppen não tem outra opção senão desafiar competidores comuns a lutar em troca de mil dólares.

Com sua corpulência de viking, a vitória é fácil para ele e o dinheiro entra relativamente fácil para Orsini. É assim que ambos chegam na América do Sul, no vilarejo de Santa María, na Argentina, para apresentar a robustez de Oppen e desafiar mais pobres coitados e ignorantes.

O que não esperavam, contudo, era o desafio de um homem através de sua namorada, Adriana. A garota acredita piamente que o “turco”, seu futuro noivo [e que à primeira vista lembra Javier Bardem], pode vencer o já acabado alemão e ganhar os mil dólares que financiarão seu casamento e cuidarão de seu filho que nascerá em pouco tempo.

Apesar da bela fotografia e produção, os personagens são mal construídos e a direção não é das melhores. A trilha sonora, beirando a comicidade com a ópera Fígaro, ajuda a criar uma atmosfera absolutamente positiva para uma história de fracasso e agonia – causando certo estranhamento.

A história triste de von Oppen também não nos afeta, apesar do esforço de ambos ator e diretor de demonstrar o quão desconfortável com a situação o lutador está, exibindo cenas de sua provável maluquice – como quando ele bate a cabeça incessantemente no armário, ou todas as vezes quando chora. E se por um lado mostra essa fragilidade de um homem tão grande [o que mais parece ridículo do que triste], mostra também a canalhice de Príncipe e seus interesses em ganhar dinheiro em cima de seu “protegido”.

O que acontece, ao final, é que não nos apegamos a nenhum dos personagens – nem mesmo à garota -, e acabamos torcendo pelo mais improvável deles, que nada tinha a ver com as emoções ali envolvidas e parecia ser o mais alienado da situação. Assim, lidando com sentimentos simples, a história parece se arrastar.

Para mim, o final pareceu inesperado exatamente porque esperava algo diferente, que realmente me fizesse pensar que o paradoxo da história e da música fosse proposital. Para outros, pareceu óbvio, e é compreensível porque pensem assim, uma vez que tudo se encaminhava para um final positivo.

Claramente uma história de redenção sem um final feliz aparente, os personagens têm atitudes que se contradizem, revelando a fragilidade do roteiro. O que se salva, talvez, seja a bela fotografia do início e os closes nos protagonistas, e alguns diálogos que são muito bons [como aquele quando Príncipe conversa com o dono do jornal - "eu só fumo porque incomoda os outros", diz Orsini. "Excelente razão", responde o jornalista; ou quando há referência ao título do filme].

Sem acrescentar muito, saímos do cinema com a impressão de que nada aconteceu durante boa parte do longa, e que o diretor uruguaio – apesar de muito simpático – talvez não tivesse recursos suficientes para desenvolver a história de forma melhor, ou ainda que não estava totalmente pronto para algo mais complexo.

MAU DIA PARA PESCAR
(Mal Día para Pescar), 2009, Espanha/Uruguai. 100 min
Dir.: Alvaro Brechner
FINALISTA ENTRE OS INDICADOS A PRÊMIO NA MOSTRA

A Ressurreição de Adam

Chaminés no lugar do coração

A jornada intensa pela mente de um homem marcado pelo Holocausto

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Depois de um incidente violento, Adam (Jeff Goldblum) é levado de volta para um instituto especial. Só sobreviventes do Holocausto são tratados no local, situado no meio de um deserto em Israel. Os outros residentes, tanto pacientes quanto médicos, reagem de formas diferentes à postura do homem. Ele se sente superior, chegando até a conversar com o diretor em sua sala. Porém, nessa nova estadia, Adam é confrontado com suas memórias e traumas mais violentos.

O impacto psicológico do filme é muito forte, e quanto menos for revelado, melhor. O roteiro de Noah Stollman não hesita em reunir temas pesados por si só, como o Holocausto, a loucura e a morte. Não parando por aí, o roteirista ainda os mescla com elementos fantásticos. Logo, quando Adam revê seus colegas insanos, existe muito para o espectador estranhar e muitas linhas de raciocínio para seguir. É corajoso negar a resolução de certos mistérios, pois mantém o interesse até o fim.

Em alguns casos, é possível explicar os fenômenos sobrenaturais com o conceito de “mente sobre matéria”. Muito do que acomete Adam pode ser uma manifestação física de coisas que acontecem em sua cabeça. Entretanto, essa interpretação não resolve o poder do protagonista de “ler as pessoas”. Sua relação com os cachorros, por outro lado, é exposta detalhadamente.

Através de cenas em preto-e-branco horrível, o calvário no campo de concentração e seu passado como apresentador de circo são lentamente revelados. A alternância temporal segue regras definidas, deixando claro que as ações do presente são influenciadas pelo passado. Apesar de Stollman abrir mão do mistério que enriquece tanto a narrativa, os efeitos no personagem são elaborados. Fica implícito que Adam é obcecado com a superioridade.

Os abusos que sofreu cristalizaram em sua mente essa noção de superior e inferior – de humano e cachorro. Estes animais o perturbam, pois remetem a uma humilhação atroz e à perda da humanidade em prol da sobrevivência. Ele encara os horrores de outros pacientes para se sentir acima deles – afinal, só ele é capaz de confrontar o passado. A verdade é que ele é controlado por seus traumas. A integridade psicológica é só uma fachada.

A Ressurreição de Adam ainda conta com uma interpretação acachapante de Goldblum, que irradia e atrai todos os elementos da história. Sua voz, seus olhos e sua estatura colaboram para uma intensidade dramática que se opõe à alegria de suas diabruras circenses. Quando os dois aspectos se combinam, a carga emocional chega ao máximo. A ótima trilha sonora de Gabriel Yared também ajuda no impacto. Apesar de ter falhas sérias, o filme é uma experiência bastante interessante. Vale a pena, nem que seja para sair atordoado da sessão.

A RESSURREIÇÃO DE ADAM
(Adam Resurrected), 2008, Alemanha/EUA/Israel. (102 min.)
Dir.: Paul Schrader

04/11 (Qua) | 22:00 – Sessão 1296 | Cine Bombril 2

AVISO

Foram canceladas todas as sessões do filme Lebanon, programadas para os dias 3, 4 e 5 de novembro. O filme foi o grande vencedor do último Festival de Berlim e terá uma única exibição após a cerimônia de encerramento da Mostra.

ENCERRAMENTO 33ª MOSTRA
Quinta-feira, 05 de novembro de 2009
21:00hs – Premiação, seguida pelo filme Lebanon, de Samuel Maoz
Cinemateca Brasileira – Largo Senador Raul Cardoso

A cerimônia é aberta ao público, mas é importante chegar antes se quiser garantir o ingresso.

I Love You Phillip Morris

Não corra com tesouras!

A promissora comédia é um exemplo de como um filme pode ser cortado até perder o que tem de mais essencial

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Estranhamente para uma comédia com Jim Carrey, I Love You Phillip Morris demorou para encontrar uma distribuidora nos Estados Unidos. É uma situação atípica para um filme atípico. O mais curioso é que os defeitos são ridiculamente comuns. A montagem, ainda em processo na premiere em Sundance, tornou a narrativa apressada.

Baseada em fatos e pessoas reais, a história gira em torno de Steven Russell (Carey). Depois de assumir sua homossexualidade, ele larga a família para viver uma vida “chiquérrima”. O dinheiro vem de uma série de golpes, e não demora para ele ser preso. Na cadeia ele conhece Phillip (Ewan McGregor), e se apaixona perdidamente. Em meio a transferências de prisão e mais falcatruas, a relação encontra inúmeros obstáculos.

A obra é muito bem dirigida. Sem se lixar para o politicamente correto, os diretores também evitam o outro extremo. O meio-termo é encontrado em um tom de deboche constante, que equilibra pequenos tiques estereotipados com momentos moderados. O resultado é um genuíno filme gay, que respeita, desrespeita e se mantém sincero.

É estranho que algo tão peculiar acabe prejudicado pela montagem. O resultado é uma chacina: não há quase nenhuma cena, propriamente dita. Tudo é contado através de resumos e narrações que passam zunindo pelas fases da vida dos personagens. Periodicamente, surge um momento isolado para mudar o rumo da trama, e voltamos a acompanhar sequências de sequências.

O personagem que mais sofre com isso é Morris, que, dada sua importância, praticamente inexiste. Embora ótimo em seus contidos maneirismos e sotaque leve, McGregor é apenas um rostinho bonito para ser idealizado. Steven, dadas as circunstâncias, é mais profundo e cria um divertido questionamento.

É interessante como, apenas com uma excepcional adaptabilidade, o protagonista consegue fingir profissionalismo. Estudo e dedicação não podem competir com esperteza e desenvoltura: a sociedade está atrás dessa fachada, e não do conteúdo do indivíduo. O roteiro acerta em relacionar Steven com essa visão de mundo, tornando-o vítima irrecuperável de um sistema fundado na falsidade e na ilusão do dinheiro.

A sutil falta de seriedade de Carey é perfeitamente adequada a essa proposta. É muito triste que em meio a acertos difíceis o filme acabe trucidado por uma tola e excessiva edição. Os personagens e os acontecimentos deslizam na tela sem firmeza. Isso é perfeitamente compreensível para Steven, mas seu sentimento por Phillip, e o próprio Phillip, se tornam vazios. Amar alguém pode ser superficial, mas não pode ser vazio.

I LOVE YOU PHILLIP MORRIS
(Idem), 2009, Estados Unidos. (102 min.)
Dir.: Glen Ficarra e John Requa

04/11 (Qua) | 22:50 – Sessão 1311 | CineSesc
05/11 (Qui) | 19:50 – Sessão 1414 | HSBC Belas Artes – Cândido Portinari

500 Dias com Ela

Que seja infinito enquanto durem os 500 dias

Pautada num amor que foge da fôrma, 500 Dias com ela é uma comédia romântica leve e diferente, que peita o machismo ao apresentar a menina desencanada e o menino apaixonado

NATALIA HORITA
O FINO DA MOSTRA

Summer (Zooey Deschanel) é uma morena bonita de olhos azuis que conquista, logo de cara, o companheiro de escritório Tom (Joseph Gordon-Levitt). Para aguçar ainda mais esse amor recém-nascido, ambos partilham do mesmo gosto musical. Depois de um início de relacionamento peculiar, Tom se vê apaixonado por Summer que, por sua vez, alimenta uma visão bem diferente sobre o amor. Aqui, o aviso do narrador no começo do filme se torna relevante: “essa não é uma história romântica”, pois Summer começa a dar sinais de que não deseja ter nada sério e que não acredita no amor, enquanto Tom cada vez mais se afoga no “namoro”.

A simpática morena poderia ser rotulada como a grande vilã do filme, não fosse sua complexidade intrigante. Mais do que diferente, Summer é também o retrato de tudo aquilo que se opõe aquele amor padrão, imposto por tantos “finais felizes” que proliferam por aí, seja no cinema, na literatura ou em qualquer lugar. O discurso dela de não acreditar em almas gêmeas pode ser um baque, – ainda mais para aqueles mais sentimentais – mas faz sentido. E ela o leva a ferro e fogo, tanto que nutre uma relação com Tom por meses sem conseguir se definir como sua namorada.

E é nesse emaranhado de amores tradicionais e alternativos que a trama se desenrola. A opção do diretor Mark Webb de não sustentar a linearidade é um tempero especial na história. A trajetória do relacionamento dos protagonistas é apresentada de forma quebradiça, com flashes do início intercalados com episódios do término, pós-término e do desfecho, o que confere à obra um artifício de aprisionamento do espectador. Acabamos por esperar, avidamente, o desenlace. É interessante reparar que em momento nenhum é mostrado uma conversa derradeira de fim de relação, mas, mesmo assim, vê-se o interesse de Summer esvaindo-se com o passar dos episódios. Webb, assim, rompe com o comum clímax, que acaba não existindo.

A música é pop, flertando com o antigo e clássico, como Simon and Garfunkel, até baladinhas nouvelle-vague, na voz da estonteante Carla Bruni. Mas The Smiths é que ganha posição especial no filme, pois embala o começo do relacionamento de Tom e Summer.

A direção oscila entre certeira e imatura. Prova disso é a cantoria de Tom após ter ficado com Summer pela primeira vez. Os poucos segundos de canto são um grande deslize, que fazem com que o filme se assemelhe High School Musical. Em compensação, idéias originais do diretor são consideráveis, como a divisão da tela em duas, apresentando, simultaneamente, a expectativa de Tom e o que realmente aconteceu em determinada situação.

500 dias com ela é um filme aprazível e divertido, que não entrou no circuito comercial à toa. Não vale só o ingresso, mas também um pensamento aprofundado na mensagem que passa.

500 DIAS COM ELA
((500) Days of Summer), 2009, Estados Unidos. (95 min.)
Dir.: Marc Webb

Os Inquilinos

Realidade nua e crua

O crescimento da violência e as mazelas de nossa sociedade são retratados em novo filme de Sérgio Bianchi

ADRIANO GARRETT
O FINO DA MOSTRA

Em tempos de disseminação de frases de auto-ajuda, no estilo “tudo vai dar certo”, é bom que certos filmes fujam dessa tendência, e tentem dar um novo olhar aos nossos problemas sociais. Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, se encaixa nesse tipo. O diretor, que já havia se notabilizado com seus filmes anteriores por não ter medo de mostrar as mazelas de nossa sociedade, faz isso novamente em seu novo filme.

Acusar Bianchi de ser pessimista demais é fácil. O problema é que a realidade mostrada em seus filmes não dá margem a outra visão. E é essa falta de perspectivas que causa no espectador uma sensação de incômodo. Porém, é isso também que nos instiga a refletir sobre o que é exibido, já que percebemos aos poucos que aquilo está muito mais ligado ao nosso cotidiano do que imaginamos.

A família de Valter, personagem principal do filme, sente isso na pele quando novos vizinhos, os inquilinos do título, chegam à casa ao lado. Com toda a aparência de bandidos, eles vão, aos poucos, mudando a rotina dos adultos, que assistem pela janela ao crescimento da violência na frente de seus próprios olhos.

O fio condutor de toda trama é Valter. Entregador de frutas de manhã, ele estuda a noite para tentar recuperar o tempo perdido e buscar melhorar de vida. Com a chegada dos vizinhos, torna-se cada vez mais perturbado e paranóico, por não suportar a situação humilhante que é construída aos poucos. O pior de tudo, para ele, é não poder fazer nada para mudá-la.

A violência, tão espetacularizada em programas de TV como o de José Luis Datena (que aparece em uma parte do filme), torna-se agora, para aquela família, uma realidade próxima. É um retrato de uma situação em curso no país, onde famílias que viam o crime como algo distante, de TV mesmo, passam a ter um contato real com ele, de uma forma ou de outra.

Mas não é só essa a mensagem que o filme quer passar. Ele também abre nossos olhos para outras graves situações que, hoje em dia, já deixamos de nos preocupar, de tão banais que se tornaram. O crime organizado, a erotização infantil, a pedofilia, o preconceito social e a falta de limites das crianças são alvos de alfinetadas de Bianchi, em cenas que mais se parecem com um soco na cara do espectador, visando acordá-lo para a realidade.

É, enfim, um filme duro, que não acredita em heróis. Nele, todos já foram, de alguma forma, corrompidos pelo sistema, e não há uma esperança em mudar este fato.

Sérgio Bianchi, quando perguntado se sua visão sobre as coisas não seria cética demais, respondeu que não tinha uma visão cética. Somente apresentava os fatos como eles são. Seria bom que mais filmes fossem como esse: duros, mas necessários, escancarando a mediocridade de uma sociedade com tantos defeitos.

OS INQUILINOS
(Idem), 2009, Brasil. (103 min.)
Dir.: Sérgio Bianchi

01/11 (Dom) | 18:20 – Sessão 1004 | Cine Bombril 1

Flor Congelada

…E a rosa despetalada

No grotesco filme coreano, um frio monarca gay congela e ameaça toda a nação

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

O contato entre o cinema da Coreia do Sul e o dos Estados Unidos está cada vez maior. O excelente O Hospedeiro foi bastante comentado e elogiado na América do Norte. Escrito, péssimo pastiche que esteve até na repescagem da Mostra passada, usava trilhas sonoras de filmes americanos e copiava a estética da série Jogos Mortais. Infelizmente, esse é o caso de Flor Congelada: o intercâmbio de ideias gerou péssimos resultados.

A história se passa na Dinastia Goryeo (918-1392 d.C.), e mostra o romance do Rei (Ju Jin-Mo) com seu guardacostas, o capitão Hong Lim (Jo In-Seong). Essa relação impede que o monarca gere um herdeiro com a Rainha (Song Ji-Hyo), e Hong é secretamente ordenado a tentar engravidá-la. Porém, ele começa a se envolver com a mulher, o que enfurece o Rei. Ao mesmo tempo, forma-se um complô para destronar o regente infértil.

Ao tratar de um tema tão espinhoso quanto a homossexualidade, o diretor Yu Ha ao menos não cometeu o pecado da omissão: esse é um filme de excessos. Para começar, a mensagem é majoritariamente homofóbica. O Rei é visto como incompetente e perigoso, ameaçando toda a integridade do país com seu desequilíbrio emocional.

Hong sofre da mesma montanha-russa amorosa, mas seus desvarios sempre apontam para a concepção da Rainha – e isso é um benefício para todos. A paixão homossexual leva à morte, à destruição e à loucura. Jin-Mo infelizmente embarca na ideia, e não demora em fazer de seu personagem um homem infeliz e insatisfeito.

Nas relações sexuais (explícitas), também parece haver preconceito. Com uma sonoplastia pesada, beirando o grotesco, a impressão que fica é a de repulsa ao ato homossexual. Ledo engano. O sexo heterossexual é filmado da mesma maneira, talvez com até mais deselegância. Essas semelhanças até se explicam: o amor gay chega a ser “aceito”, só por demagogia e necessidade dramática. Entretanto, a metáfora é clara.

Embora o roteiro bipolar seja ruim por si só, a pior parte é a direção. A ação é tão mal filmada que é impossível saber se é realista ou fantástica. O sangue sai em jatos, mas com o ruído líquido de um terror americano. Qualquer sequência, seja um festival ou uma silenciosa troca de olhares, traz tomadas demais, editadas à exaustão. Não é nem preciso comentar a horrenda cena do ameaçador Rei surgindo em meio a relâmpagos.

É curioso que um dos piores filmes da 33ª Mostra seja coreano, assim como um dos melhores: Mother. E é notável como este trabalha cuidadosamente as fórmulas ocidentais, e como Flor Congelada prefere segui-las erraticamente.

FLOR CONGELADA
(Ssang-hwa-jeom), 2008, Coreia do Sul. (133 min.)
Dir.: Yoo Ha

01/11 (Dom) | 22:30 – Sessão 985 | Unibanco Arteplex 5