A Fita Branca

O silêncio de Haneke

Faltam palavras para A Fita Branca. Não é por choque ou confusão, e sim pelo desdém do diretor

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

O vídeo acima mostra como o público reagiu à última sessão de A Fita Branca na Mostra. Não foi um silêncio absoluto, mas não teve quase nada do típico burburinho pós-filme. As pessoas foram silenciadas por Michael Haneke. Seria por choque ou por confusão? Talvez por ambos. O diretor tem o costume de impactar com a violência sutil de suas tramas e deixar mistérios abertos. Seu novo trabalho, no entanto, tem algo mais.

Esse algo tem a ver com a narração em off . Esse recurso é usado para distanciar o espectador. Tudo o que o Professor narra tem a função de resumir elementos de conexão entre as cenas e explicar os mais puros fatos. Muitas vezes, ele joga um grande volume de informações, quase desviando a atenção da imagem. Isso é no mínimo estranho, já que o olhar é tão essencial em sua obra – especialmente em Caché.

Neste, no entanto, há um processo parecido com o visto no filme de 2009. As fitas não filmavam nada, e quem as gravou não apresentava nenhuma ameaça direta. Só o fato de alguém observar já era opressor O dano (o conflito) é causado pelo simples processo de observar, gravar e mostrar, como se pessoas culpadas sempre se sentissem encurraladas de antemão.

A Fita Branca
se revela ainda mais extremo, pois não pressupõe essa culpa. Despido da metalinguagem com o espectador, Haneke cria personagens que agem como se não estivessem sendo assistidos. O silêncio do diretor é acachapante. Ele se mantém afastado desde o começo, ao apresentar verborragicamente a parteira e mostrá-la num perfil unidimensional, desprezível.

Ao apresentar os horrores que vão ocorrendo, o diretor não faz um julgamento sequer, como já havia feito antes, inclusive em Violência Gratuita. Não há diálogo intencional com o público, pois o que se sente é a omissão do cineasta. Não há mistério para os motivos das maldades, pois eles são visíveis desde o início. Não há impacto causado por dúvidas ou revelações, pois as brutalidades são mostradas calmamente.

Com todo um mundo ficcional em mãos, ele era capaz de fazer o comentário que quisesse. Antigamente, ele fustigaria a reação no espectador, usando as tramas abertas e as revelações ambíguas como pavio para análise. Aqui, depois de já ter mostrado o poder destruidor da juventude e da infância em outros filmes, ele se afasta. Não há revolta induzida: há apenas um estudo cerebral sobre a mentalidade pré-nazista, que é tão orgânica quanto parece.

Esse desdém pelos atos humanos chega a picos inéditos, mesmo para alguém que nunca estimou nossa espécie. O olho com que o diretor observa é frio, quase teórico. Ao escrever um roteiro que estuda as origens do nazismo (o peso ditatorial da religião, o protecionismo a atos violentos, a sociedade de controle) e filmá-lo em preto e branco, ele está mostrando as nuances cinzentas que descambam para o que há de mais negro na alma humana. Não lhe importa que, desde as raízes, aquilo “fosse reprovável”.

É assustador que alguém consiga chegar ao ponto de confeccionar personagens tão cadavéricos. O interesse de Haneke é analisar tudo da forma mais branda possível – até a morte. O tom nunca se excede, nem na sutileza da violência que filmou em Violência Gratuita nem na brutalidade escancarada que mostrou em Caché. Portanto, o que se sucede na aldeia não é justificável nem condenável: é apenas uma teoria que retrocede um fato (o nazismo) que faz parte da História. Em A Fita Branca, ele sublima sua misantropia, desarmando e calando até o espectador que pretendia ser chocado.

A FITA BRANCA
(Das weiße Band – Eine deutsche Kindergeschichte), 2009, Alemanha/Áustria/França/Itália. (144 min.)
Dir.: Michael Haneke

4 respostas para A Fita Branca

  1. Norma Freitas Ceu

    Pedro,

    Amei, Amei seu comentario. Que orgulho .

    Tia Mitcha

  2. Raramente vemos textos bem escritos assim, e que tratam de forma “livre” o pensamento sobre um filme.

    Parabéns!

  3. Ricardo Wagner

    Retirando os falsos intelectualismos que descobrem densidade no filme, o mesmo é arrastado, lento, chato, desgastante e tolo (além de tremendamente escuro, o que não tem nada com o estilo”dark”). Fica para os intelectóides a tarefa de achar algo de útil nessa gravação alemã/austríaca de segunda relacionando-o ao nazismo, ao facismo, à juventude nazista e outras tolices.

  4. lamento a análise tão equivocada de um dos mais belos e impactantes filmes já realizados. Hanecke está de parabéns! Uma grande obra!

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