Arquivo do dia: 10/11/2009

A Fita Branca

O silêncio de Haneke

Faltam palavras para A Fita Branca. Não é por choque ou confusão, e sim pelo desdém do diretor

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

O vídeo acima mostra como o público reagiu à última sessão de A Fita Branca na Mostra. Não foi um silêncio absoluto, mas não teve quase nada do típico burburinho pós-filme. As pessoas foram silenciadas por Michael Haneke. Seria por choque ou por confusão? Talvez por ambos. O diretor tem o costume de impactar com a violência sutil de suas tramas e deixar mistérios abertos. Seu novo trabalho, no entanto, tem algo mais.

Esse algo tem a ver com a narração em off . Esse recurso é usado para distanciar o espectador. Tudo o que o Professor narra tem a função de resumir elementos de conexão entre as cenas e explicar os mais puros fatos. Muitas vezes, ele joga um grande volume de informações, quase desviando a atenção da imagem. Isso é no mínimo estranho, já que o olhar é tão essencial em sua obra – especialmente em Caché.

Neste, no entanto, há um processo parecido com o visto no filme de 2009. As fitas não filmavam nada, e quem as gravou não apresentava nenhuma ameaça direta. Só o fato de alguém observar já era opressor O dano (o conflito) é causado pelo simples processo de observar, gravar e mostrar, como se pessoas culpadas sempre se sentissem encurraladas de antemão.

A Fita Branca
se revela ainda mais extremo, pois não pressupõe essa culpa. Despido da metalinguagem com o espectador, Haneke cria personagens que agem como se não estivessem sendo assistidos. O silêncio do diretor é acachapante. Ele se mantém afastado desde o começo, ao apresentar verborragicamente a parteira e mostrá-la num perfil unidimensional, desprezível.

Ao apresentar os horrores que vão ocorrendo, o diretor não faz um julgamento sequer, como já havia feito antes, inclusive em Violência Gratuita. Não há diálogo intencional com o público, pois o que se sente é a omissão do cineasta. Não há mistério para os motivos das maldades, pois eles são visíveis desde o início. Não há impacto causado por dúvidas ou revelações, pois as brutalidades são mostradas calmamente.

Com todo um mundo ficcional em mãos, ele era capaz de fazer o comentário que quisesse. Antigamente, ele fustigaria a reação no espectador, usando as tramas abertas e as revelações ambíguas como pavio para análise. Aqui, depois de já ter mostrado o poder destruidor da juventude e da infância em outros filmes, ele se afasta. Não há revolta induzida: há apenas um estudo cerebral sobre a mentalidade pré-nazista, que é tão orgânica quanto parece.

Esse desdém pelos atos humanos chega a picos inéditos, mesmo para alguém que nunca estimou nossa espécie. O olho com que o diretor observa é frio, quase teórico. Ao escrever um roteiro que estuda as origens do nazismo (o peso ditatorial da religião, o protecionismo a atos violentos, a sociedade de controle) e filmá-lo em preto e branco, ele está mostrando as nuances cinzentas que descambam para o que há de mais negro na alma humana. Não lhe importa que, desde as raízes, aquilo “fosse reprovável”.

É assustador que alguém consiga chegar ao ponto de confeccionar personagens tão cadavéricos. O interesse de Haneke é analisar tudo da forma mais branda possível – até a morte. O tom nunca se excede, nem na sutileza da violência que filmou em Violência Gratuita nem na brutalidade escancarada que mostrou em Caché. Portanto, o que se sucede na aldeia não é justificável nem condenável: é apenas uma teoria que retrocede um fato (o nazismo) que faz parte da História. Em A Fita Branca, ele sublima sua misantropia, desarmando e calando até o espectador que pretendia ser chocado.

A FITA BRANCA
(Das weiße Band – Eine deutsche Kindergeschichte), 2009, Alemanha/Áustria/França/Itália. (144 min.)
Dir.: Michael Haneke

Você não vai sentir minha falta

As várias faces de uma face

Embora independente, esse filme norte-americano ainda duvida da capacidade do espectador

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Metalinguagem é uma das ferramentas mais espinhosas para se trabalhar num roteiro. Usada com habilidade, pode se tornar uma fonte rica de interpretações. Do contrário, pode acabar como em Você Não Vai Sentir Minha Falta. Insinuado de forma relativamente elegante, o jogo entre ator e “pessoa real” aparece de forma mais clara no final, quando a audição para um filme é mostrada.

Uma série de questionamentos cênicos é jogada nesse momento, mas não faz diferença alguma. Ou melhor, faz: super-expõe todo o processo já mostrado até então. As câmeras estão sempre próximas ao rosto dos atores, como se fossem seu interlocutor, ou filmam o que os personagens olham. Algumas vezes, celulares e câmeras digitais são utilizados, e não resta dúvida que o diretor pretendia alcançar o realismo.

A trama alterna cenas no hospital psiquiátrico em que Shelly (Stella Schnabel, co-autora do roteiro) foi internada e sua vida fora, regada a drogas, homens e desentendimentos. A interpretação de Schnabel mostra um tipo de letargia que não se extrai de atores, bons ou ruins. Seu compromisso com a verdade é tamanho que sua veracidade se torna palpável, totalmente perceptível. Fica bem claro que aquilo não é uma atuação, propriamente dita.

Além disso, existe todo um subtexto sobre fachadas e vida real. A protagonista passa alguns minutos em uma cena explicando que não se finge nada que não é. Para os mais desatentos, há passagens em que Shelly participa de audiências para uma peça, um filme e um vídeo, e sua expressividade não se altera ao “atuar”.

Há um fragmento particularmente desnecessário em que a atriz/personagem entra no saguão de um hotel e é mandada para fora. A câmera escondida grita que aquilo é uma aplicação do roteiro à vida real, mas exagera no didatismo. Como se não bastasse, a protagonista ressalta essa fixação pela identidade e pela possibilidade de ser outra pessoa quando narra sua visão das drogas.

A narração em off é um dos quatro elementos usados para dizer a mesma coisa: ainda há a metalinguagem, a estética visual e a “entrevista” com o doutor do hospital psiquiátrico. Se a intenção era embaçar a linha entre o real e o encenado, a diretora e roteirista Russo-Young não precisava esmiuçar a já exposta personalidade de Schnabel no “clímax” – a audição para o filme.

De fato, não sentiremos sua falta, Shelly. Não porque sua identidade real foi trocada pelo seu eu cinematográfico, mas sim porque já tivemos uma overdose de ambos.

VOCÊ NÃO VAI SENTIR MINHA FALTA
(You Won’t Miss Me), 2009, EUA. (81 min.)
Dir.: Ry Russo-Young