Seguindo em Frente

A vida após a morte

O diretor de Ninguém Pode Saber mostra o demônio familiar com esperança, mas sem conciliação definitiva

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

A história acompanha dois dias de uma reunião familiar na casa do patriarca (Yoshio Harada) e de sua esposa (Kirin Kiki). A visita ocorre para lembrar a morte de Junpei, o primogênito. Ryota (Hoshiro Abe), agora o filho mais velho, enfrenta o desdém do pai, que não aceita que ele não tenha seguido a profissão de médico.

No começo, tudo parece em ordem. O alimento, metáfora constante no filme, traz desentendimentos saudáveis. Mesmo assim, o encontro está fadado ao caos. Em vez de encarar essa inevitabilidade com pesar, a família Yokoyama prefere aproveitar o tempo junto comendo muito e se divertindo. Eles sabem que precisam falar, gritar e rir constantemente para não se lembrarem do falecido.

A matriarca parece incrivelmente evoluída perante o marido. Ela consegue participar e até mesmo comentar as mágoas de perder um filho – versatilidade que Kiki alcança com louvores. A tensão também se dá por causa de Ryota. Além de ter negado os planos do pai, ele se casou com uma viúva, que é obviamente mal vista.

É sutil a abordagem desses pequenos ressentimentos. Em meio conversas despojadas, surgem frases (“Crianças não crescem necessariamente como queremos”) que têm significados fortes para o homem da casa. Ele responde sem a mesma delicadeza, como se sentisse todas essas “farpas” e as devolvesse em represália.

Apesar dessa disputa de gerações, constantemente abordada pelo Cinema japonês, o tema do parente morto é crucial. Em certa cena, a esposa de Ryota (a excelente Yui Natsukawa) ouve da sogra que seria bom ela não engravidar, pelo bem do filho que tivera no primeiro casamento. Fica uma dúvida: ela estava sendo desagradável ou apenas comunicando as dores de ser mãe? E como a nora entendeu? Seu eterno e cordial sorriso é triste nesse momento, mas seria por raiva ou por pena?

Kore-eda, no entanto, não quer apenas contar uma história e criar personagens. Existe todo um pensamento estético. Na maioria dos planos, a câmera se mantém parada – sempre que a perspectiva é mudada, há um corte para outra tomada imóvel. Essa regra se estende até para as cenas de caminhada. Por mais que andem, os personagens não saem do lugar. Num momento, a avó tenta pegar uma borboleta que entrou na casa, crendo que é seu filho morto. A câmera se move. Mesmo assim, é uma euforia breve e limitada: ela anda em círculos, buscando o que já se perdeu.

Os pais do primogênito acabam prendendo toda a família nesse redemoinho. Mesmo assim, a segunda geração consegue deixar as tristezas de lado assim que vai embora, e a terceira, acompanhada de uma vívida trilha sonora, está mais distante ainda. É só dentro deles (mas à distância) que os antepassados podem viver em paz.

SEGUINDO EM FRENTE
(Aruitemo aruitemo), 2008, Japão. (114 min.)
Dir.: Hirokazu Kore-eda

| Disponível em streaming pelo site: The Auteurs |

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