Arquivo do dia: 04/11/2009

A Ressurreição de Adam

Chaminés no lugar do coração

A jornada intensa pela mente de um homem marcado pelo Holocausto

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Depois de um incidente violento, Adam (Jeff Goldblum) é levado de volta para um instituto especial. Só sobreviventes do Holocausto são tratados no local, situado no meio de um deserto em Israel. Os outros residentes, tanto pacientes quanto médicos, reagem de formas diferentes à postura do homem. Ele se sente superior, chegando até a conversar com o diretor em sua sala. Porém, nessa nova estadia, Adam é confrontado com suas memórias e traumas mais violentos.

O impacto psicológico do filme é muito forte, e quanto menos for revelado, melhor. O roteiro de Noah Stollman não hesita em reunir temas pesados por si só, como o Holocausto, a loucura e a morte. Não parando por aí, o roteirista ainda os mescla com elementos fantásticos. Logo, quando Adam revê seus colegas insanos, existe muito para o espectador estranhar e muitas linhas de raciocínio para seguir. É corajoso negar a resolução de certos mistérios, pois mantém o interesse até o fim.

Em alguns casos, é possível explicar os fenômenos sobrenaturais com o conceito de “mente sobre matéria”. Muito do que acomete Adam pode ser uma manifestação física de coisas que acontecem em sua cabeça. Entretanto, essa interpretação não resolve o poder do protagonista de “ler as pessoas”. Sua relação com os cachorros, por outro lado, é exposta detalhadamente.

Através de cenas em preto-e-branco horrível, o calvário no campo de concentração e seu passado como apresentador de circo são lentamente revelados. A alternância temporal segue regras definidas, deixando claro que as ações do presente são influenciadas pelo passado. Apesar de Stollman abrir mão do mistério que enriquece tanto a narrativa, os efeitos no personagem são elaborados. Fica implícito que Adam é obcecado com a superioridade.

Os abusos que sofreu cristalizaram em sua mente essa noção de superior e inferior – de humano e cachorro. Estes animais o perturbam, pois remetem a uma humilhação atroz e à perda da humanidade em prol da sobrevivência. Ele encara os horrores de outros pacientes para se sentir acima deles – afinal, só ele é capaz de confrontar o passado. A verdade é que ele é controlado por seus traumas. A integridade psicológica é só uma fachada.

A Ressurreição de Adam ainda conta com uma interpretação acachapante de Goldblum, que irradia e atrai todos os elementos da história. Sua voz, seus olhos e sua estatura colaboram para uma intensidade dramática que se opõe à alegria de suas diabruras circenses. Quando os dois aspectos se combinam, a carga emocional chega ao máximo. A ótima trilha sonora de Gabriel Yared também ajuda no impacto. Apesar de ter falhas sérias, o filme é uma experiência bastante interessante. Vale a pena, nem que seja para sair atordoado da sessão.

A RESSURREIÇÃO DE ADAM
(Adam Resurrected), 2008, Alemanha/EUA/Israel. (102 min.)
Dir.: Paul Schrader

04/11 (Qua) | 22:00 – Sessão 1296 | Cine Bombril 2