Não corra com tesouras!
A promissora comédia é um exemplo de como um filme pode ser cortado até perder o que tem de mais essencial
PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA
Estranhamente para uma comédia com Jim Carrey, I Love You Phillip Morris demorou para encontrar uma distribuidora nos Estados Unidos. É uma situação atípica para um filme atípico. O mais curioso é que os defeitos são ridiculamente comuns. A montagem, ainda em processo na premiere em Sundance, tornou a narrativa apressada.
Baseada em fatos e pessoas reais, a história gira em torno de Steven Russell (Carey). Depois de assumir sua homossexualidade, ele larga a família para viver uma vida “chiquérrima”. O dinheiro vem de uma série de golpes, e não demora para ele ser preso. Na cadeia ele conhece Phillip (Ewan McGregor), e se apaixona perdidamente. Em meio a transferências de prisão e mais falcatruas, a relação encontra inúmeros obstáculos.
A obra é muito bem dirigida. Sem se lixar para o politicamente correto, os diretores também evitam o outro extremo. O meio-termo é encontrado em um tom de deboche constante, que equilibra pequenos tiques estereotipados com momentos moderados. O resultado é um genuíno filme gay, que respeita, desrespeita e se mantém sincero.
É estranho que algo tão peculiar acabe prejudicado pela montagem. O resultado é uma chacina: não há quase nenhuma cena, propriamente dita. Tudo é contado através de resumos e narrações que passam zunindo pelas fases da vida dos personagens. Periodicamente, surge um momento isolado para mudar o rumo da trama, e voltamos a acompanhar sequências de sequências.
O personagem que mais sofre com isso é Morris, que, dada sua importância, praticamente inexiste. Embora ótimo em seus contidos maneirismos e sotaque leve, McGregor é apenas um rostinho bonito para ser idealizado. Steven, dadas as circunstâncias, é mais profundo e cria um divertido questionamento.
É interessante como, apenas com uma excepcional adaptabilidade, o protagonista consegue fingir profissionalismo. Estudo e dedicação não podem competir com esperteza e desenvoltura: a sociedade está atrás dessa fachada, e não do conteúdo do indivíduo. O roteiro acerta em relacionar Steven com essa visão de mundo, tornando-o vítima irrecuperável de um sistema fundado na falsidade e na ilusão do dinheiro.
A sutil falta de seriedade de Carey é perfeitamente adequada a essa proposta. É muito triste que em meio a acertos difíceis o filme acabe trucidado por uma tola e excessiva edição. Os personagens e os acontecimentos deslizam na tela sem firmeza. Isso é perfeitamente compreensível para Steven, mas seu sentimento por Phillip, e o próprio Phillip, se tornam vazios. Amar alguém pode ser superficial, mas não pode ser vazio.
I LOVE YOU PHILLIP MORRIS
(Idem), 2009, Estados Unidos. (102 min.)
Dir.: Glen Ficarra e John Requa
04/11 (Qua) | 22:50 – Sessão 1311 | CineSesc
05/11 (Qui) | 19:50 – Sessão 1414 | HSBC Belas Artes – Cândido Portinari

3 respostas Até agora ↓
Marcio Claesen // 03/11/2009 às 8:48
Concordo quanto à montagem. É tão rápida que não se aprofundaram no mais essencial, o amor dele por Phillip. E o filme favorece tanto o Jim Carrey, que vira um filme dele. E, infelizmente, pro lado ruim, já que ele voltou a usar suas famosas caretas e expressões.
Além disso, não gostei das piadas do início. Pra mim, soaram grosseiras, um humor pesado e fácil.
Note-se também que em se tratando de um filme sobre um amor gay, que os dois momentos em que o casal se beija na boca, eles estão na contra-luz. No único momento em que se beijam com a luz acesa, é um beijo no rosto. Óbvio que foi uma atitude covarde pra deixar o filme “palátvel” pra um número maior de pessoas.
Um dos filmes mais fracos da Mostra na minha opinião.
Gabriel // 06/11/2009 às 9:13
Marcio, compartilho da sua opinião, achei o filme bem fraco.
Não entendi se a proposta era ser um filme irônico, crítico (com as referencias ao sistema judicial norte-americano no final) ou sentimental. Na tentativa de ser todos, acho que não conseguiu ser nenhum.
Apesar dos comentários bons, achei as atuações fracas, Jim Carrey (diferente de em Brilho Eterno, com uma atuação primorosa), não conseguiu me convencer como homossexual de verdade (e não apenas um estereótipo exagerado).
E os beijos na contra-luz, realmente, uma clara demonstração de covardia do diretor.
Maria do Carmo // 08/11/2009 às 18:04
Desejo parabenizar o crítico Pedro Costa – sua frase final define tudo!