Os Inquilinos

Realidade nua e crua

O crescimento da violência e as mazelas de nossa sociedade são retratados em novo filme de Sérgio Bianchi

ADRIANO GARRETT
O FINO DA MOSTRA

Em tempos de disseminação de frases de auto-ajuda, no estilo “tudo vai dar certo”, é bom que certos filmes fujam dessa tendência, e tentem dar um novo olhar aos nossos problemas sociais. Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, se encaixa nesse tipo. O diretor, que já havia se notabilizado com seus filmes anteriores por não ter medo de mostrar as mazelas de nossa sociedade, faz isso novamente em seu novo filme.

Acusar Bianchi de ser pessimista demais é fácil. O problema é que a realidade mostrada em seus filmes não dá margem a outra visão. E é essa falta de perspectivas que causa no espectador uma sensação de incômodo. Porém, é isso também que nos instiga a refletir sobre o que é exibido, já que percebemos aos poucos que aquilo está muito mais ligado ao nosso cotidiano do que imaginamos.

A família de Valter, personagem principal do filme, sente isso na pele quando novos vizinhos, os inquilinos do título, chegam à casa ao lado. Com toda a aparência de bandidos, eles vão, aos poucos, mudando a rotina dos adultos, que assistem pela janela ao crescimento da violência na frente de seus próprios olhos.

O fio condutor de toda trama é Valter. Entregador de frutas de manhã, ele estuda a noite para tentar recuperar o tempo perdido e buscar melhorar de vida. Com a chegada dos vizinhos, torna-se cada vez mais perturbado e paranóico, por não suportar a situação humilhante que é construída aos poucos. O pior de tudo, para ele, é não poder fazer nada para mudá-la.

A violência, tão espetacularizada em programas de TV como o de José Luis Datena (que aparece em uma parte do filme), torna-se agora, para aquela família, uma realidade próxima. É um retrato de uma situação em curso no país, onde famílias que viam o crime como algo distante, de TV mesmo, passam a ter um contato real com ele, de uma forma ou de outra.

Mas não é só essa a mensagem que o filme quer passar. Ele também abre nossos olhos para outras graves situações que, hoje em dia, já deixamos de nos preocupar, de tão banais que se tornaram. O crime organizado, a erotização infantil, a pedofilia, o preconceito social e a falta de limites das crianças são alvos de alfinetadas de Bianchi, em cenas que mais se parecem com um soco na cara do espectador, visando acordá-lo para a realidade.

É, enfim, um filme duro, que não acredita em heróis. Nele, todos já foram, de alguma forma, corrompidos pelo sistema, e não há uma esperança em mudar este fato.

Sérgio Bianchi, quando perguntado se sua visão sobre as coisas não seria cética demais, respondeu que não tinha uma visão cética. Somente apresentava os fatos como eles são. Seria bom que mais filmes fossem como esse: duros, mas necessários, escancarando a mediocridade de uma sociedade com tantos defeitos.

OS INQUILINOS
(Idem), 2009, Brasil. (103 min.)
Dir.: Sérgio Bianchi

01/11 (Dom) | 18:20 – Sessão 1004 | Cine Bombril 1

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