Flor Congelada

…E a rosa despetalada

No grotesco filme coreano, um frio monarca gay congela e ameaça toda a nação

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

O contato entre o cinema da Coreia do Sul e o dos Estados Unidos está cada vez maior. O excelente O Hospedeiro foi bastante comentado e elogiado na América do Norte. Escrito, péssimo pastiche que esteve até na repescagem da Mostra passada, usava trilhas sonoras de filmes americanos e copiava a estética da série Jogos Mortais. Infelizmente, esse é o caso de Flor Congelada: o intercâmbio de ideias gerou péssimos resultados.

A história se passa na Dinastia Goryeo (918-1392 d.C.), e mostra o romance do Rei (Ju Jin-Mo) com seu guardacostas, o capitão Hong Lim (Jo In-Seong). Essa relação impede que o monarca gere um herdeiro com a Rainha (Song Ji-Hyo), e Hong é secretamente ordenado a tentar engravidá-la. Porém, ele começa a se envolver com a mulher, o que enfurece o Rei. Ao mesmo tempo, forma-se um complô para destronar o regente infértil.

Ao tratar de um tema tão espinhoso quanto a homossexualidade, o diretor Yu Ha ao menos não cometeu o pecado da omissão: esse é um filme de excessos. Para começar, a mensagem é majoritariamente homofóbica. O Rei é visto como incompetente e perigoso, ameaçando toda a integridade do país com seu desequilíbrio emocional.

Hong sofre da mesma montanha-russa amorosa, mas seus desvarios sempre apontam para a concepção da Rainha – e isso é um benefício para todos. A paixão homossexual leva à morte, à destruição e à loucura. Jin-Mo infelizmente embarca na ideia, e não demora em fazer de seu personagem um homem infeliz e insatisfeito.

Nas relações sexuais (explícitas), também parece haver preconceito. Com uma sonoplastia pesada, beirando o grotesco, a impressão que fica é a de repulsa ao ato homossexual. Ledo engano. O sexo heterossexual é filmado da mesma maneira, talvez com até mais deselegância. Essas semelhanças até se explicam: o amor gay chega a ser “aceito”, só por demagogia e necessidade dramática. Entretanto, a metáfora é clara.

Embora o roteiro bipolar seja ruim por si só, a pior parte é a direção. A ação é tão mal filmada que é impossível saber se é realista ou fantástica. O sangue sai em jatos, mas com o ruído líquido de um terror americano. Qualquer sequência, seja um festival ou uma silenciosa troca de olhares, traz tomadas demais, editadas à exaustão. Não é nem preciso comentar a horrenda cena do ameaçador Rei surgindo em meio a relâmpagos.

É curioso que um dos piores filmes da 33ª Mostra seja coreano, assim como um dos melhores: Mother. E é notável como este trabalha cuidadosamente as fórmulas ocidentais, e como Flor Congelada prefere segui-las erraticamente.

FLOR CONGELADA
(Ssang-hwa-jeom), 2008, Coreia do Sul. (133 min.)
Dir.: Yoo Ha

01/11 (Dom) | 22:30 – Sessão 985 | Unibanco Arteplex 5

2 respostas para Flor Congelada

  1. BION I’m irmpsseed! Cool post!

  2. elaine generozo

    FLOR CONGELADA – FRONZEN FLOWER

    Aí vai uma crítica contrária a de Pedro Biasi:

    O nome do filme parece estar relacionado ao fato do amor do chefe pela rainha, representado pela flor, ser reprimido, contido, aprisionado, ou seja, congelado. A mesma coisa acontece com o amor homossexual e proibido do rei e do chefe.
    As cenas de sexo são muito eróticas para o meu gosto, mais não são pornográficas. Mostram que o oriental foi condicionado a não demonstrar sentimentos. È no sexo que os orientais colocam toda a força dos sentimentos amorosos que reprimem e não conseguem exteriorizar.Eu diria que os ocidentais falam muito sobre sexo, mas não conseguem fazê-lo com verdadeira intensidade erótica. Eles talvez falem muito em sexo tentando alcançar o desejo que pode nele estar contido. Quanto mais falam, mas distante se torna essa experiência. Os orientais não falam ou pouco falam sobre amor e, neste aspecto, se comunicam com o olhar e os gestos.Como no Tigre e o Dragão, o protagonista só confessa o seu amor quando está a beira da morte. No Flor Congelada é nos momentos, como a entrega do colar de sachê do chefe para a rainha e do lenço e dos bolinhos de arroz dela para ele, que se percebe a pureza do amor que nasceu entre eles, quase de trás para frente, ou seja, começou com um desejo sexual que foi crescendo aos poucos e fez brotar o amor e a paixão entre eles. O filme tem muitas metáforas e a Catarina percebeu a mais bonita delas, quando notou que o chefe ao responder à rainha se gostou do sabor do bolinho, está falando da estranheza que lhe causa o fato de amá-la ou dos dois se amarem. A compra pelo rei, de um cavalo mais bonito do que o dele próprio para presentear o chefe e a recusa dele em traí-lo com o invejoso sub-chefe, também mostra a intensidade dos sentimentos dele pelo chefe, o que extrapola o simples desejo sexual. Os cuidados e a preocupação do chefe com o rei, e vice versa, no início do filme também revela isso . Eu disse que o filme não é exatamente pornográfico até porque em nenhum momento foram mostrados frontalmente os órgãos centrais sexuais femininos e masculinos. Ainda assim, com a minha alma feminina e romântica, gostaria que as cenas fossem bem mais sutis, acontecendo atrás dos véus que rodeiam as camas orientais ou debaixo dos lençóis, ainda que se mostrasse as principais posições do Kamasutra. Mas, a Catarina tem razão, isso é irrelevante quando se percebe a delicadeza da paixão entre o chefe e a rainha porque até nos esquecemos das cenas sexuais com o decorrer do filme. As cenas de enfrentamento e morte entre soldados pecaram nos excessos de sangue jorrando e expirando, totalmente desnecessárias. Se elas tivessem sido feitas distantes das lentes da câmera, ao longe para quem está assistindo, teriam ficado mais leves, como numa das cenas bonitas de Hero, quando um casal de guerreiros invadem o palácio. O filme é de época, mas a crueldade e a fúria do rei despertada pelo paixão, ciúme e possessão pelo chefe, causa impacto e estranheza, mas não difere dos dias atuais no ocidente, quando algumas mulheres castram os maridos que as traem, homens matam mulheres e ou seus amantes porque não aceitam a dor da perda e da separação, etc.A rainha não é bonita, mas no filme isso é proposital. Mostra que o chefe se apaixonaria por ela de qualquer maneira, porque sua alma e seu corpo eram genuinamente masculinos. Se a rainha fosse muito bonita, intrinsecamente tenderíamos a justificar o amor dele por ela, em função da beleza. Coitado, o pobre rapaz nunca havia tido contatos com mulheres e foi condicionado pelo rei ao amor gay.Não digo coitado porque desconsidero o amor gay, mas porque no filme, o chefe foi desviado de sua real natureza, como poderia e acontece com os gays que se obrigam a casar ou aparecer ao lado de mulheres para conviver e, sociedade. Percebe-se que esse condicionamento não foi por maldade do rei, que era adolescente e até puro quando se apaixonou pelo chefe que ainda era criança. Há uma cena em que o chefe está dormindo e ele cobre o pezinho dele. O filme deixa em aberto quando o chefe e o rei se envolveram sexualmente, mas não sugestiona pedofilia exatamente por causa dessa cena do pezinho. No final, foi quando o chefe diz que nunca amou o rei, que ele se vingou.Mas não era totalmente verdade, eis que antes dele se envolver com a rainha, tinha veneração pelo rei, que lhe despertou a única forma de amor que até então ele conhecia. Na verdade, ele só conheceu o amor que pode haver entre um homem e uma mulher quando se envolveu com a rainha. E, como ele era um homem, o relacionamento que ele teve com o rei deixou de ter qualquer importância. Ele deixa isso claro quando disse que o rei havia lhe mostrado o amor quando o forçou a se envolver sexualmente com a rainha. Mas não se pode eliminar o significado do afeto e carinho que ele havia nutrido pelo rei, ainda que, ao final, ele não o considerasse como amor. No início do filme se percebe esse afeto quando ele se joga na frente do rei e se fere para salvá-lo. O sub-chefe mostra como pode ser terrível o lado invejoso da natureza humana que anseia tudo o que outro tem. Ele quis servir sexualmente o rei, apenas para tomar o lugar do chefe. Mas não amava o rei, senão não teria deixado o chefe matá-lo. A cena final, em que a imagem do rei e do chefe se encaixam na pintura é maravilhosa.Durante o decorrer do filme, o fato do rei ter inicialmente se desenhado com a flecha e o chefe vir atrás dele, mostra o poder que o rei, na sua condição, pensava ter sobre o chefe, seu súdito que vem logo atrás.Quando o chefe fala que queria estar com a flecha também, está pedindo o reconhecimento da igualdade e também da a sua condição de homossexual ativo e não passivo como a do rei. O destaque do cenário é o jardim, cinza e triste como o sofrimento do chefe. O filme valoriza a arte em várias cenas, ou seja, as artes marciais, musicais e até a pintura., O ator que faz o chefe é maravilhoso.Ele é lindo e transmite uma aura indescritível em sua interpretação. A cena dele em frente ao jardim, sofrendo a noite toda, pela iniciativa de ter que rejeitar e se separar da rainha é muito tocante. As cenas de crueldade representadas pelas cabeças decapitadas e expostas em público e a castração do chefe são tristes e impactantes demais. Nos faz odiar o rei e sua loucura pelo chefe e ter imensa pena do chefe e da rainha. O rei castrou o chefe por ciúmes e também para igualá-lo a ele, para que nenhuma mulher pudesse tê-lo. As partes menos atrativas são as cenas da conspiração para destronar o rei, mas não poderiam faltar dado ao conteúdo épico do filme e paixão que os orientais nutrem pela artes marciais.A única cena homossexual do filme, entre o chefe e o rei é de bom gosto, cheia de paixão e sensualidade, mostrando que os homossexuais não são diferentes dos hetéros quando se trata da paixão sexual. Ao final, quando o chefe morrendo vê que a rainha está viva, um diretor ocidental não teria resistido a colocá-lo balbuciando que a amava antes de morrer, mas o diretor oriental não caiu nesse clichê.Então, nesta cena, você não sabe o que se passa na mente dele quando ele a vê e pode construir o que quiser. Enfim, quem assistir o filme com preconceitos, não captará a sua profundidade. Os excessos não lhe retiram a alcunha de filme arte

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