Arquivo do dia: 01/11/2009

Os Inquilinos

Realidade nua e crua

O crescimento da violência e as mazelas de nossa sociedade são retratados em novo filme de Sérgio Bianchi

ADRIANO GARRETT
O FINO DA MOSTRA

Em tempos de disseminação de frases de auto-ajuda, no estilo “tudo vai dar certo”, é bom que certos filmes fujam dessa tendência, e tentem dar um novo olhar aos nossos problemas sociais. Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, se encaixa nesse tipo. O diretor, que já havia se notabilizado com seus filmes anteriores por não ter medo de mostrar as mazelas de nossa sociedade, faz isso novamente em seu novo filme.

Acusar Bianchi de ser pessimista demais é fácil. O problema é que a realidade mostrada em seus filmes não dá margem a outra visão. E é essa falta de perspectivas que causa no espectador uma sensação de incômodo. Porém, é isso também que nos instiga a refletir sobre o que é exibido, já que percebemos aos poucos que aquilo está muito mais ligado ao nosso cotidiano do que imaginamos.

A família de Valter, personagem principal do filme, sente isso na pele quando novos vizinhos, os inquilinos do título, chegam à casa ao lado. Com toda a aparência de bandidos, eles vão, aos poucos, mudando a rotina dos adultos, que assistem pela janela ao crescimento da violência na frente de seus próprios olhos.

O fio condutor de toda trama é Valter. Entregador de frutas de manhã, ele estuda a noite para tentar recuperar o tempo perdido e buscar melhorar de vida. Com a chegada dos vizinhos, torna-se cada vez mais perturbado e paranóico, por não suportar a situação humilhante que é construída aos poucos. O pior de tudo, para ele, é não poder fazer nada para mudá-la.

A violência, tão espetacularizada em programas de TV como o de José Luis Datena (que aparece em uma parte do filme), torna-se agora, para aquela família, uma realidade próxima. É um retrato de uma situação em curso no país, onde famílias que viam o crime como algo distante, de TV mesmo, passam a ter um contato real com ele, de uma forma ou de outra.

Mas não é só essa a mensagem que o filme quer passar. Ele também abre nossos olhos para outras graves situações que, hoje em dia, já deixamos de nos preocupar, de tão banais que se tornaram. O crime organizado, a erotização infantil, a pedofilia, o preconceito social e a falta de limites das crianças são alvos de alfinetadas de Bianchi, em cenas que mais se parecem com um soco na cara do espectador, visando acordá-lo para a realidade.

É, enfim, um filme duro, que não acredita em heróis. Nele, todos já foram, de alguma forma, corrompidos pelo sistema, e não há uma esperança em mudar este fato.

Sérgio Bianchi, quando perguntado se sua visão sobre as coisas não seria cética demais, respondeu que não tinha uma visão cética. Somente apresentava os fatos como eles são. Seria bom que mais filmes fossem como esse: duros, mas necessários, escancarando a mediocridade de uma sociedade com tantos defeitos.

OS INQUILINOS
(Idem), 2009, Brasil. (103 min.)
Dir.: Sérgio Bianchi

01/11 (Dom) | 18:20 – Sessão 1004 | Cine Bombril 1

Flor Congelada

…E a rosa despetalada

No grotesco filme coreano, um frio monarca gay congela e ameaça toda a nação

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

O contato entre o cinema da Coreia do Sul e o dos Estados Unidos está cada vez maior. O excelente O Hospedeiro foi bastante comentado e elogiado na América do Norte. Escrito, péssimo pastiche que esteve até na repescagem da Mostra passada, usava trilhas sonoras de filmes americanos e copiava a estética da série Jogos Mortais. Infelizmente, esse é o caso de Flor Congelada: o intercâmbio de ideias gerou péssimos resultados.

A história se passa na Dinastia Goryeo (918-1392 d.C.), e mostra o romance do Rei (Ju Jin-Mo) com seu guardacostas, o capitão Hong Lim (Jo In-Seong). Essa relação impede que o monarca gere um herdeiro com a Rainha (Song Ji-Hyo), e Hong é secretamente ordenado a tentar engravidá-la. Porém, ele começa a se envolver com a mulher, o que enfurece o Rei. Ao mesmo tempo, forma-se um complô para destronar o regente infértil.

Ao tratar de um tema tão espinhoso quanto a homossexualidade, o diretor Yu Ha ao menos não cometeu o pecado da omissão: esse é um filme de excessos. Para começar, a mensagem é majoritariamente homofóbica. O Rei é visto como incompetente e perigoso, ameaçando toda a integridade do país com seu desequilíbrio emocional.

Hong sofre da mesma montanha-russa amorosa, mas seus desvarios sempre apontam para a concepção da Rainha – e isso é um benefício para todos. A paixão homossexual leva à morte, à destruição e à loucura. Jin-Mo infelizmente embarca na ideia, e não demora em fazer de seu personagem um homem infeliz e insatisfeito.

Nas relações sexuais (explícitas), também parece haver preconceito. Com uma sonoplastia pesada, beirando o grotesco, a impressão que fica é a de repulsa ao ato homossexual. Ledo engano. O sexo heterossexual é filmado da mesma maneira, talvez com até mais deselegância. Essas semelhanças até se explicam: o amor gay chega a ser “aceito”, só por demagogia e necessidade dramática. Entretanto, a metáfora é clara.

Embora o roteiro bipolar seja ruim por si só, a pior parte é a direção. A ação é tão mal filmada que é impossível saber se é realista ou fantástica. O sangue sai em jatos, mas com o ruído líquido de um terror americano. Qualquer sequência, seja um festival ou uma silenciosa troca de olhares, traz tomadas demais, editadas à exaustão. Não é nem preciso comentar a horrenda cena do ameaçador Rei surgindo em meio a relâmpagos.

É curioso que um dos piores filmes da 33ª Mostra seja coreano, assim como um dos melhores: Mother. E é notável como este trabalha cuidadosamente as fórmulas ocidentais, e como Flor Congelada prefere segui-las erraticamente.

FLOR CONGELADA
(Ssang-hwa-jeom), 2008, Coreia do Sul. (133 min.)
Dir.: Yoo Ha

01/11 (Dom) | 22:30 – Sessão 985 | Unibanco Arteplex 5