Uma loira sem sal
Apesar de aparentemente ter um enredo que cativa, Singularidades de uma Rapariga Loura decepciona
NATALIA HORITA
O FINO DA MOSTRA
Mesmo com título instigante e amparado pela obra do autor Eça de Queirós de base, Singularidades de uma Rapariga Loura trai as expectativas do público. O filme começa em uma cena demorada de vistoria de bilhetes em um trem, na qual o protagonista, Macário, inicia um desabafo sentimental quase piegas com uma estranha que senta ao seu lado. Sem dissimular sua tristeza e transbordando padecimento no semblante, narra sua desilusão amorosa, atentando ao fato de que “foi com ela que ele se perdeu”. Essa chamada é um astuto artifício do diretor Manoel de Oliveira, que apela para a curiosidade inata das pessoas para cativar o espectador. Pena que o diretor escorrega e faz emergir uma história não interessante, mas sim monótona.
Macário começa a relatar sua vida de contador em Portugal e logo de cara apresenta aquela que causou sua destruição, Luisa. A estonteante loura, vizinha da casa da frente, suscita uma paixão frenética em Macário, confrontando seus dias quando aparece na janela acompanhada de sua delicadeza juvenil. Não demora para que o protagonista se perca no frisson oriundo de uma paixão desmedida e comece a seguir Luisa. Desalinhado totalmente de sua lucidez, o jovem apaixonado decide se casar o mais rápido possível, e solicita permissão para seu tio Francisco, que é também seu empregador. Além de ter seu pedido negado, Macário é despedido e expulso da sua casa, o que o leva a agir por conta própria. Ele ruma para Cabo Verde, onde um empreendimento o faz enriquecer. Com padrões financeiros mudados, o rapaz volta a encontro de sua amada, e a pede em noivado. Pouco antes de casar-se é que ele vai descobrir a tal singularidade da moça que o conquistou.
Este mistério de qual seria essa peculiaridade no caráter de Luisa que arruína e entristece Macário é a linha que emaranha toda a história e prende o espectador…até certo ponto. Seria ótima, não fosse o marasmo que contamina o filme. Cenas irrelevantes delongam, a mesma imagem de Portugal é utilizada para todas as passagens do filme e o desfecho não é algo estarrecedor. Ou seja, os poucos 64 minutos de filme se tornam longos, ou, no mínimo, facilmente enxugáveis. O diretor Manoel de Oliveira peca em não modificar a monotonia do conto de Eça de Queirós, o que acaba comprometendo o ânimo do público.
Para entusiastas da Mostra que almejam assistir o maior número de filmes possíveis, Singularidades de uma Rapariga Loura acaba se transformando em uma hora quase desperdiçada. Talvez o que não seja a misteriosa (porém decepcionante) singularidade de Luisa, mas sim sua beleza, bem semelhante aos encantos e traquejos de Lolita, a eterna ninfeta de Kubrick.
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
(Idem), 2009, Portugal. (63 min.)
Dir.: Manoel de Oliveira
30/10 (Sex) | 22:50 – Sessão 800 | Reserva Cultural 1
01/11 (Dom) | 18:10 – Sessão 994 | Cinemateca – Sala BNDES
03/11 (Ter) | 21:00 – Sessão 1179 | Unibanco Arteplex
04/11 (Qua) | 16:10 – Sessão 1279 | Cinema da Vila