Arquivo do dia: 30/10/2009

Patrik, idade 1,5

Sobre meninos e homens

Um drama sobre como superar os problemas da vida com firmeza, mas também com muita sensibilidade

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Exibido em diversos festivais de cinema por todo o mundo, o longa Patrik, idade 1,5 conta a história de um casal de homossexuais, Goran (Gustaf Skarsgard) e Sven (Torkel Petersson), que se muda para um aconchegante bairro na Suíça e resolve adotar uma criança. Depois de se decepcionarem por não conseguir a adoção, recebem finalmente um aviso sobre a disponibilidade de uma criança provinda de um ambiente conturbado, Patrik (Tom Ljungman), de um ano e meio. Porém, descobrem que o menino, na verdade, tem quinze anos e que é mais problemático do que eles imaginavam. É mal educado, homofóbico, agressivo e perigoso. Enquanto os assistentes sociais procuram por um lar melhor para Patrik, os dois o abrigam.

Goran é receptivo e tenta compreender a situação. Já Sven é dramático e extremista, demonstrando ódio pelo garoto. Durante o período em que Patrik fica na casa do casal, muitas coisas acontecem. Muitos acertos de contas e algumas mudanças. Essencialmente, trata-se de um filme sobre mudanças. Goran se torna mais maduro e “endurece” ao longo do filme, sendo capaz de buscar o melhor para si, custe o que custar. Já o garoto “amolece”, deixando de lado a máscara que vestia e mostrando o que há por trás de tanta violência. Assim, os dois constroem uma relação de afeto, transformando-se em grandes amigos.

É bonito de ver a relação dos dois. Mais bonito ainda é o desenrolar do filme, que emociona e que cativa até quem se incomoda com o amor homossexual. Cenas que poderiam ser chocantes para alguns, por mostrar beijos e carícias entre dois homens, revelam-se muito românticas e naturais. Ao mesmo tempo o filme é engraçado até no drama. As conversas do atual marido (Goran) com a ex-mulher de Sven são tão absurdas e tão diferentes do que estamos acostumados que chegam a ser pitorescas. Como uma troca de figurinhas.

Não é apenas um filme sobre a homossexualidade. Patrik, idade 1,5 trata da vontade de mudar, da influência que as pessoas exercem umas sobre as outras e, principalmente, do universo masculino. É um filme sobre homens e para os homens. O drama de três rapazes que são obrigados a conviver com as diferenças e a se tornarem mais humanos, sofrendo e se machucando como qualquer um. E perdendo a vergonha de serem sensíveis.

PATRIK, IDADE 1,5
(Patrik 1,5), 2008, Suécia. (100 min.)
Dir.: Ella Lemhagen

Samson & Delilah

Na sociedade selvagem

Produção australiana tem poucos diálogos, mas grandes momentos

WILSON SAIKI JR.
O FINO DA MOSTRA

Filmar em locais inóspitos, como o deserto australiano, não é tarefa fácil e o próprio ambiente passa a ter uma grande importância. Em Samson & Delilah somos apresentados a uma comunidade aborígine e aos dois jovens que dão título ao filme. A vida de ambos segue uma rotina monótona e a música é a única diversão, ou escape, para os personagens. Esse aspecto dá o tom do filme, bem explorado no decorrer da história.

A escolha do diretor Warwick Thornton em utilizar dois “não-atores” nos papéis principais atinge um efeito interessante, ambos conseguem cativar o espectador. O garoto Samson (Rowan McNamara) é acordado todos os dias ao som da banda de seu irmão, com quem divide a casa, e passa o dia vagando pela comunidade ou alimentando o vício à gasolina. Delilah (Marissa Gibson) cuida da avó e ajuda na pintura de tecidos que serão revendidos na cidade.

Entre uma canção country e uma balada latina o ritmo do filme se mantém inalterado, até uma ruptura na ordem em que vivem. Obrigados a juntar suas (poucas) coisas e fugir, a dupla segue até a cidade, onde se instala e passa a viver na companhia de um mendigo.

Quase não há diálogos no longa e você não ouvirá a voz do garoto Samson durante a história. Todas as expressões são por olhares ou expressões, mas o diretor consegue transmitir uma força impressionante mesmo nessas condições. A partir da mudança o casal enfrentará as adversidades ao confrontar-se com uma nova cultura e os dois sofrerão com a indiferença alheia, ali eles são invisíveis. Uma atmosfera de calor intenso durante o filme contrasta com a frieza nas relações pessoais, apenas o mendigo se importa, de alguma forma, com os personagens.

Será difícil sair do cinema com a sensação de já ter visto um filme parecido antes, e esse é o grande mérito da produção que ganhou o Prêmio Câmera D’Or em Cannes – concedido aos diretores estreantes. Uma relação de afeto diferente entre dois jovens, a abordagem de uma questão social local e passagens engraçadas, fugindo dos clichês a produção australiana inova e encanta.

SAMSON & DELILAH
(Idem), 2009, Austrália. (101 min.)
Dir.: Warwick Thornton

30/10 (Sex) | 22:00 – Sessão 752 | Unibanco Arteplex 3
31/11 (Dom) |15:40 – Sessão 953 | Multiplex Marabá 2
02/11 (Seg) | 19:00 – Sessão 1077 | Unibanco Arteplex 2
04/11 (Qua) | 14:00 – Sessão 1256 | Unibanco Arteplex 1

Singularidade de uma Rapariga Loura

Uma loira sem sal

Apesar de aparentemente ter um enredo que cativa, Singularidades de uma Rapariga Loura decepciona

NATALIA HORITA
O FINO DA MOSTRA

Mesmo com título instigante e amparado pela obra do autor Eça de Queirós de base, Singularidades de uma Rapariga Loura trai as expectativas do público. O filme começa em uma cena demorada de vistoria de bilhetes em um trem, na qual o protagonista, Macário, inicia um desabafo sentimental quase piegas com uma estranha que senta ao seu lado. Sem dissimular sua tristeza e transbordando padecimento no semblante, narra sua desilusão amorosa, atentando ao fato de que “foi com ela que ele se perdeu”. Essa chamada é um astuto artifício do diretor Manoel de Oliveira, que apela para a curiosidade inata das pessoas para cativar o espectador. Pena que o diretor escorrega e faz emergir uma história não interessante, mas sim monótona.

Macário começa a relatar sua vida de contador em Portugal e logo de cara apresenta aquela que causou sua destruição, Luisa. A estonteante loura, vizinha da casa da frente, suscita uma paixão frenética em Macário, confrontando seus dias quando aparece na janela acompanhada de sua delicadeza juvenil. Não demora para que o protagonista se perca no frisson oriundo de uma paixão desmedida e comece a seguir Luisa. Desalinhado totalmente de sua lucidez, o jovem apaixonado decide se casar o mais rápido possível, e solicita permissão para seu tio Francisco, que é também seu empregador. Além de ter seu pedido negado, Macário é despedido e expulso da sua casa, o que o leva a agir por conta própria. Ele ruma para Cabo Verde, onde um empreendimento o faz enriquecer. Com padrões financeiros mudados, o rapaz volta a encontro de sua amada, e a pede em noivado. Pouco antes de casar-se é que ele vai descobrir a tal singularidade da moça que o conquistou.

Este mistério de qual seria essa peculiaridade no caráter de Luisa que arruína e entristece Macário é a linha que emaranha toda a história e prende o espectador…até certo ponto. Seria ótima, não fosse o marasmo que contamina o filme. Cenas irrelevantes delongam, a mesma imagem de Portugal é utilizada para todas as passagens do filme e o desfecho não é algo estarrecedor. Ou seja, os poucos 64 minutos de filme se tornam longos, ou, no mínimo, facilmente enxugáveis. O diretor Manoel de Oliveira peca em não modificar a monotonia do conto de Eça de Queirós, o que acaba comprometendo o ânimo do público.

Para entusiastas da Mostra que almejam assistir o maior número de filmes possíveis, Singularidades de uma Rapariga Loura acaba se transformando em uma hora quase desperdiçada. Talvez o que não seja a misteriosa (porém decepcionante) singularidade de Luisa, mas sim sua beleza, bem semelhante aos encantos e traquejos de Lolita, a eterna ninfeta de Kubrick.

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
(Idem), 2009, Portugal. (63 min.)
Dir.: Manoel de Oliveira

30/10 (Sex) | 22:50 – Sessão 800 | Reserva Cultural 1
01/11 (Dom) | 18:10 – Sessão 994 | Cinemateca – Sala BNDES
03/11 (Ter) | 21:00 – Sessão 1179 | Unibanco Arteplex
04/11 (Qua) | 16:10 – Sessão 1279 | Cinema da Vila