A falta que ele faz
A vida do poeta John Keats ganha uma adaptação romântica (claro) para o cinema
PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA
Todo o romantismo dos versos de John Keats (Bem Whishaw) é retirado de sua própria vida, tema do filme Brilho de uma paixão. Coerentemente, a história é contada sob a ótica daquela que se tornará sua amada, Fanny Brawne (Abbie Cornish). O aparente ócio do poeta e de seu amigo de moradia e escrita, Sr. Brown (Paul Schneider), incomoda a jovem. Ela, por sua vez, tem a criação de roupas por passatempo, o que Keats vê como futilidade.
No início, o roteiro gera discussões interessantes. Tomando a moda como o ato de esconder e cobrir, ele a compara com a poesia, que é o desnudamento emocional. Assim começa a relação do casal: com uma rusga sobre essas duas atividades, personificadas nos personagens. No entanto, ambos estão atrás dessa fachada de opiniões e processos criativos, e é só ao sair dessa superfície que o romance se inicia.
Brawne se surpreende com o amor, pois está desacostumada com a profundidade sentimental. Por outro lado, fica implícito que Keats já conhecia emoções intensas. O equilíbrio a que eles chegam é bem ilustrado pela diretora. O contato é romantizado ao extremo, com planos fechados nos lábios e mãos se tocando. Esse tato ainda é mediado por muitas roupas. Fanny, em sua intimidade, usa trajes translúcidos.
Esse pudor corporal é muito bem trabalhado, especialmente na cena do sangue. Ver o fluido é encarar algo chocantemente interno e é de uma morbidez brutal e realista. Outro exemplo do apuro de Campion são os planos abertos. Em certa cena, após uma discussão, uma bela imagem mostra que os corpos são apenas pontos representativos, e os sentimentos, vastos como campos.
Entre uma fotografia e uma direção primorosas, e após uma introdução impecável, ocorre a grande decaída da obra. A tensão orgânica do começo dá lugar a uma sucessão artificial de infortúnios e afastamentos. Estes, especialmente, perdem sua força por se repetirem com insistência, ao que a montagem suprime várias das crises que a separação causa. Brawne reage de forma mecânica e simplória, apressando as tristezas da trama.
Essa inércia segue até o fim e sabota o filme irremediavelmente. Ainda restam ideias inspiradas, mas o dano já está feito. A sorte é que o trio de atores mantém um altíssimo nível. Cornish traz a face neutra, como o anjo que Keats vê. Ao sofrer, ela se deforma, e sua voz torna-se um cacarejo. Schneider destila habilmente todos os sentimentos que se originam de sua relação com o protagonista, entregando-se em dilacerante sinceridade.
O poeta ganha uma caracterização explosiva por Whishaw, que domina a cena e chega a fazer falta quando se ausenta. Embora a ausência de brilho na história seja generalizada, ele consegue a façanha de trazer uma emoção palpável e uma presença atordoante. Ao fazer com que sintamos saudades suas, como sua amada, o sentido do romantismo desperdiçado alça voo.
BRILHO DE UMA PAIXÃO
(Bright star), 2009, Reino Unido/Austrália/França. (119 min.)
Dir.: Jane Campion
30/10 – Sex | 20:00 – Sessão 842 | Multiplex Marabá 2
31/10 – Sáb | 19:00 – Sessão 946 | Cinemark – Shopping Cidade Jardim
05/11 – Qui | 17:40 – Sessão 1377 | Cinema da Vila