Um caso de amor
Almodóvar declara sua paixão pelo cinema em romance com tons autobiográficos
LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA
Abraços Partidos, novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, trata das relações humanas mais profundas com uma gentil delicadeza, assim como na maioria de suas obras. Nele, Lena (Penélope Cruz) é uma mulher atraente que quer ser atriz. Casada com seu antigo (e muito ciumento) chefe, ela é escolhida para interpretar a protagonista no filme Garotas e Malas, do diretor Mateo Blanco (Lluís Homar). Infeliz no casamento, encontra em Mateo a paixão que não sente pelo marido, atraindo os dois homens, que não só a desejam, mas também passam a protegê-la, cada um a sua maneira. Quando o filme começa, em 2008, já sabemos seu desfecho: Mateo Blanco se tornará cego em algum momento de sua vida e que mudará seu nome para Harry Caine. Lena, por sua vez, não passará de uma lembrança para ele.
O longa é uma homenagem do consagrado diretor espanhol ao cinema, fazendo referências o tempo todo a clássicos e atrizes. O filme do diretor Mateo Blanco, por exemplo, nos remete às tramas do próprio Almodóvar, com típicas cores intensas e cenas cômicas. Ao mesmo tempo, o marido de Lena grava cenas da mulher no trabalho, já desconfiando que ela pudesse estar o traindo. Depois, assiste a gravação inteira, vigiando a própria mulher. A sequência rende uma das cenas mais fascinantes, quando a personagem de Penélope Cruz descobre que está sendo gravada e interage com o próprio filme.
As tomadas são muito bem pensadas, prendendo o espectador, na ânsia de saber o que irá acontecer. O mistério do filme é sutil e revelado aos poucos, tornando claros os efeitos que acontecimentos do passado tiveram no presente. Apesar de seu exagero em algumas cenas, o longa não expõe o drama, como na maioria dos filmes do cineasta. É mais contido, mostra os problemas como se fossem corriqueiros. Em maio, no Festival de Cannes, Almodóvar declarou ter visto em Harry Caine a oportunidade de retratar seu desejo de “fugir de si mesmo”, o que pode explicar o jeito não tão típico do cineasta de contar a história.
Abraços Partidos é um filme sobre a perda e o perdão, sobre pessoas que já passaram por tantas coisas na vida que não têm mais nada a perder e que, por isso, continuam colocando tudo em risco pelo amor e pelo bem estar. Penélope Cruz contagia a história com sua beleza, mostrando a fragilidade de pessoas normais, que se expõem e dão a cara a tapa sem pensar no amanhã. Apenas pensando em continuar.
ABRAÇOS PARTIDOS
(Los Abrazos Rotos), 2009, Espanha. (128 min.)
Dir.: Pedro Almodóvar
30/10 (Sex) | 18:20 – Sessão 798 | Reserva Cultural 1