Arquivo do dia: 28/10/2009

Abraços Partidos

Um caso de amor

Almodóvar declara sua paixão pelo cinema em romance com tons autobiográficos

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Abraços Partidos, novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, trata das relações humanas mais profundas com uma gentil delicadeza, assim como na maioria de suas obras. Nele, Lena (Penélope Cruz) é uma mulher atraente que quer ser atriz. Casada com seu antigo (e muito ciumento) chefe, ela é escolhida para interpretar a protagonista no filme Garotas e Malas, do diretor Mateo Blanco (Lluís Homar). Infeliz no casamento, encontra em Mateo a paixão que não sente pelo marido, atraindo os dois homens, que não só a desejam, mas também passam a protegê-la, cada um a sua maneira. Quando o filme começa, em 2008, já sabemos seu desfecho: Mateo Blanco se tornará cego em algum momento de sua vida e que mudará seu nome para Harry Caine. Lena, por sua vez, não passará de uma lembrança para ele.

O longa é uma homenagem do consagrado diretor espanhol ao cinema, fazendo referências o tempo todo a clássicos e atrizes. O filme do diretor Mateo Blanco, por exemplo, nos remete às tramas do próprio Almodóvar, com típicas cores intensas e cenas cômicas. Ao mesmo tempo, o marido de Lena grava cenas da mulher no trabalho, já desconfiando que ela pudesse estar o traindo. Depois, assiste a gravação inteira, vigiando a própria mulher. A sequência rende uma das cenas mais fascinantes, quando a personagem de Penélope Cruz descobre que está sendo gravada e interage com o próprio filme.

As tomadas são muito bem pensadas, prendendo o espectador, na ânsia de saber o que irá acontecer. O mistério do filme é sutil e revelado aos poucos, tornando claros os efeitos que acontecimentos do passado tiveram no presente. Apesar de seu exagero em algumas cenas, o longa não expõe o drama, como na maioria dos filmes do cineasta. É mais contido, mostra os problemas como se fossem corriqueiros. Em maio, no Festival de Cannes, Almodóvar declarou ter visto em Harry Caine a oportunidade de retratar seu desejo de “fugir de si mesmo”, o que pode explicar o jeito não tão típico do cineasta de contar a história.

Abraços Partidos é um filme sobre a perda e o perdão, sobre pessoas que já passaram por tantas coisas na vida que não têm mais nada a perder e que, por isso, continuam colocando tudo em risco pelo amor e pelo bem estar. Penélope Cruz contagia a história com sua beleza, mostrando a fragilidade de pessoas normais, que se expõem e dão a cara a tapa sem pensar no amanhã. Apenas pensando em continuar.

ABRAÇOS PARTIDOS
(Los Abrazos Rotos), 2009, Espanha. (128 min.)
Dir.: Pedro Almodóvar

30/10 (Sex) | 18:20 – Sessão 798 | Reserva Cultural 1

Tom Zé Astronauta Libertado

A arte de Tom Zé

Documentário trata do processo criativo de um dos músicos brasileiros mais inventivos

ADRIANO GARRETT
O FINO DA MOSTRA

O documentário musical está na moda no Brasil. Artistas como Vinícius de Moraes, Wilson Simonal, Herbert Vianna, Arnaldo Batista, Caetano Veloso e tantos outros já foram alvo de filmes. Mas nenhum destes conseguiu ser protagonista de dois filmes. O único que realizou tal feito, e num curto espaço de tempo, foi Tom Zé, que, após ter sido personagem, em 2007, de Fabricando Tom Zé, agora é tema de novo documentário, Tom Zé Astronauta Libertado.

O filme, que faz parte da programação da Mostra, teve sua primeira exibição no último sábado, em uma sessão no Cinesesc que contou com a presença do diretor Ígor Iglesias González e do próprio Tom Zé. O foco do filme está na gravação do disco Danç-Êh-Sá e em uma oficina de experimentação musical que o músico ministrou nas Astúrias, Espanha.

O fato de González ser um estrangeiro (ele é espanhol) encantado pela música do artista não é novidade. Após integrar o movimento tropicalista, juntamente com Caetano Veloso e Gilberto Gil, Tom Zé viveu um período de ostracismo musical. O esquecimento do grande público só foi revertido quando o músico norte-americano David Byrne descobriu o seu disco Estudando o Samba e, fascinado pela música do baiano, resolveu lançá-lo no mercado internacional.

Este e outros fatos retrospectivos da carreira do músico são contados por meio de imagens de arquivo, que mostram a trajetória do cantor. Porém, o maior atrativo do filme é, na verdade, a atualidade de Tom Zé. A sua inventividade como artista segue inabalável, e o que se vê na telona é um bom estudo sobre o processo de criação artística.

O maior exemplo disso é a sua participação na oficina de experimentação espanhola, onde fala que “é burro o professor que não aprende com seus alunos”, frase emblemática para revelar um artista que nunca se fecha a novidades musicais e que se renova a cada dia.

No filme há também, é claro, um vasto repertório musical do cantor. Mas, por mais qualidade que possa ter a sua música, fica evidente em Tom Zé Astronauta Libertado que o artista por trás dela é ainda mais interessante. Por isso, caso o artista de 73 anos continue reinventando sua música a cada dia, não será nenhuma surpresa que novos documentários surjam sobre ele.

TOM ZÉ ASTRONAUTA LIBERTADO
(Idem), 2008, Espanha. (90 min.)
Dir.: Ígor Inglesias González

30/10 (Sex) | 22:10 – Sessão 831 | Espaço Unibanco Pompéia 10
31/10 (Sáb) | 12:00 – Sessão 891 | Cine Bombril 1