À Procura de Elly

O desespero ao enfrentar o inesperado

IVAN SARMENTO
O FINO DA MOSTRA

À Procura de Elly, de Asghar Farhadi, é tensão pura e se vale de vários artifícios para nos prender na cadeira durante os 119 minutos de duração. O filme é o indicado do Irã para a disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro e Farhadi ganhou o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim desse ano.

Ahmad, que acaba de se divorciar, volta ao Irã depois de anos vivendo na Alemanha. Ele e vários amigos, casados e com filhos, combinam de passar três dias nas margens do mar Cáspio. Sua amiga Sepideh, que organizou a viagem, convida também a professora de sua filha, sem avisar o grupo. Logo um clima de alegria se instala e todos convivem bem. Sepideh e os outros tentam unir Elly a Ahmad, o solteiro da turma. Ela, entretanto, aparenta não estar à vontade e planeja ir embora no dia seguinte.

Após os protestos de Sepideh para que passe mais alguns dias, Elly decide permanecer no lugar. No entanto, um acidente acontece e ela desaparece. É o ponto de partida para que tudo mude: a harmonia entre as pessoas dá lugar aos conflitos na tentativa de encontrar a professora e descobrir o motivo do desaparecimento. Aos poucos, alguns porquês vão aparecendo e, juntamente com os personagens, vamos descobrindo mais sobre a própria Elly.

Traduzir o desespero na busca por essas respostas é o que norteia a mise en scène da produção. Assim, a câmera de Farhadi é inquieta, nervosa e muito menos contemplativa do que a quem tem sido comum no cinema iraniano. Os diálogos, geralmente ásperos, ganham respaldo na habilidade do elenco, afiadíssimo. A força da unidade dramática e o naturalismo da filmagem facilitam a nossa inserção no drama, até porque o roteiro não traz digressões, cortes temporais ou outros elementos que nos distanciem do que está acontecendo. É como se acompanhássemos tudo bem de perto, sentindo e sofrendo junto com os personagens. Ainda assim, o diretor aproveita os momentos certos para colocar doses de lirismo, principalmente nas cenas de praia, quando a paisagem ganha força e ocasiona belas imagens.

Enfim, é um filme sobre o quanto a presença de algo aparentemente inexplicável pode alterar pessoas e relações humanas. A procura pelo entendimento e resolução de situações limite mostra-se, mais uma vez, terreno fértil para o cinema. O filme de Farhadi faz com que nos deparemos com dois sentimentos humanos vividos em momentos diferentes do longa: o entusiasmo inicial da viagem e a angústia da incerteza após o desaparecimento da professora. Isso, unido a uma malha de personagens fortes e um desenvolvimento articulado das ações, faz de À Procura de Elly um grande filme.

À PROCURA DE ELLY
(Darbareye Elly), 2009, Irã, (119 min.)
Dir.: Asghar Farhadi

26/10 (Seg) | 16:30 – Sessão 390 | Cinesesc

Uma resposta para À Procura de Elly

  1. Ana Paula de Deus

    Fiquei com mais vontade de assistir ao filme lendo o texto do que vendo o trailer. Mérito do autor da resenha.

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