No início havia o silêncio
As palavras podem ferir, mas tiram os personagens da inércia emocional
PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA
O enredo de 35 Doses de Rum é bem vago. Leonel (Alex Descas) vive com sua filha Joséphine (Mati Diop), estudante de vinte e poucos anos. No mesmo prédio, moram a balzaquiana Gabrielle (Nicole Dogué) e Noé (Grégoire Colin), que têm vínculos quase familiares com eles. A aposentadoria do colega de Leonel, René (Julieth Mars Toussaint), é uma das forças motrizes da história, assim como a aproximação entre Noé e Joséphine. Além disso, o departamento de antropologia da faculdade da jovem está sob a ameaça de ser fechado, e trará mais conflitos.
O filme de Claire Denis é todo calcado em silêncios. Cada um dos raros diálogos serve para abalar emoções que vivem em paz na quietude. É nos abraços, nos beijos, nos gestos e nas expressões que os personagens estabelecem suas relações. As palavras são emoções que eles não estão prontos para aceitar intimamente, e precisam verbalizar. Elas são cuspidas com dificuldade e doem, mas são necessárias.
Existe uma certa estagnação ao longo da narrativa. Demonstrações de afeto como abraços e beijos são reproduzidas exaustivamente. A diretora Claire Denis mantém a decupagem idêntica, para reforçar essa repetição. Em certos momentos, frases breves também são usadas para afagar. Essas cenas de carícia verbal, no entanto, começam e terminam em silêncio e mantêm contato corporal constante.
René embarca na maior fala do filme: um monólogo de tristeza e angústia profundas. É como se o mero ato de falar já trouxesse infelicidade. O mundo sentimental criado para a obra é plano e se limita a uma mesmice afetiva. Sempre que alguém, especialmente Gabrielle, tenta falar mais, encontra resistência. De fato, os diálogos variam do funcional ao banal. Quando saem dessa linha estável, continuam curtos, mas adicionam uma camada de preocupação que acompanha o roteiro até o fim.
O título é uma referência ao secreto. Como Leonel faz questão de mostrar, as 35 doses de rum talvez sejam uma história, mesmo. Porém, mais do que isso, elas são um estado de espírito. É disso que a obra é feita. Há um passado por trás daqueles personagens e suas ligações emocionais, mas revelações não têm importância. A pura emoção do momento, e o modo como ela é transformada por eventos externos, revela muito mais.
Denis e o co-roteirista Jean-Pol Fargeau não se reportam a fatos, acontecimentos e picos dramáticos. Logo, não há espaço ou tempo para se investigar eventos. Sempre que um elemento novo surge, a diretora dá enfoque ao sentimento que ele causa. Só perto do final há uma exposição, que destoa da história sentimental velada até então. Mesmo assim, a diretora e seu impecável elenco conseguem enquadrar o que há de mais abstrato na vida humana com muita sobriedade.
35 DOSES DE RUM
(35 Rhums), 2008, França/Alemanha, (100 min.)
Dir.: Claire Denis
26/10 (Seg) | 14:30 – Sessão 365 | Cinemateca – Sala Petrobras
29/10 (Qui) | 19:00 – Sessão 705 | Cine TAM
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