Oye Lucky! Lucky Oye!

Profissão: Ladrão

Sem moralismo, a comédia analisa o sistema capitalista que cria os ladrões

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Oye Lucky! Lucky Oye! traz uma trama vista em muitas outras produções. As semelhanças com Prenda-me Se For Capaz, de Spielberg, são muitas: o jovem descobre ter dons de ladrão, seus métodos são simples, ele foge constantemente da polícia, e por aí vai. Entretanto, tudo muda quando o enredo é transportado para a Índia. O filme começa com Lucky Singh (Abhay Deol) aos 31 anos, preso e com tudo o que roubou confiscado. Logo um flashback mostra como o garoto entrou para a vida criminosa. Vindo de família pobre, ele começa a furtar para satisfazer desejos pessoais, junto de seu irmão Bangali (Mani Rishi).

Existe um tom leve de humor negro, sem grandes arroubos dramáticos nem moralismos fáceis. Da mesma forma, o enfoque em um homem que vive à margem do sistema permite que o espectador embarque numa divertida fantasia. O visual também nada tem de novo, mas não chega a incomodar. Por outro lado, existe um comentário poderoso – e incômodo – nas entrelinhas: o ladrão é consequência direta do capitalismo.

Desde o início, Lucky furta itens para conquistar o sexo feminino. No entanto, essa coisificação mostra uma tendência ao consumismo que ele nem sempre percebe. Singh é visto como uma vítima da ordem capitalista. A quantidade e variedade absurda de seus roubos será explicada mais tarde. É a consequência de perceber que está preso num círculo vicioso de dinheiro e posses. Isso é visível no cenário de seu apartamento, lotado de objetos sem sentido.

A presença das mulheres também é curiosa. Ao longo do ágil roteiro, a personagem de Sonal (Neetu Shandra) é raramente desenvolvida. Sempre que a história se detém nela, no entanto, pode-se extrair significados tocantes. A breve cena em que ela explica sua formação marca a tragédia de ter uma vida promissora obstruída pelos excessos e vícios da riqueza.

Existe algo de curioso na performance de Deol, especificamente o fato de ela ser rasa. Mesmo que isso empobreça o personagem, é possível ver intenção nessa falha. Afinal, desde o começo, Lucky é citado como alguém que se parece com uma estrela de cinema. Sua superficialidade e seu carisma têm relação direta com a fama, como se o sistema capitalista achasse um meio de adequar a anomalia que ele mesmo criou.

É interessante reparar nas músicas do filme, todas compostas ou escritas pelo próprio diretor. O ótimo Paresh Rawal também rouba a cena com sua atuação. Ele assume nada menos que três papéis bem diferentes: o do pai de Lucky, de Gogi Bhai e do Dr. Handa. O destaque é a visão sobre o consumismo através dos olhos de um ladrão da Índia, país em que a economia e os problemas sócio-econômicos convivem com intensidade.

OYE LUCKY! LUCKY OYE!
(Oye Lucky! Lucky Oye!), 2008, Índia. (127 min.)
Dir.: Dibakar Banerjee

24/10 (Sáb) | 18:30 – Sessão 218 | Multiplex Marabá 2
25/10 (Dom) | 16:30 – Sessão 304 | Espaço Unibanco Pompéia 2
29/10 (Qui) | 17:20 – Sessão 646 | Unibanco Arteplex 4
31/10 (Sáb) | 18:20 – Sessão 958 | Matilha Cultural

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