Viagem silenciosa
Muitas perguntas, poucas respostas e muito espaço para imaginação
PAULO GADIOLI
O FINO DA MOSTRA
O filme A Invenção da Carne, dirigido pelo argentino Santiago Loza, foi apresentado pela primeira vez na abertura do 62º Festival de Locarno, na Suiça, e chega ao Brasil para ser exibido este ano na Mostra. A sinopse diz que “o relacionamento impossível entre María e Mateo é uma viagem sem destino certo”. Apesar de a definição parecer um pouco vaga, cabe ao filme com exatidão.
María é uma mulher que empresta seu corpo para estudos relacionados à faculdade de Medicina. Mateo é um dos estudantes envolvidos nas pesquisas, mas acaba sentindo algo a mais por aquela mulher que era somente uma ferramenta de seu aprendizado. Mais tarde, fica subentendido que ela não concedia seu corpo apenas para fins acadêmicos, mas, aparentemente, também era envolvida com prostituição. Ambos acabam por se conhecer em um bar, onde Mateo aborda María, convidando-a para que faça uma viagem com ele.
Começa assim uma longa caminhada simbólica, uma espécie de representação da relação que ambos mantinham através do silêncio. Silêncio constante, não só entre os personagens, mas também no filme. Santiago Loza faz, de fato, um forte uso da linguagem poética. O diretor optou por uma abordagem mais interpretativa, onde os acontecimentos não fossem ditados pelos diálogos em questão, mas sim multiplamente interpretados pela imaginação de cada espectador. Isso posto, o filme apresenta inúmeras nuances que levam a mostrar um relacionamento à parte de tudo que acontece no mundo.
O próprio cineasta afirma que o longa não tem o propósito de fazer alguma denúncia social, mostrar um contexto histórico. A única ideia é a psicologia dos personagens. Nem o futuro, nem o passado: apenas o presente. Tanto que é uma tarefa praticamente impossível descobrir algo dos personagens além do que está acontecendo ali, no momento.
Fica nítida, também, a intenção de mostrar a carne, mais especificamente o próprio físico humano, como catalisador de diversos sentimentos. Seja através da carência sentida por María, que dorme com inúmeros homens ao longo da viagem, ou mesmo da sensação que Mateo transparece ao tocar pela primeira vez um bebê e segurá-lo em suas mãos.
A Invenção da Carne não é um filme que dá respostas, mas oferece perguntas. Em uma espécie de viagem existencial, Santiago Loza instiga o espectador a buscar essas respostas, todas únicas e pessoais.
A INVENÇÃO DA CARNE
(La Invencion de la Carne), 2009, Argentina. (82 min.)
Dir.: Santiago Losa
23/10 (Sex) | 17:20 – Sessão 53 | Espaço Unibanco
31/10 (Sáb) | 20:40 – Sessão 863 | Unibanco Arteplex 3
01/11 (Dom) | 18:20 – Sessão 1021 | Reserva Cultural 1
03/11 (Ter) | 22:00 – Sessão 1036 | Espaço Unibanco Pompéia 10