O Cronometrista

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

O Cronometrista acerta ao revelar as facetas sombrias que a natureza humana adquire em situações extremas

ISABELLA AYUB
O FINO DA MOSTRA

O Cronometrista terceira produção do diretor Louis Bélanger e baseada no romance homônimo de Trevor Ferguson, narra a estranha história de Martin Bishop (Craig Olejnik), um canadense de dezoito anos, que, após o falecimento do pai, perde todas suas posses. Na miséria, o jovem se vê obrigado a trabalhar na construção da Grande Ferrovia de Slave Lake para sobreviver. Imerso no outono da tundra canadense – uma floresta ao noroeste afastada de qualquer sinal de civilização -, Martin conhece Fisk, chefe das obras e carrasco, que obriga sua legião de 73 trabalhadores a seguir um ritmo caótico de produção: 52 milhas – o equivalente a 83 km –, em 52 dias.

A maioria dos homens sob seu comando: pobres, bandidos, analfabetos ou miseráveis, se deixa explorar para conseguir um pagamento diário ínfimo. Martin é empregado por Fisk para ocupar o cargo de “cronometrista”, uma vez que o seu predecessor havia desaparecido. Sua função é gerir as horas de trabalho de cada um dos 73 homens e manter todos os dados atualizados. Mas o jovem logo percebe a maneira tirana com que Fisk lida com os trabalhadores, explorando, manipulando as horas trabalhadas, abusando de força e de poder, e resolve não ficar calado, questionando e sabotando os métodos do carrasco.

O chefe de obras logo expulsa Martin do acampamento, e o garoto não encontra outra opção senão perambular pela floresta na companhia dos outros excluídos – os chamados garbage eaters (comedores de lixo), que garantem sua sobrevivência alimentando-se dos restos de comida dos ex-colegas.

A partir daí trava-se uma luta para viver e denunciar os excessos cometidos por Fisk. O Cronometrista foca sistematicamente no dualismo do bem contra o mal, do justo contra o injusto – porém de uma forma criativa. Toda a jornada de Martin é guiada por seus princípios e moral, heranças de seu falecido pai. Porém, existe uma linha tênue separando os pólos desses valores: não raro, o protagonista é obrigado a fazer algo à primeira vista inaceitável, mas dadas as circunstâncias acaba justificado.

Aapesar de o enredo se desenvolver de forma inovadora, a atuação de Olejnik deixa a desejar: o ator não consegue transmitir o sentimento de força que seu papel exige, parecendo muitas vezes mais um galã da floresta do que de fato alguém que luta para sobreviver em uma situação adversa. Ademais, o filme apresenta algumas outras falhas, como o desaparecimento repentino e fora de contexto de um dos personagens.

Entre os méritos da produção está a fotografia. Longe de mostrar somente a beleza óbvia da região em que é filmado, a câmera explora a natureza selvagem e muitas vezes traiçoeira da floresta. A trilha sonora, bem utilizada, se faz presente nos momentos certos do longa. God’s Gonna Cut You Down , de Johnny Cash, dá ritmo à fuga de Martin e seu companheiro Scully e transmite o sentimento dessa jornada em busca da liberdade: mais cedo ou mais tarde quem foge acaba encurralado.

O CRONOMETRISTA
(The Timekeeper), 2009, Canadá. (102 min.)
Dir.: Louis Bélanger

23/10 (Sex) | 18:20 – Sessão 48 | Cine Bombril 2
02/11 (Seg) | 14:00 – Sessão 1132 | HSBC Belas Artes 2
04/11 (Qua) | 18:00 – Sessão 1346 | Multiplex Marabá 2
05/11 (Qui) | 14:00 – Sessão 1352 | Unibanco Arteplex 1

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