O FINO DA MOSTRA

O Cronometrista

19/10/2009 · Deixe um comentário

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

O Cronometrista acerta ao revelar as facetas sombrias que a natureza humana adquire em situações extremas

ISABELLA AYUB
O FINO DA MOSTRA

O Cronometrista terceira produção do diretor Louis Bélanger e baseada no romance homônimo de Trevor Ferguson, narra a estranha história de Martin Bishop (Craig Olejnik), um canadense de dezoito anos, que, após o falecimento do pai, perde todas suas posses. Na miséria, o jovem se vê obrigado a trabalhar na construção da Grande Ferrovia de Slave Lake para sobreviver. Imerso no outono da tundra canadense – uma floresta ao noroeste afastada de qualquer sinal de civilização -, Martin conhece Fisk, chefe das obras e carrasco, que obriga sua legião de 73 trabalhadores a seguir um ritmo caótico de produção: 52 milhas – o equivalente a 83 km –, em 52 dias.

A maioria dos homens sob seu comando: pobres, bandidos, analfabetos ou miseráveis, se deixa explorar para conseguir um pagamento diário ínfimo. Martin é empregado por Fisk para ocupar o cargo de “cronometrista”, uma vez que o seu predecessor havia desaparecido. Sua função é gerir as horas de trabalho de cada um dos 73 homens e manter todos os dados atualizados. Mas o jovem logo percebe a maneira tirana com que Fisk lida com os trabalhadores, explorando, manipulando as horas trabalhadas, abusando de força e de poder, e resolve não ficar calado, questionando e sabotando os métodos do carrasco.

O chefe de obras logo expulsa Martin do acampamento, e o garoto não encontra outra opção senão perambular pela floresta na companhia dos outros excluídos – os chamados garbage eaters (comedores de lixo), que garantem sua sobrevivência alimentando-se dos restos de comida dos ex-colegas.

A partir daí trava-se uma luta para viver e denunciar os excessos cometidos por Fisk. O Cronometrista foca sistematicamente no dualismo do bem contra o mal, do justo contra o injusto – porém de uma forma criativa. Toda a jornada de Martin é guiada por seus princípios e moral, heranças de seu falecido pai. Porém, existe uma linha tênue separando os pólos desses valores: não raro, o protagonista é obrigado a fazer algo à primeira vista inaceitável, mas dadas as circunstâncias acaba justificado.

Aapesar de o enredo se desenvolver de forma inovadora, a atuação de Olejnik deixa a desejar: o ator não consegue transmitir o sentimento de força que seu papel exige, parecendo muitas vezes mais um galã da floresta do que de fato alguém que luta para sobreviver em uma situação adversa. Ademais, o filme apresenta algumas outras falhas, como o desaparecimento repentino e fora de contexto de um dos personagens.

Entre os méritos da produção está a fotografia. Longe de mostrar somente a beleza óbvia da região em que é filmado, a câmera explora a natureza selvagem e muitas vezes traiçoeira da floresta. A trilha sonora, bem utilizada, se faz presente nos momentos certos do longa. God’s Gonna Cut You Down , de Johnny Cash, dá ritmo à fuga de Martin e seu companheiro Scully e transmite o sentimento dessa jornada em busca da liberdade: mais cedo ou mais tarde quem foge acaba encurralado.

O CRONOMETRISTA
(The Timekeeper), 2009, Canadá. (102 min.)
Dir.: Louis Bélanger

23/10 (Sex) | 18:20 – Sessão 48 | Cine Bombril 2
02/11 (Seg) | 14:00 – Sessão 1132 | HSBC Belas Artes 2
04/11 (Qua) | 18:00 – Sessão 1346 | Multiplex Marabá 2
05/11 (Qui) | 14:00 – Sessão 1352 | Unibanco Arteplex 1

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Espiral

19/10/2009 · Deixe um comentário

espiral2

Reflexos da imigração
Filme mexicano aborda tema sob o ponto de vista dos que ficam

ADRIANO GARRETT
O FINO DA MOSTRA

É natural que o cinema mexicano trate da imigração, tema tão presente no cotidiano do país que tem, na fronteira com os Estados Unidos, uma grande porta de entrada para imigrantes que tentam obter melhores condições de vida. Mas Espiral, filme de Jorge Pérez Solano, busca mostrar o lado  daqueles que ficam esperando pelo regresso dos que partiram.

A história se passa no povoado de San Pedro de Yodoyuxi. Ali, dois jovens -  Santiago e Diamantina -, estão apaixonados e querem se casar. Porém, o pai da garota exige um dote para o rapaz. Junto ao amigo Macário, Santiago ruma aos EUA para conseguir dinheiro para voltar e formar a sonhada família.

O filme critica o poder patriarcal imposto nestas pequenas cidades do interior, onde o desejo das pessoas é muitas vezes reduzido a uma dura e sofrida desilusão. É o que ocorre com Santiago, que volta três anos mais tarde com o dinheiro do dote e encontra Diamantina casada e grávida.

Quem parte buscando melhores condições de vida geralmente enfrenta condições iguais ou piores daquelas que deixou, e demora a conseguir juntar algum dinheiro. No entanto, o mérito do filme é manter o foco sobre as pessoas que ficam nestes pequenos povoados que vão, aos poucos, perdendo os seus habitantes para as grandes cidades.

Dezoito anos depois da primeira partida de Santiago, San Pedro mudou. Quase todos os homens em idade adulta partiram, deixando as mulheres, que passam a realizar todas as tarefas. Numa metáfora inteligente, o diretor mostra uma encenação da paixão de Cristo apenas com mulheres, inclusive representando Jesus. É um símbolo do nascimento de uma nova ordem social, que já se libertou das amarras da sociedade patriarcal.

É neste momento que Santiago volta à cidade, carregando consigo o fardo de todas as suas desilusões. O tempo de suas alegrias já se foi, mas ele enxerga numa pessoa a possibilidade de viver o que imaginara para sua vida.

O título Espiral, segundo o diretor, remete à ideia de que, apesar dos diversos ciclos que se repetem – nas três vezes em que Santiago e Diamantina encontram-se sem conseguir a união –, sempre há uma saída, ao contrário dos círculos, que representariam algo sem escapatória. Entretanto, percebe-se no filme que são poucos os que conseguem achar verdadeiramente uma saída, enquanto a maioria, como no caso de Santiago, entra em um círculo vicioso sem fim.

ESPIRAL
(Espiral), 2008, México. (100 min.)
Dir.: Jorge Pérez Solano

31/10 (Sab) | 19:30 – Sessão 879 | Espaço Unibanco Augusta 3
03/11 (Ter) | 15:30 – Sessão 1242 | MIS
04/11 (Qua) | 18:10 – Sessão 1292 | Cine Bombril 2
05/11 (Qui) | 17:40 – Sessão 1448 | Matilha Cultural

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