Arquivo do mês: outubro 2008

Mais Tarde Você Entenderá

O silêncio que conta sua história
Sem imagens pertubadoras, Amos Gitai rememora o holocausto

NATHALIA GARCIA
O FINO DA MOSTRA

A partir de um drama familiar cheio de segredos e suposições, Amos Gitai permeia a situação dos descendentes judaicos em Mais Tarde Você Entenderá.

Com a transmissão feita pela TV européia do julgamento de Klaus Barbie, temido oficial nazista, o advogado Victor inicia uma investigação sobre o passado de sua família, há muito omitido por sua mãe Rivka.

Ele e sua irmã Tania foram batizados na religião católica, assim como o falecido pai, e por muito tempo desconheceram o passado de guerra da matriarca judia. Obstinadamente, o advogado procurou desenterrar os segredos guardados analisando as cartas trocadas entre seus pais e, aos poucos, foi levantando diferentes hipóteses para justificar seu conteúdo e seus termos cuidadosamente escolhidos.

Por diversas vezes Victor recorreu à mãe para esclarecer o assunto, porém Rivka era evasiva a cada comentário e constantemente levantava questões desarticuladas. Dúvidas e desconfianças eram alimentadas a cada vez que ela se esquivava.

O personagem central deu um passo importante em sua caminhada quando conseguiu remontar a história de seus avós, judeus russos deportados e perseguidos durante a 2ª Guerra Mundial. Ao retornar do pequeno vilarejo onde seus parentes se esconderam até serem delatados e presos, foi convocado para receber a avaliação do Estado quanto os bens que sua família possuía. Dentro desse eixo, observamos o retrato do esfriamento das relações e da mercantilização proposta pelo Estado, ao tentar apagar as sombras de um passado impiedoso através de uma boa remuneração. Como se o dinheiro fosse capaz de amenizar o sofrimento dos familiares das vítimas do holocausto.

A narrativa prossegue e a esperada revelação vem de forma suave. Antes de falecer, Rivka leva os netos a uma sinagoga e lá explica suas origens, elucidando a questão para o espectador. A sutileza com que o genocídio é tratado não provoca uma exaltação da carga emocional. É válido considerar sua tentativa de auxiliar na formação da identidade do povo judeu. Entretanto, o método escolhido acaba transmitindo menos do que estaria capacitado.

MAIS TARDE VOCÊ ENTENDERÁ
(Plus Tard Tu Comprendras, 2007. França. 89 min.)
Dir.: Amos Gitai

27/10 (Seg) | 22:10 | HSBC Belas Artes 2
29/10 (Qua) | 18:00 | Cine Bombril Sala 1
30/10 (Qui) | 13:00 | Unibanco Arteplex 3

A Guitarra

Sobre a vida e uma guitarra
Ou como um filme que tem tudo para ser chato consegue ser interessante e belo

MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA

A Guitarra não é a melhor opção na Mostra e nem a mais original. Afaste-se dele se você tem horror à menor sombra de autoajuda. Mas aqueles que curtem rock’n'roll – e, de preferência, a filosofia – vão se deixar levar com a brincadeira quase ingênua da estréia na direção da americana Amy Redford, filha de Robert Redford.

O enredo beira o clichê. Melody descobre que tem poucos meses de vida e decide aproveitá-los como pode: retira-se para um loft e passa a consumir os produtos mais bonitos, suaves e supérfluos dos catálogos que recebe. Ela recebe os entregadores Roscoe e Cookie quase nua, e sua situação inusitada chama a atenção deles, ainda mais quando decide reviver um sonho de criança: aprender a tocar uma Fender gloriosa e imponentemente vermelha. A convivência entre eles põe à prova os limites de Melody, que mudam conforme os dias vão passando e suas prioridades mudando. Ela própria não passará imune a toda essa reviravolta.

O roteiro faz bem em ater-se ao simples e, por isso mesmo, revela uma beleza modesta. A mensagem não é difícil de entender, chega a ser previsível, o que seria uma pena se não fosse colocado de forma tão singela e estranhamente sóbria. Aos poucos, a notícia da proximidade da morte se torna um grande lance de sorte. Testando o quanto de sexo e rock’n'roll cada um traz em sua essência (a parte das drogas a gente só imagina), vale a pena entrar na onda de A Guitarra, ainda mais se for para seguir o recado que o filme deixa: apenas curtir.

A GUITARRA
(The Guitar, 2008. EUA. 93 min.)
Dir.: Amy Redford

26/10 (Dom) | 18h30 | Unibanco Arteplex 3
27/10 (Seg) | 17h00 | Unibanco Arteplex 2
28/10 (Ter) | 17h40 | HSBC Belas Artes 2
30/10 (Qui) | 14h00 | Unibanco Arteplex 4

Patti Smith – Sonho de Vida

 

A vida e o sonho de Patti Smith
A artista em estado bruto, áspera e legítima, sob lentes cruas

MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA

“Cada geração se traduz por si própria”. Com essa frase de T.S. Eliot antes de seus primeiros vinte minutos, Patti Smith – Sonho de vida diz a que veio: esmiuçar, ainda que de forma tumultuada, o mito vivo da avó do punk que ainda é apenas uma mulher. Essa falta de ordem não é à toa e nem é falha: o longa tem sido filmado há dez anos. E consegue transmitir, como num turbilhão bagunçado e confuso, o caos artístico e a insurreição rebelde que Patti Smith é.

Porque a maioria das falas são depoimentos de Patti, o longa pode ser um pouco árido para aqueles não muito familiarizados com sua obra, mas isso não impede que o público perceba seu potencial. Ela narra acontecimentos de sua vida e de sua arte, à vontade na frente das câmeras. As imagens das performances da artista são mostradas com a voz da própria ao fundo, recitando poemas de sua autoria e também de escritores como Arthur Rimbaud. Num crescendo intenso, se junta a música, que é a liga de todo o documentário: não há uma linha narrativa ou lógica perceptível por trás das seqüências e cenas.

Presenças ilustres acompanham o elenco. Estão lá, em espírito, Ginsberg, Burroughs, Blake e Rimbaud – os túmulos desses dois últimos são visitados pela artista, como numa união tardia de mentes atormentadas e subversivas. Estão lá, em carne e osso (ou o que quer que seja que o cinema permite), Tom Spide, do R.E.M., Thom Yorke, do Radiohead, e Flea, do Red Hot Chili Peppers, apoiando, aconselhando e rindo com Patti. A adoração a Dylan e a Robert Mapplethorpe (cujas cinzas Patti mostra, pega na mão e admite levar consigo onde quer que vá) também não passam despercebidas pela câmera.

Patti às vezes se mostra estranhamente anacrônica, com sua câmera fotográfica que remonta aos primórdios dessa atividade e a máquina de escrever de antes de Capote. Ledo engano: apesar de, num primeiro olhar reducionista, ela parecer apenas uma doidona que sobreviveu aos loucos anos 70 com o mesmo corte de cabelo e sem um condicionador que prestasse, Patti se mostra consciente, ativa, política. Sua poesia ainda é capaz de fazer arrepiar, principalmente quando ataca George W. Bush. Esquelética e expressiva como sempre, com o vozeirão que ainda não cansou de botar pra fora tanta coisa, ela canta e dança para o público, com sua inquietação e seu ódio poéticos.

Patti Smith – Sonho de Vida é visceral, não tem floreios e chega a ser um tanto rude. Mas é assim que consegue intensidade e beleza, o retrato de uma arte que ainda conserva seu estado bruto e de uma artista que ouviu com atenção as palavras de Gregory Corso, que ela própria lembra no filme: “Você é mortal, mas a poesia não é”.

PATTI SMITH – SONHO DE VIDA
(Patti Smith: Dream of Life, 2007. EUA. 108 min.)
Dir.: Steven Sebring

22/10 (Qua) | 21h30 | Espaço Unibanco Pompéia 10
23/10 (Qui) | 14h00 | HSBC Belas Artes 2
24/10 (Sex) | 17h50 | Cine Bombril Sala 2
27/10 (Seg) | 13h30 | Espaço Unibanco Augusta 3

Waltz With Bashir

CRÍTICA DOIS EM UM:
PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO / WALTZ WITH BASHIR

A frieza dos soldados
Algo justifica a barbárie de uma guerra?

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Um em forma de animação, o outro com pessoas reais. Um se trata da Guerra do Líbano, envolvendo soldados israelitas, e o outro sobre a guerra dos EUA contra o terrorismo. Os filmes Procedimento Operacional Padrão (P.O.P.) e Waltz With Bashir possuem diferenças alarmantes, como a própria apresentação. Além disso, têm cenários diferentes e situações de guerras também distintas. Porém, tem um fator em comum: ambos abordam a questão do mea-culpa dos soldados. Continue lendo

Procedimento Operacional Padrão

CRÍTICA DOIS EM UM:
PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO / WALTZ WITH BASHIR

A frieza dos soldados
Algo justifica a barbárie de uma guerra?

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Um em forma de animação, o outro com pessoas reais. Um se trata da Guerra do Líbano, envolvendo soldados israelitas, e o outro sobre a guerra dos EUA contra o terrorismo. Os filmes Procedimento Operacional Padrão (P.O.P.) e Waltz With Bashir possuem diferenças alarmantes, como a própria apresentação. Além disso, têm cenários diferentes e situações de guerras também distintas. Porém, tem um fator em comum: ambos abordam a questão do mea-culpa dos soldados.

O filme P.O.P. relata a história real da descoberta de fotos em que prisioneiros de Abu Ghraib, acusados de terrorismo, sofrem torturas nas mãos de soldados americanos. O mais interessante desse episódio é o fato de que essas fotos foram tiradas pelos próprios torturadores, relatando o que faziam. Assim, eles aparecem nelas, se vangloriando pelo feito. Chega a ser assustador.

Já a animação Waltz With Bashir se baseia em uma conversa entre dois amigos (sendo um deles o próprio diretor do filme) sobre as memórias da Guerra do Líbano. Não conseguindo se lembrar de muitos fragmentos do que havia vivido, um deles resolve buscar, por meio dos companheiros de guerra, cenas do que viveu. Cenas que, apesar de serem desenhos, apavoram.

A questão da culpa que os soldados têm, em ambas as guerras, aparece claramente. Nos dois filmes, os soldados relatam que foram obrigados a tomar certas atitudes a pedido de seus superiores, e que, por isso, não tinham outra saída. Como se não tivessem sido eles os que atiraram no inimigo ou colocaram prisioneiros nus em posições humilhantes. Como se virassem outra pessoa. E é aí que alguns se questionam: “Afinal, qual é a culpa de quem ‘apenas’ executa ordens tão cruéis? Realmente não existe outro jeito?”

Através dos depoimentos, uns em forma de animação e outros em imagens reais, podemos ver a indiferença estampada no rosto de quem viveu a guerra. A frieza de quem relata o que passou e, principalmente, o que fez. As marcas deixadas pelo sofrimento.

PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO
(S.O.P – Standard Operating Procedure, 2008. EUA. 118 min.)
Dir.: Errol Morris

17/10 (Sex) | 19:00 | CineSesc
21/10 (Ter) | 14:50 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 3
28/10 (Ter) | 15:00 | Espaço Unibanco Augusta 3
29/10 (Qua) | 20:40 | Espaço Unibanco Pompéia 1
Entra em cartaz no dia 31/10.

Palermo Shooting

Quando o cinema bate cabeça
Declaradamente influenciado pelo rock moderno, Wim Wenders faz um filme sobre um tema raramente abordado – a morte

PEDRO CANÁRIO
O FINO DA MOSTRA

Palermo Shooting, novo filme de Wim Wenders, apresenta a mesma velha fórmula de sempre: uma história intrigante com um roteiro muito mais do que arrastado, fazendo com que o enredo demore a se revelar para o espectador.

Mas, mesmo para o próprio cineasta, a trama desse filme não partiu de uma idéia muito comum – Wenders queria dissertar sobre a morte. Em entrevista à MTV Brasil, o diretor declarou que estava cansado de ver pessoas se matando em filmes, mas ainda assim ele ainda não tinha visto nenhuma produção relevante que tivesse como tema central a morte, e não o ato de matar/morrer.

Para o autor de Palermo Shooting foi uma atitude de grande coragem basear sua nova produção em uma idéia tão sombira, tão sinistra. Mas, ainda segundo ele, o fôlego veio de uma fonte mais do que esgotada para a maioria dos artistas do século XX: o rock’n'roll. Ele considera que o “espírito livre e rebelde” do estilo o inspirou a apostar na própria idéia e abraçá-la para fazer um drama, e não um filme de terror-filosófico.

Depois da fala do autor ficou mais fácil entender o sentido da trilha sonora do filme, que, dessa vez, de fato se destaca. As músicas se encaixam perfeitamente com cada cena e as letras com cada diálogo ou cada mini-drama de cada personagem; e todas elas têm uma pegada pop que não é comum às outras produções do cineasta.

O destaque da trilha dentro do longa é tão grande que, depois de acabada a sessão, fica a dúvida se o que acabou de passar foi um filme ou um vídeo clipe para aquelas músicas. A idéia de Wim Wenders casa tão bem com o “rock anos 2000″ que eles até seguem caminhos parecidos. O diretor trata de um tema recorrente em filmes de ação e terror e faz uma releitura cult, enquanto na música o que acontece é que temas antes restritos ao heavy metal, como análises mais filosóficas da morte, são trazidos para leituras mais pop, deperessivas.

Palermo Shooting é um rock em forma de balada. Uma produção que reflete muito bem o momento em que foi feita, mas que só poderia ter sido realizada por uma pessoa: Wim Wenders.

PALERMO SHOOTING
(Rendez-Vous à Palerme, 2008. Alemanha. 83 min)
Dir.: Wim Wenders

21/10 (Ter) | 21:10 | CineSesc
22/10 (Qua) | 17:10 | Espaço Unibanco Augusta 3
25/10 (Sab) | 17:30 | Cine Bombril Sala 1
27/10 (Seg) | 19:50 | HSBC Belas Artes 2

Terra Vermelha

Recauchutando a questão indígena
Os avanços na forma de retratar o índio são atenuados pela ênfase num velho dilema entre nativos e capitalismo

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

Os minutos iniciais da produção ítalo-brasileira Terra Vermelha dão o tom do filme. Na primeira cena, vemos uma tomada aérea do Pantanal sul-matogrossense e a imagem dos turistas (birdwatchers) admirando os índios nas margens do rio. Logo em seguida, os índios recebem o dinheiro pelo serviço prestado – ou você acha que índios passam o dia todo pintados e caçando animais na margem do rio? –, montam num caminhão em que toca o hit popular “Bebo pra Carai” (“Aí eu bebo, aí eu bebo, bebo pra carai, bebo pra carai…”) e voltam para a reserva indígena. No caminho, decidem montar acampamento numa fazenda ao invés de desembarcarem na reserva.

Estão aí tanto o conflito que persistirá ao longo da história – “questão indígena” versus interesse empresarial – quanto o conflito entre a forma e o conteúdo do filme, um verdadeiro bate-cabeça entre linguagem e mensagem.

A maneira com que o ítalo-chileno Marco Bechis conta a sua história traz avanços incontornáveis no retrato dos indígenas dos dias de hoje. Terra Vermelha é um filme que deve transformar todas as produções audiovisuais que tenham relação com essa temática. Os índios não são retratados apenas em celebrações, em rituais e em danças da chuva. O rompimento com o padrão vídeo-educativo-para-tevê-comunitária se acentua com o olhar nada pudico com que se vê o índio, que também fala “pinto” e “caralho”, que descumpre a lei federal que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a índios e que há tempos já deixou de ouvir as guaranias paraguaias.

Porém, tantos avanços são atenuados por aquilo que o filme quer contar. Eis aí a mesmice de sempre. Ao falar da “questão indígena” tratando a imersão do nativo na sociedade capitalista como um dilema a ser posto em xeque, o filme prova ser incapaz de se desgarrar do discurso político ingênuo. A ênfase dada a um velho (e desgastado) dilema dificulta a elaboração de uma história mais instigante – e até mais provocativa – do que essa.

A discussão proposta no filme é de tremenda relevância, e dá certa contribuição a um debate acentuado pelas notícias recentes sobre a reserva Raposa-Serra do Sol, mas enveredar por esse caminho significou menosprezar outros elementos em que o filme poderia ser mais incisivo, tais como o suicídio dos jovens kaiowaas e as contradições internas no que diz respeito às tradições e à hierarquia.

Como era de se imaginar, o filme não fica em cima do muro no duelo entre índios e fazendeiros. Porém, a defesa dos nativos, que é uma escolha muito facilitadora e que, por isso, permite uma dose (por menor que seja) de auto-crítica, é calcada na caracterização do fazendeiro como o explorador inescrupuloso, como sempre.

Terra Vermelha é marcante. Qualquer filme que retroceda no aspecto da abordagem do índio sem tanto pudor será muito mais criticado daqui pra frente. Porém, ver o rumo tomado pela escolha de Marco Bechis em dar enfoque à “questão indígena” chega a dar dó – e ajuda a entender porque não é a injustiça o que explica porque o filme não recebeu nenhum prêmio no Festival de Veneza, onde repercutiu bastante.

TERRA VERMELHA
(Birdwatchers, 2008. Itália/Brasil. 108 min.)
Dir.: Marco Bechis

17/10 (Sex) | 16:00 | Cine Bombril Sala 1
21/10 (Ter) | 18:10 | Reserva Cultural Sala 1
29/10 (Qua) | 20:00 | Cine Bombril Sala 1