Patti Smith – Sonho de Vida

 

A vida e o sonho de Patti Smith
A artista em estado bruto, áspera e legítima, sob lentes cruas

MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA

“Cada geração se traduz por si própria”. Com essa frase de T.S. Eliot antes de seus primeiros vinte minutos, Patti Smith – Sonho de vida diz a que veio: esmiuçar, ainda que de forma tumultuada, o mito vivo da avó do punk que ainda é apenas uma mulher. Essa falta de ordem não é à toa e nem é falha: o longa tem sido filmado há dez anos. E consegue transmitir, como num turbilhão bagunçado e confuso, o caos artístico e a insurreição rebelde que Patti Smith é.

Porque a maioria das falas são depoimentos de Patti, o longa pode ser um pouco árido para aqueles não muito familiarizados com sua obra, mas isso não impede que o público perceba seu potencial. Ela narra acontecimentos de sua vida e de sua arte, à vontade na frente das câmeras. As imagens das performances da artista são mostradas com a voz da própria ao fundo, recitando poemas de sua autoria e também de escritores como Arthur Rimbaud. Num crescendo intenso, se junta a música, que é a liga de todo o documentário: não há uma linha narrativa ou lógica perceptível por trás das seqüências e cenas.

Presenças ilustres acompanham o elenco. Estão lá, em espírito, Ginsberg, Burroughs, Blake e Rimbaud – os túmulos desses dois últimos são visitados pela artista, como numa união tardia de mentes atormentadas e subversivas. Estão lá, em carne e osso (ou o que quer que seja que o cinema permite), Tom Spide, do R.E.M., Thom Yorke, do Radiohead, e Flea, do Red Hot Chili Peppers, apoiando, aconselhando e rindo com Patti. A adoração a Dylan e a Robert Mapplethorpe (cujas cinzas Patti mostra, pega na mão e admite levar consigo onde quer que vá) também não passam despercebidas pela câmera.

Patti às vezes se mostra estranhamente anacrônica, com sua câmera fotográfica que remonta aos primórdios dessa atividade e a máquina de escrever de antes de Capote. Ledo engano: apesar de, num primeiro olhar reducionista, ela parecer apenas uma doidona que sobreviveu aos loucos anos 70 com o mesmo corte de cabelo e sem um condicionador que prestasse, Patti se mostra consciente, ativa, política. Sua poesia ainda é capaz de fazer arrepiar, principalmente quando ataca George W. Bush. Esquelética e expressiva como sempre, com o vozeirão que ainda não cansou de botar pra fora tanta coisa, ela canta e dança para o público, com sua inquietação e seu ódio poéticos.

Patti Smith – Sonho de Vida é visceral, não tem floreios e chega a ser um tanto rude. Mas é assim que consegue intensidade e beleza, o retrato de uma arte que ainda conserva seu estado bruto e de uma artista que ouviu com atenção as palavras de Gregory Corso, que ela própria lembra no filme: “Você é mortal, mas a poesia não é”.

PATTI SMITH – SONHO DE VIDA
(Patti Smith: Dream of Life, 2007. EUA. 108 min.)
Dir.: Steven Sebring

22/10 (Qua) | 21h30 | Espaço Unibanco Pompéia 10
23/10 (Qui) | 14h00 | HSBC Belas Artes 2
24/10 (Sex) | 17h50 | Cine Bombril Sala 2
27/10 (Seg) | 13h30 | Espaço Unibanco Augusta 3

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