Arquivo do dia: 28/10/2008

Cinema ao ar livre

Como é assistir a um filme no
vão livre do MASP?

MARIA SILVIA FERRAZ
O FINO DA MOSTRA

Assistir a um filme no vão livre do MASP é uma experiência do tipo que só poderia se ter em São Paulo. Durante a 32ª Mostra foram exibidos, de segunda a sexta no MASP, os destaques do evento no ano passado. No dia 27 de outubro, foi a vez de Across the Universe, de Julie Taymor.

O evento reuniu, para minha surpresa, uma multidão de pessoas: jovens, idosos, moradores de rua, moradores dos Jardins, hippies, punks, casais e, claro, gente que passava pela Avenida Paulista e resolveu conferir o porquê do “bafafá”. Nem a fina chuva e o frio espantaram os espectadores, sentados nas cadeiras, no chão ou de pé mesmo.

O barulho dos ônibus passando e das buzinas dos carros criam todo um ambiente diferenciado, em que se pode conversar durante o filme sem ouvir pedidos de silêncio da pessoa ao lado. Em muitos momentos, a platéia cantou, dançou e aplaudiu. O filme, um musical ambientado nos anos 1960, tem como trilha sonora clássicos dos Beatles. Durante a canção “Hey Jude”, uma das últimas a serem tocadas, todos já estavam entrosados e cantando alegremente com a possibilidade de um inesperado final feliz.

Tomara que, da próxima vez, os organizadores da Mostra estejam mais preparados para receber tanta gente. Afinal, descontração é bom, mas ficar de pé por 2 horas nem tanto. Apesar disso, assistir a filmes no vão livre do MASP em plena segunda-feira a noite é prova de que São Paulo ainda oferece boas opções de cultura de graça.

Mais Tarde Você Entenderá

O silêncio que conta sua história
Sem imagens pertubadoras, Amos Gitai rememora o holocausto

NATHALIA GARCIA
O FINO DA MOSTRA

A partir de um drama familiar cheio de segredos e suposições, Amos Gitai permeia a situação dos descendentes judaicos em Mais Tarde Você Entenderá.

Com a transmissão feita pela TV européia do julgamento de Klaus Barbie, temido oficial nazista, o advogado Victor inicia uma investigação sobre o passado de sua família, há muito omitido por sua mãe Rivka.

Ele e sua irmã Tania foram batizados na religião católica, assim como o falecido pai, e por muito tempo desconheceram o passado de guerra da matriarca judia. Obstinadamente, o advogado procurou desenterrar os segredos guardados analisando as cartas trocadas entre seus pais e, aos poucos, foi levantando diferentes hipóteses para justificar seu conteúdo e seus termos cuidadosamente escolhidos.

Por diversas vezes Victor recorreu à mãe para esclarecer o assunto, porém Rivka era evasiva a cada comentário e constantemente levantava questões desarticuladas. Dúvidas e desconfianças eram alimentadas a cada vez que ela se esquivava.

O personagem central deu um passo importante em sua caminhada quando conseguiu remontar a história de seus avós, judeus russos deportados e perseguidos durante a 2ª Guerra Mundial. Ao retornar do pequeno vilarejo onde seus parentes se esconderam até serem delatados e presos, foi convocado para receber a avaliação do Estado quanto os bens que sua família possuía. Dentro desse eixo, observamos o retrato do esfriamento das relações e da mercantilização proposta pelo Estado, ao tentar apagar as sombras de um passado impiedoso através de uma boa remuneração. Como se o dinheiro fosse capaz de amenizar o sofrimento dos familiares das vítimas do holocausto.

A narrativa prossegue e a esperada revelação vem de forma suave. Antes de falecer, Rivka leva os netos a uma sinagoga e lá explica suas origens, elucidando a questão para o espectador. A sutileza com que o genocídio é tratado não provoca uma exaltação da carga emocional. É válido considerar sua tentativa de auxiliar na formação da identidade do povo judeu. Entretanto, o método escolhido acaba transmitindo menos do que estaria capacitado.

MAIS TARDE VOCÊ ENTENDERÁ
(Plus Tard Tu Comprendras, 2007. França. 89 min.)
Dir.: Amos Gitai

27/10 (Seg) | 22:10 | HSBC Belas Artes 2
29/10 (Qua) | 18:00 | Cine Bombril Sala 1
30/10 (Qui) | 13:00 | Unibanco Arteplex 3

A Guitarra

Sobre a vida e uma guitarra
Ou como um filme que tem tudo para ser chato consegue ser interessante e belo

MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA

A Guitarra não é a melhor opção na Mostra e nem a mais original. Afaste-se dele se você tem horror à menor sombra de autoajuda. Mas aqueles que curtem rock’n'roll – e, de preferência, a filosofia – vão se deixar levar com a brincadeira quase ingênua da estréia na direção da americana Amy Redford, filha de Robert Redford.

O enredo beira o clichê. Melody descobre que tem poucos meses de vida e decide aproveitá-los como pode: retira-se para um loft e passa a consumir os produtos mais bonitos, suaves e supérfluos dos catálogos que recebe. Ela recebe os entregadores Roscoe e Cookie quase nua, e sua situação inusitada chama a atenção deles, ainda mais quando decide reviver um sonho de criança: aprender a tocar uma Fender gloriosa e imponentemente vermelha. A convivência entre eles põe à prova os limites de Melody, que mudam conforme os dias vão passando e suas prioridades mudando. Ela própria não passará imune a toda essa reviravolta.

O roteiro faz bem em ater-se ao simples e, por isso mesmo, revela uma beleza modesta. A mensagem não é difícil de entender, chega a ser previsível, o que seria uma pena se não fosse colocado de forma tão singela e estranhamente sóbria. Aos poucos, a notícia da proximidade da morte se torna um grande lance de sorte. Testando o quanto de sexo e rock’n'roll cada um traz em sua essência (a parte das drogas a gente só imagina), vale a pena entrar na onda de A Guitarra, ainda mais se for para seguir o recado que o filme deixa: apenas curtir.

A GUITARRA
(The Guitar, 2008. EUA. 93 min.)
Dir.: Amy Redford

26/10 (Dom) | 18h30 | Unibanco Arteplex 3
27/10 (Seg) | 17h00 | Unibanco Arteplex 2
28/10 (Ter) | 17h40 | HSBC Belas Artes 2
30/10 (Qui) | 14h00 | Unibanco Arteplex 4

Patti Smith – Sonho de Vida

 

A vida e o sonho de Patti Smith
A artista em estado bruto, áspera e legítima, sob lentes cruas

MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA

“Cada geração se traduz por si própria”. Com essa frase de T.S. Eliot antes de seus primeiros vinte minutos, Patti Smith – Sonho de vida diz a que veio: esmiuçar, ainda que de forma tumultuada, o mito vivo da avó do punk que ainda é apenas uma mulher. Essa falta de ordem não é à toa e nem é falha: o longa tem sido filmado há dez anos. E consegue transmitir, como num turbilhão bagunçado e confuso, o caos artístico e a insurreição rebelde que Patti Smith é.

Porque a maioria das falas são depoimentos de Patti, o longa pode ser um pouco árido para aqueles não muito familiarizados com sua obra, mas isso não impede que o público perceba seu potencial. Ela narra acontecimentos de sua vida e de sua arte, à vontade na frente das câmeras. As imagens das performances da artista são mostradas com a voz da própria ao fundo, recitando poemas de sua autoria e também de escritores como Arthur Rimbaud. Num crescendo intenso, se junta a música, que é a liga de todo o documentário: não há uma linha narrativa ou lógica perceptível por trás das seqüências e cenas.

Presenças ilustres acompanham o elenco. Estão lá, em espírito, Ginsberg, Burroughs, Blake e Rimbaud – os túmulos desses dois últimos são visitados pela artista, como numa união tardia de mentes atormentadas e subversivas. Estão lá, em carne e osso (ou o que quer que seja que o cinema permite), Tom Spide, do R.E.M., Thom Yorke, do Radiohead, e Flea, do Red Hot Chili Peppers, apoiando, aconselhando e rindo com Patti. A adoração a Dylan e a Robert Mapplethorpe (cujas cinzas Patti mostra, pega na mão e admite levar consigo onde quer que vá) também não passam despercebidas pela câmera.

Patti às vezes se mostra estranhamente anacrônica, com sua câmera fotográfica que remonta aos primórdios dessa atividade e a máquina de escrever de antes de Capote. Ledo engano: apesar de, num primeiro olhar reducionista, ela parecer apenas uma doidona que sobreviveu aos loucos anos 70 com o mesmo corte de cabelo e sem um condicionador que prestasse, Patti se mostra consciente, ativa, política. Sua poesia ainda é capaz de fazer arrepiar, principalmente quando ataca George W. Bush. Esquelética e expressiva como sempre, com o vozeirão que ainda não cansou de botar pra fora tanta coisa, ela canta e dança para o público, com sua inquietação e seu ódio poéticos.

Patti Smith – Sonho de Vida é visceral, não tem floreios e chega a ser um tanto rude. Mas é assim que consegue intensidade e beleza, o retrato de uma arte que ainda conserva seu estado bruto e de uma artista que ouviu com atenção as palavras de Gregory Corso, que ela própria lembra no filme: “Você é mortal, mas a poesia não é”.

PATTI SMITH – SONHO DE VIDA
(Patti Smith: Dream of Life, 2007. EUA. 108 min.)
Dir.: Steven Sebring

22/10 (Qua) | 21h30 | Espaço Unibanco Pompéia 10
23/10 (Qui) | 14h00 | HSBC Belas Artes 2
24/10 (Sex) | 17h50 | Cine Bombril Sala 2
27/10 (Seg) | 13h30 | Espaço Unibanco Augusta 3

Waltz With Bashir

CRÍTICA DOIS EM UM:
PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO / WALTZ WITH BASHIR

A frieza dos soldados
Algo justifica a barbárie de uma guerra?

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Um em forma de animação, o outro com pessoas reais. Um se trata da Guerra do Líbano, envolvendo soldados israelitas, e o outro sobre a guerra dos EUA contra o terrorismo. Os filmes Procedimento Operacional Padrão (P.O.P.) e Waltz With Bashir possuem diferenças alarmantes, como a própria apresentação. Além disso, têm cenários diferentes e situações de guerras também distintas. Porém, tem um fator em comum: ambos abordam a questão do mea-culpa dos soldados. Continue lendo