Arquivo do dia: 26/10/2008

Palermo Shooting

Quando o cinema bate cabeça
Declaradamente influenciado pelo rock moderno, Wim Wenders faz um filme sobre um tema raramente abordado – a morte

PEDRO CANÁRIO
O FINO DA MOSTRA

Palermo Shooting, novo filme de Wim Wenders, apresenta a mesma velha fórmula de sempre: uma história intrigante com um roteiro muito mais do que arrastado, fazendo com que o enredo demore a se revelar para o espectador.

Mas, mesmo para o próprio cineasta, a trama desse filme não partiu de uma idéia muito comum – Wenders queria dissertar sobre a morte. Em entrevista à MTV Brasil, o diretor declarou que estava cansado de ver pessoas se matando em filmes, mas ainda assim ele ainda não tinha visto nenhuma produção relevante que tivesse como tema central a morte, e não o ato de matar/morrer.

Para o autor de Palermo Shooting foi uma atitude de grande coragem basear sua nova produção em uma idéia tão sombira, tão sinistra. Mas, ainda segundo ele, o fôlego veio de uma fonte mais do que esgotada para a maioria dos artistas do século XX: o rock’n'roll. Ele considera que o “espírito livre e rebelde” do estilo o inspirou a apostar na própria idéia e abraçá-la para fazer um drama, e não um filme de terror-filosófico.

Depois da fala do autor ficou mais fácil entender o sentido da trilha sonora do filme, que, dessa vez, de fato se destaca. As músicas se encaixam perfeitamente com cada cena e as letras com cada diálogo ou cada mini-drama de cada personagem; e todas elas têm uma pegada pop que não é comum às outras produções do cineasta.

O destaque da trilha dentro do longa é tão grande que, depois de acabada a sessão, fica a dúvida se o que acabou de passar foi um filme ou um vídeo clipe para aquelas músicas. A idéia de Wim Wenders casa tão bem com o “rock anos 2000″ que eles até seguem caminhos parecidos. O diretor trata de um tema recorrente em filmes de ação e terror e faz uma releitura cult, enquanto na música o que acontece é que temas antes restritos ao heavy metal, como análises mais filosóficas da morte, são trazidos para leituras mais pop, deperessivas.

Palermo Shooting é um rock em forma de balada. Uma produção que reflete muito bem o momento em que foi feita, mas que só poderia ter sido realizada por uma pessoa: Wim Wenders.

PALERMO SHOOTING
(Rendez-Vous à Palerme, 2008. Alemanha. 83 min)
Dir.: Wim Wenders

21/10 (Ter) | 21:10 | CineSesc
22/10 (Qua) | 17:10 | Espaço Unibanco Augusta 3
25/10 (Sab) | 17:30 | Cine Bombril Sala 1
27/10 (Seg) | 19:50 | HSBC Belas Artes 2

Terra Vermelha

Recauchutando a questão indígena
Os avanços na forma de retratar o índio são atenuados pela ênfase num velho dilema entre nativos e capitalismo

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

Os minutos iniciais da produção ítalo-brasileira Terra Vermelha dão o tom do filme. Na primeira cena, vemos uma tomada aérea do Pantanal sul-matogrossense e a imagem dos turistas (birdwatchers) admirando os índios nas margens do rio. Logo em seguida, os índios recebem o dinheiro pelo serviço prestado – ou você acha que índios passam o dia todo pintados e caçando animais na margem do rio? –, montam num caminhão em que toca o hit popular “Bebo pra Carai” (“Aí eu bebo, aí eu bebo, bebo pra carai, bebo pra carai…”) e voltam para a reserva indígena. No caminho, decidem montar acampamento numa fazenda ao invés de desembarcarem na reserva.

Estão aí tanto o conflito que persistirá ao longo da história – “questão indígena” versus interesse empresarial – quanto o conflito entre a forma e o conteúdo do filme, um verdadeiro bate-cabeça entre linguagem e mensagem.

A maneira com que o ítalo-chileno Marco Bechis conta a sua história traz avanços incontornáveis no retrato dos indígenas dos dias de hoje. Terra Vermelha é um filme que deve transformar todas as produções audiovisuais que tenham relação com essa temática. Os índios não são retratados apenas em celebrações, em rituais e em danças da chuva. O rompimento com o padrão vídeo-educativo-para-tevê-comunitária se acentua com o olhar nada pudico com que se vê o índio, que também fala “pinto” e “caralho”, que descumpre a lei federal que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a índios e que há tempos já deixou de ouvir as guaranias paraguaias.

Porém, tantos avanços são atenuados por aquilo que o filme quer contar. Eis aí a mesmice de sempre. Ao falar da “questão indígena” tratando a imersão do nativo na sociedade capitalista como um dilema a ser posto em xeque, o filme prova ser incapaz de se desgarrar do discurso político ingênuo. A ênfase dada a um velho (e desgastado) dilema dificulta a elaboração de uma história mais instigante – e até mais provocativa – do que essa.

A discussão proposta no filme é de tremenda relevância, e dá certa contribuição a um debate acentuado pelas notícias recentes sobre a reserva Raposa-Serra do Sol, mas enveredar por esse caminho significou menosprezar outros elementos em que o filme poderia ser mais incisivo, tais como o suicídio dos jovens kaiowaas e as contradições internas no que diz respeito às tradições e à hierarquia.

Como era de se imaginar, o filme não fica em cima do muro no duelo entre índios e fazendeiros. Porém, a defesa dos nativos, que é uma escolha muito facilitadora e que, por isso, permite uma dose (por menor que seja) de auto-crítica, é calcada na caracterização do fazendeiro como o explorador inescrupuloso, como sempre.

Terra Vermelha é marcante. Qualquer filme que retroceda no aspecto da abordagem do índio sem tanto pudor será muito mais criticado daqui pra frente. Porém, ver o rumo tomado pela escolha de Marco Bechis em dar enfoque à “questão indígena” chega a dar dó – e ajuda a entender porque não é a injustiça o que explica porque o filme não recebeu nenhum prêmio no Festival de Veneza, onde repercutiu bastante.

TERRA VERMELHA
(Birdwatchers, 2008. Itália/Brasil. 108 min.)
Dir.: Marco Bechis

17/10 (Sex) | 16:00 | Cine Bombril Sala 1
21/10 (Ter) | 18:10 | Reserva Cultural Sala 1
29/10 (Qua) | 20:00 | Cine Bombril Sala 1

Divulgados os filmes que concorrem ao troféu Bandeira Paulista

WILSON SAIKI JR.
O FINO DA MOSTRA          

Foram anunciados neste sábado (25) os filmes que serão avaliados pelo júri na Competição Novos Diretores. Na coletiva de imprensa, estavam presentes os jurados, além de Leon Cakoff e Renata de Almeida, idealizadores da Mostra. 

A categoria Documentário, em que concorrem seis filmes, terá um júri diferente dos longas de ficção. Os jurados da primeira serão: os diretores Heitor Dhalia e Lais Bodansky, além do produtor Caio Gullane. Essa mudança ocorreu devido ao pouco tempo que haveria para uma avaliação das duas categorias.

Os participantes do júri principal falaram a respeito da importância dos jovens, destacando tanto os novos diretores como a presença dos jovens nas sessões da Mostra.

Hugh Hudson, diretor de Carruagens de Fogo, observou a pouca presença do “cinema de autor” no cenário mundial, mesmo em cidades como Londres. Quanto à análise dos filmes concorrentes, disse ser importante encara-los de cabeça e corpo abertos, sem preconceitos.

A jovem diretora iraniana Samira Makhmalbaf ressaltou que o voto do público estimula a reflexão sobre as produções e também falou sobre o processo de escolha do júri, onde, segundo ela, é preciso ir além do gosto pessoal, enxergando a obra por diversas perspectivas.

Os outros membros jurados são: o diretor e documentarista brasileiro Jorge Bodansky; o produtor, autor e crítico de cinema alemão Meinolf Zurhorst; e o diretor e produtor francês Nicolas Klotz, vencedor do Prêmio da Crítica na última edição da Mostra por Questão Humana.

Sobre a escolha democrática que permite ao público escolher os filmes que concorrerão aos prêmios, o diretor da Mostra Leon Cakoff lembrou que esse estímulo é dado desde a primeira edição do evento, realizada em 1977 com exibições apenas no Museu de Artes de São Paulo (MASP), período em que o voto político era vetado aos brasileiros.

Concorrentes ao troféu Bandeira Paulista:

FICÇÃO

AS LÁGRIMAS DE MINHA MÃE – BERLIM-BUENOS AIRES, de Alejandro Cardenas Amelio (Alemanha)

EL REGALO DE LA PACHAMAMA, de Toshifumi Matsushita (Bolívia / Japão)

ESTRANHOS, de Erez Tadmor, Guy Nattiv  (Israel)

HARRISON MONTGOMERY, de Daniel Dávila (EUA)

MACHAN, de Uberto Pasolini (Sri Lank, Itália, Alemanha)

MALDEAMORES, de Carlitos Ruiz Ruiz, Mariem Perez Riera (Porto Rico)

MOSCOU, BÉLGICA, de Christophe van Rompaey (Bélgica)

O AMIGO, de Micha Lewinsky (Suíça)

O ESTRANHO EM MIM, de Emily Atef  (Alemanha)

THE BLUETOOTH VIRGIN, de Russell Brown (EUA)

TRATO É TRATO, de Jonathan Gershfield (Reino Unido)

TULPAN, de Sergey Dvortsevoy (Alemanha, Suíça, Cazaquistão, Rússia, Polônia)

 

DOCUMENTÁRIO

CONHECENDO ANDREI TARKOVSK, de Dmitry Trakovsky (EUA, Suécia, Rússia, Itália)

CRIANÇAS DA PIRA, de Rajesh S. Jala (Índia)

FUMANDO ESPERO, de Adriana Dutra (Brasil)

KFZ-1348, de Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso (Brasil)

MAIS SAPATOS, de Lee Kazimir (EUA)

RECURSO INTANGÍVEL NÚMERO 82, de Emma Franz (Austrália)

Trato é Trato

Risadas e clichês
Piadas que agradam e um drama completamente desnecessário

MARINA DOMINGUES
O FINO DA MOSTRA

Paul Callow é um condutor de metrô cansado da louca rotina da cidade e tem um sonho: sair de Londres e morar no campo, em contato com a natureza para escrever um livro. Acidentalmente, Callow atropela duas pessoas no metrô em menos de um mês. É aí que descobre que, se atropelar a terceira pessoa nesse período de trinta dias, recebe dez anos de salário de uma vez e pode se aposentar, uma proposta tentadora para quem sempre quis deixar essa vida.

À procura de um suicida, Paul conhece Tommy Cassidy, um irlandês que passa as noites em uma ponte, tentando se matar. O condutor do metrô o convence a esperar até segunda, que é o dia que vence seu prazo de trintas dias para matar três pessoas em um só mês. Disposto a se jogar no trilho do metrô, Cassidy recebe uma quantia em dinheiro de Paul pelo ‘serviço’, firmando o trato e fazendo com que o filme repita o próprio nome incansáveis vezes. Acordo feito, Cassidy resolve visitar a família que abandonou há anos para se despedir.

Trato é Trato é, no início, uma comédia, gênero que deveria seguir até o fim, para garantir o sucesso. Repleto de boas piadas e situações engraçadas, o filme convence rapidamente, já que seu começo é baseado apenas na graça, e até as tristezas e aflições do personagem são tratadas com tom de piada. Mas quando o drama de Cassidy entra em cena, o filme acaba por se perder.

O filme poderia ser apenas uma comédia, sem cair no clichê dos problemas familiares. A visita de Cassidy à sua família muda o rumo do longa, e se torna uma história que todo mundo já conhece – pai, à beira da morte, arrependido por não ter sido mais presente, resolve rever os entes queridos que deixou para trás. Mesmo caindo nessa previsibilidade, o fim, tanto da comédia, quanto da tragédia, vai além do que o público imagina. Com um enredo interessante, a produção vale pelas piadas, não pelo drama.

TRATO É TRATO
( Deal is a deal, 2008. Inglaterra. 95 min.)
Dir.: Jonathan Gershfield

23/10 (Qui) | 22:10 | HSBC Belas Artes 2
24/10 (Sex) | 14:40 | Cine Bombril Sala 1
25/10 (Sáb) | 14:00 | Cine Bombril Sala 2
30/10 (Qui) | 21:30 | Espaço Unibanco Augusta 3