
Road movie hecho en Chile
Apesar da fotografia convincente e das paisagens belíssimas, Desierto Sur não escapa dos clichês e de um enredo que se perde
MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA
Desierto Sur é um daqueles filmes amenos que tenta fugir do previsível por mudanças bruscas e injustificadas em sua história. Indiscutivelmente um road movie, o longa leva a sério demais uma regra desse clássico estilo cinematográfico: o imprevisto.
O enredo lembra muito o de Tudo Acontece em Elizabethtown. A mãe de Sofía acaba de morrer. Abalada, a jovem decide interromper os treinos de natação. Após receber, devolvida pelo correio, uma carta de sua mãe endereçada a Desierto Sur, no longínquo Chile, ela decide viajar até a desconhecida cidade e entregar a mensagem a quem ela foi destinada: Iñaki Martiarena, que fora, aparentemente, um grande amor de sua mãe. Durante a viagem, ela conhece Nadia, uma pseudorebelde perdida e chata, que se revela totalmente dispensável para o filme, e Gustavo, que atravessa o país num carro e lhes oferece carona.
O erro maior em Desierto Sur é empreender digressões no roteiro sem necessidade. A roteirista Trinidad Jiménez cria becos sem saída, como o encontro de Gustavo com traficantes em Antofagasta, que tem um desfecho terrível e injustificado, e personagens tirados do nada, como a travesti Britany, que aparece quase no final e rende as maiores risadas do longa. Claro, não sejamos caxias e simplórios. As inovações num roteiro são sempre bem-vindas, mas que mal há em contar que fim levou a irritante Nadia e até mesmo Gustavo, com quem Sofía inicia algo que se pode chamar de relação (com direito a discussões e reconciliações no meio do deserto)?
A história é atraente e prende a atenção, mas se enrola demais em si mesma e perde focos que despertam maior interesse, como, por exemplo, a relação entre a filha e a mãe, que Sofía admite não conhecer muito bem. O que salva Desierto Sur é o aspecto visual: o Atacama é retratado com uma beleza impensada. As atuações também impedem que o filme caia para a categoria de piores da Mostra – eles não surpreendem, apenas não fazem feio. A trilha também agrada com baladas meigas e brandas.
Em Tudo Acontece em Elizabethtown, Cameron Crowe usa o mesmo mote, mas apresenta um final melhor costurado. Some-se a isso uma linha melhor definida e, quem sabe, imprevistos menos gratuitos, e aí está o que falta para o longa chileno.
DESIERTO SUR
(Desierto Sur, 2008. Chile. 100 min)
Dir.: Shawn Garry
20/10 (Seg) | 20:10 | Espaço Unibanco Augusta 3
21/10 (Ter) | 17:10 | Unibanco Arteplex 3
23/10 (Qui) | 13:00 | Reserva Cultural Sala 1