Arquivo do dia: 24/10/2008

24 City

A beleza da (des)construção
Jia Zhang-Ke aprofunda o olhar sobre seu país natal

WILSON SAIKI JR.
O FINO DA MOSTRA    

Em seu novo filme, 24 City, o diretor Jia Zhang-ke continua a construção de um painel sobre as transformações pelas quais a China vem passando nos últimos anos. Homenageado na última edição da Mostra, o chinês, que ainda não chegou aos 40 anos, consegue um impressionante olhar maduro com suas imagens em digital representando um questionamento aos críticos do formato.

Assim como em Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, Zhang-ke se utiliza do gênero documental misturado à ficção. Porém, em 24 City existem não apenas depoimentos, mas também uma situação central: um grande complexo industrial na cidade de Chengdu que será demolido para a construção de um condomínio comercial e residencial de luxo. Uma versão em larga escala do que vemos no Cidade Jardim, em São Paulo.

O lugar, que ficou conhecido como Fábrica 420, tinha uma posição militar estratégica, pois ali eram produzidas peças para os aviões de guerra chineses. Devido ao grande tamanho do local, era considerado uma verdadeira cidade, pois proporcionava aos trabalhadores toda a estrutura de que necessitavam, como escolas, o hospital, o centro comercial e o cinema.

Nota-se o contraste entre o antigo regime comunista (músicas cantadas em coro onde todos estão simetricamente posicionados e uniformizados) e a nova China que se abre ao mundo, representada por uma jovem entrevistada que viveu com os pais na Fábrica e passou a comercializar produtos trazidos de Hong Kong para mulheres de classe alta.

A história das últimas décadas na China é contada por pessoas de diferentes gerações, e entre os depoimentos vemos imagens belíssimas que retratam o local em seus espaços vazios e maquinários inutilizados que serão demolidos, além da mudança pelo lado de fora da Fábrica.

Uma impressão já constatada é a rápida urbanização e o acelerado crescimento do país. A resposta para como as pessoas estão se adaptando a uma nova realidade que chega sem pedir licença, e coloca novos ideais para as gerações que crescem hoje é uma tarefa que Zhang-ke consegue cumprir quase perfeitamente.

24 CITY
(24 City, 2008. China. 107 min.)
Dir.: Jia Zhangke

25/10 (Sab) | 20:00 | iG Cine
28/10 (Ter) | 17:30 | CineSesc
29/10 (Qua) | 17:10 | Reserva Cultural

Loki – Arnaldo Baptista

Bonito…

PEDRO CANÁRIO
O FINO DA MOSTRA

A princípio é apenas uma cinebiografia em forma de documentário, mas já nos primeiros 15 minutos de filme percebe-se que Loki – Arnaldo Baptista vai muito além disso. A partir de uma pintura do próprio Mutante (que desenvolveu esse hobby depois de um acidente em que ficou um mês em coma), o longa mostra como a cabeça de Arnaldo Baptista é absolutamente incompreensível e define sua importância, não só para o rock, mas para a música brasileira.

Sem o objetivo de tentar definir alguém que é tratado como o maior gênio da arte nacional, o documentário fixa-se simplesmente em contar a trajetória de Arnaldo Baptista antes, durante e depois d’Os Mutantes. Suas aventuras, desventuras e seus momentos mais complicados e sombrios, desde o casamento com Rita Lee, até as internações em hospitais psiquiátricos.

Cheio de depoimentos de nomes de peso, como os outros Mutantes (menos Rita Lee, é claro), Gilberto Gil, Lobão, Liminha, etc., o filme consegue passar a admiração e o carinho que todos os que participam do longa, inclusive os diretores, têm pelo músico, mas, muito mais do que isso, Loki consegue emocionar de diferentes formas cada um dos espectadores.

Sendo um documentário, a película impressiona ainda mais por deixar de lado o viés quadrado de simplesmente contar uma história, e deixa a todos os que estão diante da tela abismados com a densidade e a inteligência de alguém que durante muito tempo foi considerado um louco. Loki consegue, em cada minuto, emocionar o espectador; fazer com que ele sinta o mesmo apreço que todos aqueles que falam no filme têm por Arnaldo. O longa é uma grande homenagem justificada em si mesma. É um filme, acima de tudo, bonito.

LOKI – ARNALDO BAPTISTA
(Loki – Arnaldo Baptista, 2008. Brasil)
Dir.: Paulo Henrique Fontenelle

17/10 (Sex) | 21:20 | CineSesc
19/10 (Dom) | 16:20 | Reserva Cultural Sala 1
26/10 (Dom) | 17:00 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 2

Desierto Sur

Road movie hecho en Chile
Apesar da fotografia convincente e das paisagens belíssimas, Desierto Sur não escapa dos clichês e de um enredo que se perde

MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA

Desierto Sur é um daqueles filmes amenos que tenta fugir do previsível por mudanças bruscas e injustificadas em sua história. Indiscutivelmente um road movie, o longa leva a sério demais uma regra desse clássico estilo cinematográfico: o imprevisto.

O enredo lembra muito o de Tudo Acontece em Elizabethtown. A mãe de Sofía acaba de morrer. Abalada, a jovem decide interromper os treinos de natação. Após receber, devolvida pelo correio, uma carta de sua mãe endereçada a Desierto Sur, no longínquo Chile, ela decide viajar até a desconhecida cidade e entregar a mensagem a quem ela foi destinada: Iñaki Martiarena, que fora, aparentemente, um grande amor de sua mãe. Durante a viagem, ela conhece Nadia, uma pseudorebelde perdida e chata, que se revela totalmente dispensável para o filme, e Gustavo, que atravessa o país num carro e lhes oferece carona.

O erro maior em Desierto Sur é empreender digressões no roteiro sem necessidade. A roteirista Trinidad Jiménez cria becos sem saída, como o encontro de Gustavo com traficantes em Antofagasta, que tem um desfecho terrível e injustificado, e personagens tirados do nada, como a travesti Britany, que aparece quase no final e rende as maiores risadas do longa. Claro, não sejamos caxias e simplórios. As inovações num roteiro são sempre bem-vindas, mas que mal há em contar que fim levou a irritante Nadia e até mesmo Gustavo, com quem Sofía inicia algo que se pode chamar de relação (com direito a discussões e reconciliações no meio do deserto)?

A história é atraente e prende a atenção, mas se enrola demais em si mesma e perde focos que despertam maior interesse, como, por exemplo, a relação entre a filha e a mãe, que Sofía admite não conhecer muito bem. O que salva Desierto Sur é o aspecto visual: o Atacama é retratado com uma beleza impensada. As atuações também impedem que o filme caia para a categoria de piores da Mostra – eles não surpreendem, apenas não fazem feio. A trilha também agrada com baladas meigas e brandas.

Em Tudo Acontece em Elizabethtown, Cameron Crowe usa o mesmo mote, mas apresenta um final melhor costurado. Some-se a isso uma linha melhor definida e, quem sabe, imprevistos menos gratuitos, e aí está o que falta para o longa chileno.

DESIERTO SUR
(Desierto Sur, 2008. Chile. 100 min)
Dir.: Shawn Garry

20/10 (Seg) | 20:10 | Espaço Unibanco Augusta 3
21/10 (Ter) | 17:10 | Unibanco Arteplex 3
23/10 (Qui) | 13:00 | Reserva Cultural Sala 1

O’Horten

O maquinista
Filme norueguês retrata, lentamente, a solidão de um velhinho aposentado

MARIA SILVIA FERRAZ
O FINO DA MOSTRA

O’Horten, de Brent Hammer, é um filme tipicamente europeu: um roteiro sem muita definição, atores excelentes, belas paisagens e temas que abordam as sutilezas da vida. O longa norueguês é de um humor tão bizarro quanto encantador. A atuação do protagonista vivido por Bård Owe, que vive um aplicado maquinista em processo de aposentadoria, é digna de grandes elogios. Sem muitas palavras, o ator consegue mostrar através de gestos e expressões todas as incertezas que povoam a imaginação de Odd Horten, seu personagem.

O filme deixa a lição de que nunca é tarde demais para fazer novos amigos e que somente quando esperamos o inesperado é que ele acontece. Com essa nova vida, cheia de pequenas, mas profundas surpresas, Horten fica a poucos passos de superar seus mais antigos medos.

A trilha sonora, composta pelo grupo norueguês Kaada, é boa mas um pouco escassa. O filme seria menos cansativo se tivesse mais músicas, e a magia provocada entre as paisagens de neve e os sons seria melhor evidenciada.

É um convite para pensar sobre velhice e solidão, sem deixar de lado o delicado humor. Situações que parecem bizarras, mas que acontecem sempre em nosso cotidiano. Não é um filme de amor, nem de ação, ou de comédia, então é bom ir preparado para a narrativa lenta. Apesar disso, O’Horten é charmoso ao retratar um estereótipo tão conhecido: o do bom velhinho.

O’HORTEN
(O’Horten, 2008. Noruega, Alemanha, França. 90 min.)
Dir.: Brent Hammer

25/10 (Sáb) | 19:30 | Eldorado 7
27/10 (Seg) | 21:30 | Espaço Unibanco Augusta 3
28/10 (Ter) | 15:00 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 2
29/10 (Qua) | 22:30 | Espaço Unibanco Augusta 3
30/10 (Qui) | 16:30 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 3