Arquivo do dia: 23/10/2008

Um Homem Bom

O bem e o mal
Diferente, Um Homem Bom trata de um tema clichê sob um olhar relativista

PEDRO CANÁRIO
O FINO DA MOSTRA

John Halder, interpretado por Viggo Mortensen, é um tímido professor universitário. Ele dá aulas de Literatura em Berlim, onde transmite a seus jovens alunos suas convicções ideológicas e suas interpretações sobre as efervescentes teorias científicas que apareciam a todo momento na Europa da década de 1930.

O problema é que a época é também o período de ascensão do Partido Nacional-Socialista, o Partido Nazista, e todas as novas interpretações sobre o mundo eram submetidas à censura e somente aquelas consideradas inofensivas à Segurança Nacional poderiam ser divulgadas e ensinadas.

Ao mesmo tempo, o professor Halder é convocado pelos nazistas para conversar sobre um romance que escreveu alguns anos antes sobre eutanásia, e é aí que a trama e o conflito do personagem se coincidem: O livro é considerado um exemplo de propaganda para o novo partido, e Halder é “convidado” a escrever um ensaio sobre as idéias que desenvolve em seu livro, mas ao mesmo tempo ele é muito amigo de um psicanalista freudiano judeu e considera Hitler uma piada.

O mérito do filme é exatamente o de mostrar como um homem comum, que luta para sustentar sua família e sua mãe, já senil, passa a ser considerado um “bom alemão” e, por conta disso, tem ajudas substanciais em sua vida. A trama fala do nazismo através de um enfoque diferente, e não cai nos velhos maniqueísmos dos filmes hollywoodianos – os nazistas são uns monstros sem escrúpulos e os judeus pobres coitados que sofrem com os espólios do nazismo até hoje.

O filme não é pró-nazismo e muito menos minimiza o sofrimento dos judeus, mas a principal vantagem que tem sobre os demais filmes sobre o tema é tratar a Alemanha daquela época a partir de um viés político-partidário, e não de uma força maligna inexplicável. Halder é apenas um “bom ariano” que vê sua vida melhorando sistematicamente, e por isso pára de se incomodar tanto com as atrocidades cometidas por seus companheiros.

O roteiro dá conta de tratar do conflito entre bem e mal de maneira muito peculiar e nada comum, sendo corajoso em relativizar essa briga com um tema em que os lados são muito bem definidos.

UM HOMEM BOM
(Good, 2008. Inglaterra/Alemanha. 96 min)
Dir.: Vicente Amorim

25/10 (Sáb) | 21:30 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 1
26/10 (Dom) | 15:40 | Sala Cinemateca – Sala BNDES
27/10 (Seg) | 18:50 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 2
28/10 (Ter) | 21:40 | iG Cine

Tony Manero

Um sábado entediante
Com enredo forte e desenvolvimento fraco, Tony Manero frustra as expectativas geradas por seu título

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Em Os Embalos de Sábado a Noite, Tony Manero, vivido por John Travolta, foi uma febre. Já no novo filme chileno, que leva o nome do personagem em seu título, ele não causa tanto impacto. Raúl Peralta (Alfredo Castro) é um homem de aproximadamente 50 anos, que tem como único prazer imitar o dançarino nova iorquino. Raúl lidera um grupo de dança que se apresenta aos sábados à noite em um bar na periferia de uma cidadezinha no Chile. Seu grupo é formado por uma mulher, com quem mantém um caso aparentemente há algum tempo, a filha dela e um rapaz mais novo, todos envolvidos em ações comunistas.

Descobrindo um concurso para imitadores de Tony Manero, Raúl não hesita em se inscrever. Obcecado pela perfeição, ele comete assassinato e crimes para que a apresentação saia do jeito que ele espera. O que parece é que ele foge de si mesmo através do personagem e vive disso, como ele mesmo diz no filme.

Com um começo estagnado, o filme é chato durante muito tempo. O enredo é feito para prender a atenção do espectador, mas não prende. A evolução dos fatos e do próprio personagem é entediante. Um roteiro que aparentemente promete grandes risadas chega a ser sem graça na maior parte do tempo.

A última meia hora do filme consegue ser melhor do que o resto dele. Fica claro o momento que ele toma um rumo interessante, chamando a atenção de quem estava dormindo na poltrona até então. Suas divertidas imitações do protagonista de Os Embalos de Sábado a Noite e o final totalmente esperado (para um homem de 50 anos que tenta imitar outro de 20 e poucos), dão ao espectador uma sensação de “eu queria ter visto mais disso!”

É um drama pesado (apesar de parecer, pelo título e pela história, divertido), mostrando um ambiente pobre e sujo da ditadura de Pinochet. E é em Tony Manero que Raul encontra sua escapatória de tudo isso. Se o filme fosse tão bom quanto o enredo, seria um sucesso absoluto.

TONY MANERO
(Tony Manero, 2008. Chile. 99 min)
Dir.: Pablo Larraín

18/10 (Sab) | 20:20 | Reserva Cultural Sala 1
19/10 (Dom) | 19:10 | Espaço Unibanco Augusta 3
20/10 (Seg) | 19:20 | Espaço Unibanco Pompéia 10
21/10 (Ter) | 14:00 | Cinemateca – sala BNDES
29/10 (Qua) | 14:40 | Unibanco Arteplex 3