Arquivo do dia: 21/10/2008

A Fronteira da Alvorada

O estigma precoce de Louis Garrel
Por que o jovem galã francês precisa se livrar logo de suas caretas

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

Depois de chamar atenção em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, Louis Garrel passou a atrair um certo público feminino para os filmes de que faz parte. Revezando entre a direção de Christophe Honoré (Em Paris, Canções de Amor) e do pai, Philippe Garrel (Amantes Constantes e A Fronteira da Alvorada, em exibição na Mostra), é sempre ele o ator que mais se destaca nos filmes. Porém, aos 25 anos, Louis Garrel dá sinais de que seus personagens são sempre mais do mesmo – quando, na verdade, não são.

A Fronteira da Alvorada, um dramalhão francês que deve alçar vôos bem menores que o parecido Amantes Constantes, dá uma chance para que Garrel se liberte do estigma de sedutor-brincalhão, com um personagem mais contido (e até mais complexo) do que o habitual. Porém, parece sempre que ele precisa extravasar, seja fazendo umas caretas, seja gesticulando de forma muito afetada.

Louis Garrel possui um carisma de causar inveja a muito ator por aí. O jeitão abobalhado reforçado pelos cabelos despenteados, a beleza nada hermética que lhe confere o nariz sobressaliente, a blusa de gola rulê que todos os seus personagens vestem, tudo isso faz dele um cara, no mínimo, charmoso. Mas sua carreira começa a tomar o formato da do brasileiro Selton Mello (dez anos mais velho que ele): o forte apelo com o público é inquestionável e se reflete em um ator prolífico, mas que deixa sempre a impressão que está no mesmo papel: o dele mesmo. (E que não se culpe os diretores, entre eles o seu pai, por isso!)

A FRONTEIRA DA ALVORADA
(La Frontière de L’aube, 2008. França. 106 min)
Dir.: Philippe Garrel
Leia a sinopse

19/10 (Dom) | 18:40 | Reserva Cultural Sala 1
20/10 (Seg) | 22:00 | CineSesc
25/10 (Sab) | 21:50 | Reserva Cultural Sala 1
26/10 (Dom) | 14:20 | Cine Bombril Sala 1
28/10 (Ter) | 14:30 | Reserva Cultural Sala 1

Ninho Vazio

Nem tudo é o que parece ser
Com enredo complicado e divertido ao mesmo tempo, Ninho Vazio consegue a leveza de um bom filme

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Durante o reencontro da turma de faculdade da socióloga Martha (Cecilia Roth) – que nunca chegou a terminar o curso –, seu marido, o dramaturgo Leonardo (Oscar Martines), se sente deslocado. Quando voltam para casa, encontram a casa bagunçada por seus três filhos. Na cena seguinte, uma mudança brusca: aquela mesma casa era agora apenas do casal, já que os filhos foram todos estudar longe.

Ninho Vazio, o novo filme do argentino Daniel Burman (de As Leis de Família), é o retrato desse casal, que reage de formas diferentes a essa mudança. Martha resolve voltar à faculdade e, além de fazer novas (e jovens) amizades, intensifica as antigas, o que incomoda o marido. Tantos amigos e o possível reencontro da esposa com um amor do passado só trazem preocupações a Leonardo que, ao contrário da esposa, apega-se ao passado, enviando brinquedos antigos aos filhos, além de se encantar com uma mulher mais nova.

Misturando o passado com o futuro e a ficção com a realidade, a narrativa de Burman permite que o espectador use a imaginação e tente montar esse quebra-cabeças entre o que acontece de fato ou não na história. Entre o que vem antes e o que vem depois.

Com um enredo belíssimo e com assuntos complexos e intensos a respeito do casamento e de como envelhecer aceitando a “perda” do filhos, o filme é divertido, tratando dessas questões (que podem ser tão pesadas) com uma leveza que “resolve” todos os conflitos. A incursão do diretor pelo terreno familiar é novamente bem-sucedida e, em Ninho Vazio, acrescida de muita inventividade.

Além de explorar as relações familiares e as situações mais corriqueiras com doses de sarcasmo e criatividade, o filme consegue um feito cada vez mais difícil de realizar: a certeza de um final surpreendente. É definitivamente um filme para se discutir depois, porque diversas versões da história surgirão, devido ao enredo complicado e cheio de “truques”. Mas quando se chega a uma versão final dos fatos, o resultado é bem interessante.

NINHO VAZIO
(El Nido Vacío, 2008. Espanha/Argentina. 91 min)
Dir.: Daniel Burman

18/10 (Sab) | 22:40 | Espaço Unibanco Augusta 3
20/10 (Seg) | 21:50 | Reserva Cultural Sala 1
21/10 (Ter) | 15:30 | Unibanco Arteplex 2
22/10 (Qua) | 18:20 | Unibanco Arteplex 3
27/10 (Seg) | 17:50 | Cine Bombril Sala 1

9 MM

Rotina e tédio
De maneira lenta, a produção francesa mostra uma verdade que destrói aos poucos.

MARINA DOMINGUES
O FINO DA MOSTRA

Um tiro é dado atrás da porta, não se sabe por que nem quem o disparou, e o que acontece a seguir serve justamente para explicar o motivo do disparo. Um pai desempregado e depressivo, uma mãe sempre ocupada e um filho que parece absorver os problemas e transformá-los em tédio. A relação entre eles é tão distante que a dúvida sobre quem poderia ter atirado só aumenta ao longo do filme.

Laurent, o filho, é um garoto quieto e problemático. Não se comunica com ninguém, até porque conversa é algo raro no cotidiano da família. O filme mostra apenas um dia na vida do garoto, mas já é possível ver como vive Laurent, que usa as más influências como escapismo, andando com amigos mais velhos e se envolvendo em situações que sua mãe desaprova dia após dia. Já Nadine, a mãe, vive ocupada com trabalho e não dá atenção ao filho ou ao marido, que é visto como um parasita, que bebe o dia todo e só depende do esforço da esposa para continuar vivendo. Quando Roger, o pai da família, tenta reverter a distância entre todos, é possível ver que o caso já atingiu um estado irreversível.

9 MM tem poucos diálogos e, quando acontecem, são entre gritos e brigas. Essa falta de conversa, de convivência entre os personagens, torna o filme parado e até entediante, assim como a expressão de Laurent, num tom blasé, do começo ao fim do filme. Outra característica do filme é a repetição de cenas, já que a intenção é mostrar o dia da família, de todos os pontos de vista. Cenas se repetem, com a visão do filho, da mão e do pai. Esse artifício torna o filme cansativo, já que a mesma situação é vista sempre três vezes, de três ângulos.

Mesmo cansativo e repetitivo, o filme mostra de maneira sincera como uma família se desintegra com facilidade, apenas com a quebra do diálogo, já que cada um se fecha no seu mundo, lidando apenas com o seu problema. Quando a resolução do caso se aproxima, a cena do tiro acontece novamente pra mostrar quem foi o autor do disparo, com diálogos entre a família e ação pela primeira vez no longa, o filme acaba em seu ponto alto, destruindo a monotonia de uma família em constante desgaste.

9 MM
(9 MM, 2008. Bélgica, França. 94 min)
Dir.: Taylan Barman

19/10 (Dom) | 21:30 | Cine Bombril Sala 2
20/10 (Seg) | 16:00 | HSBC Belas Artes 2
21/10 (Ter) | 14:30 | Espaço Unibanco Pompéia 10
28/10 (Ter) | 15:40 | CineSesc