Arquivo do dia: 19/10/2008

Ver Se Estou Sorrindo

Inocência perdida
A experiência no exército israelense sob um olhar humano e abrangente

MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA

O exército de Israel é o único em todo o mundo que torna obrigatório para mulheres o serviço militar. Com essa informação, começa Ver Se Estou Sorrindo, um documentário sensivel e contundente que conta as ações e reações de seis mulheres que ocupam diferentes cargos nas forças armadas israelenses. Seus depoimentos possuem uma simplicidade surpreendente, mas suas histórias não são pouco dolorosas.

As narrativas contam sobre a destruição de suas utopias logo nas primeiras experiências de impacto. Depois de passar por elas, as moças desenvolvem algo entre uma surpreendente consciência de seus atos e um cinismo paralisador. Os dias passam, elas se acostumam, de alguma forma, às atrocidades à sua volta, o mundo continua como estava antes: a bomba da realidade do dia-a-dia talvez seja mais destruidora que a dos terroristas. Ninguém permanece inocente. Como bem diz uma delas: “Eu costumava pensar nisso, mas agora só dou risada”. Fica complicado qualquer julgamento sobre as escolhas e atitudes daquelas mulheres – elas estão procurando a forma de continuar vivendo.

Por se tratar do depoimento de mulheres, o filme carrega uma certa sinceridade e transparência – mais do que isso, uma sensibilidade feminina exacerbada. Elas experimentam desde o poder de comandar homens com as informações que divulgam no sistema de comunicação do exército até a repulsão pela denúncia do roubo de terços e Alcorões por soldados israelenses.

O grande triunfo de Ver Se Estou Sorrindo é mostrar a anormalidade de suas realidades e como é difícil manter a humanidade e, principalmente, a sanidade em situações como as que são descritas. Num mundo de bombas e arbitrariedades que matam gente todos os dias, cadáveres que abrem os olhos em reflexos pós-morte e pedaços de corpos nas ruas, o que é certo e o que é errado fica difícil de distinguir. Justiça vira um termo ambíguo e relativo. A um certo ponto, só há aquilo com o que é possível lidar e aquilo com o que não é.

Há espaço para convicções e princípios em meio a tanta adversidade que parece ser irreal? Quando é a hora de simplesmente não seguir o exemplo dos oficiais mais antigos, acostumados com a corrupção e as mentiras? Quanto de frieza é apenas o necessário para sobreviver e quanto é alienação e crueldade? Ver Se Estou Sorrindo não responde a essas perguntas. Mas, em menos de uma hora, o filme dialoga de forma intensa e sem insultar a inteligência do público.

VER SE ESTOU SORRINDO
(Israel. 2008. 59 min.)
Dir.: Tamar Yarom

17/10 (Sex) | 19:50 | Cine Bombril Sala 2
18/10 (Sáb) | 16:00 | Centro Cultural São Paulo
22/10 (Qua) | 19:50 | Unibanco Arteplex 4

CURTAS SOBRE CURTAS

Os curta-metragens abaixo são exibidos nas sessões do média Ver Se Estou Sorrindo

A Neurose de Júlia (foto). (2008, Brasil). Um olhar ácido e irônico sobre a alienação e o cinismo. Júlia, uma mulher nos seus 40 anos, pensa na sua aparência e nas suas pinturas. Seu marido se acostuma a suas loucuras e chega a ser vítima delas. Suas preocupações causam riso nos primeiros momentos, mas, aos poucos, percebe-se que há mais nelas para ser notado. Os pensamentos dessa mulher louca são as únicas falas do curta que, desse modo, alcança uma sutileza louvável.

Quatro quilômetros. (2008, Israel / Inglaterra). Hulud é a filha mais velha de uma família que mora numa aldeia beduína ao sul de Israel. A ela cabe cuidar de seus irmãos, da casa e das cabras de seu pai. Ela está tramando algo envolvendo um livro, pirulitos e a escola onde seus irmãos estudam. Com lindas imagens do deserto, o curta é um olhar surpreendente sobre as distâncias entre o desconhecido e o confortável, a educação e o obscurantismo, a vontade e o dever. Às vezes, as distâncias internas são maiores do que os quilômetros que separam a casa de Hulud da escola.

Cão risonho sem cabeça. (2008, Suíça / Inglaterra). A brincadeira nada alegre de cinco crianças com um cachorro e um vídeo gravado num celular pode assustar. As cenas provocam pensamentos sobre a modernidade e seu impacto no inocente e ingênuo universo infantil.