
Alguns anos de orações…
Quantos são necessários para recuperar o tempo perdido?
LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA
Com caras apáticas e nenhum sorriso no rosto. É assim que estão os personagens quando o filme Mil Anos de Orações começa. Uma moça chinesa, Yilan (Faye Yu), com seus trinta e poucos anos, espera o pai no aeroporto. Quando Sr. Chi (Henry O) chega, mal se olham no olho e por isso já se percebe que a relação dos dois não é das mais fortes. Em um primeiro momento, temos a impressão de que quem impede essa relação de se fortalecer é a própria filha. Mas, ao longo do filme, segredos vão sendo revelados.
Vivendo em um subúrbio dos EUA, a filha recebe o pai em sua casa. Ele, comunista assumido e bastante conservador, tenta digerir e aceitar o tal “american way of life”. Com dificuldade de entender por que a filha sai de manhã sem tempo de sentar-se para tomar um café, por que ela fica acordada até tão tarde ou por que come tão pouco, o senhor se depara com uma vida que nunca teve, que nunca viu. Aos poucos, decora a casa com objetos que remetem a China comunista, como se tentasse trazer a filha de volta para seu mundo.
O filme tem esse conflito como cenário. Porém, o que se passa nele é talvez o conteúdo mais importante da história. A relação que o pai tem com sua filha é o conflito mais rico que ele traduz. O interessante é perceber como pai e filha não se conhecem e sabem tão pouco um da vida do outro. Sr. Chi parece ter vontade de conversar com a filha, mas ela reluta, não estabelecendo quase nenhum contato com o pai até os ultimos minutos do filme. Suspeitando de que Yilan não é feliz, o pai busca motivos para a tristeza da filha e, aos poucos, descobrimos que de certo modo também tenta redimir o tempo perdido no passado. Com a influência de uma senhora iraniana, que conhece na praça, ele busca meios de criar laços, que quase nunca existiram, com sua filha.
Ao comprar um presente para ela, explica ao vendedor que quer algo “velho”, que traga sorte. Para ele, “velho” é sinônimo de sorte. Por ser um senhor tão conservador e tradicional, quebra as expectativas do público com sua demonstração de afeto e de carinho. Por trás desse conservadorismo, ao contrário da frieza esperada, temos preocupação e amor. Uma relação de pai e filha, como qualquer outra.
Descobrindo uma relação amorosa conturbada na vida da filha, o pai tira satisfações com ela, e é quando as brigas do passado vêm à tona. Esse conflito, que demora para aparecer no filme, é súbito, além de conter muitas informações. No começo e até no meio ele é simples, de fácil entendimento, mas quando os segredos são revelados o filme toma um outro rumo, confundindo um pouco o espectador. Porém, como depois da tempestade sempre vem a calmaria, a briga gera um clima de paz e, com os fatos claros, os dois se abrem para essa relação que “arrastam” a tanto tempo.
Na maior parte silencioso, o filme pode ser um pouco monótono em alguns momentos. Mas a beleza e a sabedoria que esse senhor passa comovem quem o assiste, mesmo sabendo dos erros da personagem, como pai. Um homem que tem sede de conversas e se relaciona com qualquer um que se sente ao seu lado, no banco da praça ou no avião, e mesmo assim nunca teve uma conversa franca com a própria filha. Apesar disso, essa sabedoria também pode ser vista sutilmente e cada vez mais, no decorrer do filme, na própria filha. É como se a tradição tivesse sido sim passada para ela, mesmo com a falta de dialógo com o pai. O próprio título do filme tem origem em um provérbio chinês: “São necessários três mil anos de orações para repousar a cabeça no travesseiro com alguém que amamos. Para um pai e uma filha? Mil anos, talvez.” Na verdade, para um pai e uma filha, mil anos também são muita coisa.
MIL ANOS DE ORAÇÕES
(A Thousand Years of Good Prayers, EUA/China. 2007. 83 min)
Dir.: Wayne Wang
17/10 (Sex) | 18:40 | Reserva Cultural 1
18/10 (Sab) | 13:30 | Espaço Unibanco Augusta 3
19/10 (Dom) | 21:00 | Cine TAM
20/10 (Seg) | 19:50 | iG Cine
26/10 (Dom) | 15:40 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 4
Sem fazer qualquer comentário sobre o filme, que me agradou muito, pelo ineditismo do tema e pela condução do mesmo, devo dizer que me identifiquei com o sr. Chi quando ele afirmou que alguem, antes de ser pai, deveria ser avô.. Foi exatamente isso o que disse, numa conversa com amigos, há cerca de 20 anos, poucos anos após o nascimento da minha 1a. neta, que acabou sendo criada por nós. Claro que essa tese absurda só se aplica àqueles que não deram aos filhos todo carinho e atenção indispensáveis ao desenvolvimento de uma criança. Foi um MEA CULPA doloroso para o Sr. Chi. E para mim, tambem.