Arquivo do dia: 16/10/2008

Love Life

O amor como coadjuvante
Erotismo e desejo, esses são os papéis principais de Love Life

MARINA DOMINGUES
O FINO DA MOSTRA

A primeira cena de Love Life é emblemática: a preparação de um piquenique, onde tudo parece na mais completa ordem, é destruída por um vento momentâneo. O filme se baseia nisso, numa relação consolidada que é destruída por um personagem, aparentemente, passageiro. A história gira em torno de Jara, uma mulher casada, que vive uma rotina – casa, faculdade e trabalho. Sua família mantém uma relação saudável, até que um amigo de seu pai aparece e faz o papel do vento, destruindo toda a estabilidade.

Jara cria um mundo que não existe ao se apaixonar por Arie, o amigo de seu pai. O homem não dá nenhum sinal de interesse, mas mesmo assim a jovem se encanta e começa uma incansável perseguição a ele. Desde ir a sua casa no meio da tarde, até viajar com ele. A situação deles se agrava a cada cena, mas mesmo humilhada pelo amante, ela continua encantada com uma paixão que não existe.

Mesmo com a mãe no hospital e com o marido a seus pés, nada faz Jara perceber o quão perdida ela está, enquanto Arie a vê apenas como mais um objeto sexual. É difícil entender o que move essa paixão repentina; a única possível explicação é a gana por aventura, por novidade, já que ela parece entediada com sua vida o tempo todo.

Love Life é repleto de cenas desnecessárias, que nada adicionam ao filme, como cenas de sexos que se repetem diversas vezes a troco de nada, pois seria possível ver que Jara está submissa ao amante, mesmo sem tantas cenas eróticas. Mas o longa consegue prender a atenção do espectador, causando curiosidade com as reviravoltas na história. O que poderia se tornar uma história previsível, como qualquer outra sobre relacionamento e traição, surpreende ao revelar que não se trata só disso, que o drama vai além do presente.

Quem assistir à produção israelense esperando uma grande história de amor, se decepcionará. O filme trata o amor com descaso, nenhuma relação no longa é baseada nesse sentimento e todos aqueles que acreditam nele são deixados de lado, numa trama onde só a atração e o desejo interessam.

LOVE LIFE
(Love Life, Israel/Alemanha. 2007. 104 minutos)
Dir: Maria Schrader

17/10 (Sex) | 20:40 | Espaço Unibanco Pompéia 1
19/10 (Dom) | 15:30 | Espaço Unibanco Augusta 3
20/10 (Seg) | 19:00 | Cine TAM
22/10 (Qua) | 18:20 | Unibanco Arteplex 2

Liverpool

Mera prepotência
O retrato da monotonia não acrescenta nada além de… monotonia

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

Quem assistir a Liverpool e só depois ler a sua sinopse no site oficial da Mostra, como eu fiz, possivelmente vai se espantar. Como pode uma sinopse dizer mais sobre um filme do que ele próprio? Há resposta para isso: com o objetivo de retratar a monotonia da vida de seu protagonista, o cineasta argentino Lisandro Alonso não conta sua história por meio de diálogos – que são escassos –, mas de metáforas visuais.

Sempre há um elemento cenográfico de cor vermelha. Um chapéu vermelho, uma mala vermelha, uma chaleira vermelha… A demora para fazer os cortes entre as cenas é outro recurso que atende às metáforas visuais de Liverpool. Quando a ação (ação?) se encerra, a câmera continua parada, mostrando um toco de lenha aqui, uma mesa de bar (adivinhem de que cor…) ali. Será que aquela lenha quer dizer alguma coisa? O que será que a sigla que estampa aquela mala significa?

É assim, cheio de imagens propositais, mas nulo de idéias e de uma história para contar, que o filme se sustenta. Quem comprar esse argumento prepotente de tentar entender todas essas metáforas, pode se dar mal. Querendo saber o porquê dos vermelhos, das lenhas e das siglas, a única pergunta que te perseguirá minutos após o filme será: e daí?!

LIVERPOOL
(Liverpool, 2008. Argentina/Alemanha/outros. 84 min.)
Dir.: Lisandro Alonso

17/10 (Sex) | 19:30 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 2
18/10 (Sab) | 13:00 | Cine Bombril 1
19/10 (Dom) | 19:50 | Cinemateca – sala BNDES
30/10 (Qui) | 14:50 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 3

La Virgen Negra

Venezuela, com um toque de México
Como em uma novela mexicana, atuações exageradas e muitos dramas amorosos tomam conta de La Virgen Negra

MARINA DOMINGUES
O FINO DA MOSTRA

El Pueblo de Negros é uma pequena cidade fundada pela senhora Isabel, uma imigrante espanhola viúva e sem filhos. Ela construiu a vila aos poucos, começando pelo cemitério, onde enterrou o marido e os filhos. A história, que é narrada pelas crianças Negrita e Franklin, envolve pequenos dramas de todos da vila.

Cada habitante do povoado é apresentado junto a seus problemas, todos eles amorosos e/ou familiares. A fim de resolver os problemas matrimoniais de uma das moradoras do Pueblo, uma Virgem Maria negra é colocada na igreja para a missa de domingo, e o que duraria apenas um dia se estende, já que a virgem acaba conquistando a todos, que a transformam em padroeira da comunidade. Tudo o que lhe é pedido se realiza e a vila, que estava sendo ameaçada por vândalos, torna-se mais tranqüila do que nunca. O que seria a solução de apenas um problema acaba envolvendo e modificando o destino de todos do vilarejo.

Numa tentativa de mostrar a influência da religião e da superstição na vida das pessoas do pequeno povoado, La Virgen Negra não consegue ilustrar de maneira convincente o seu tema central. A coexistência entre a bruxaria e a fé católica estão lá, mas de um jeito tão escancarado que soa como mero achincalhe.

Com roteiro previsível e dramas forçados, o filme trata de todos os assuntos com tom exagerado, deixando o filme muito semelhante a uma novela mexicana. As músicas e as interpretações demasiadamente teatrais refroçam ainda mais essa impressão. O dramalhão venezuelano apresenta situações que mais se aproximam da comédia e mistura romance e feitiçaria num tom brega.

LA VIRGEN NEGRA
(La Virgen Negra, 2008. Venezuela. 86 min)
Dir.: Ignácio Castillo Cottin

21/10 (Ter) | 20:20 | Espaço Unibanco Pompéia 1
27/10 (Seg) | 17:30 | Espaço Unibanco Augusta 3
28/10 (Ter) | 14:00 | HSBC Belas Artes 2

Mil Anos de Orações

Alguns anos de orações…
Quantos são necessários para recuperar o tempo perdido?

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Com caras apáticas e nenhum sorriso no rosto. É assim que estão os personagens quando o filme Mil Anos de Orações começa. Uma moça chinesa, Yilan (Faye Yu), com seus trinta e poucos anos, espera o pai no aeroporto. Quando Sr. Chi (Henry O) chega, mal se olham no olho e por isso já se percebe que a relação dos dois não é das mais fortes. Em um primeiro momento, temos a impressão de que quem impede essa relação de se fortalecer é a própria filha. Mas, ao longo do filme, segredos vão sendo revelados.

Vivendo em um subúrbio dos EUA, a filha recebe o pai em sua casa. Ele, comunista assumido e bastante conservador, tenta digerir e aceitar o tal “american way of life”. Com dificuldade de entender por que a filha sai de manhã sem tempo de sentar-se para tomar um café, por que ela fica acordada até tão tarde ou por que come tão pouco, o senhor se depara com uma vida que nunca teve, que nunca viu. Aos poucos, decora a casa com objetos que remetem a China comunista, como se tentasse trazer a filha de volta para seu mundo.

O filme tem esse conflito como cenário. Porém, o que se passa nele é talvez o conteúdo mais importante da história. A relação que o pai tem com sua filha é o conflito mais rico que ele traduz. O interessante é perceber como pai e filha não se conhecem e sabem tão pouco um da vida do outro. Sr. Chi parece ter vontade de conversar com a filha, mas ela reluta, não estabelecendo quase nenhum contato com o pai até os ultimos minutos do filme. Suspeitando de que Yilan não é feliz, o pai busca motivos para a tristeza da filha e, aos poucos, descobrimos que de certo modo também tenta redimir o tempo perdido no passado. Com a influência de uma senhora iraniana, que conhece na praça, ele busca meios de criar laços, que quase nunca existiram, com sua filha.

Ao comprar um presente para ela, explica ao vendedor que quer algo “velho”, que traga sorte. Para ele, “velho” é sinônimo de sorte. Por ser um senhor tão conservador e tradicional, quebra as expectativas do público com sua demonstração de afeto e de carinho. Por trás desse conservadorismo, ao contrário da frieza esperada, temos preocupação e amor. Uma relação de pai e filha, como qualquer outra.

Descobrindo uma relação amorosa conturbada na vida da filha, o pai tira satisfações com ela, e é quando as brigas do passado vêm à tona. Esse conflito, que demora para aparecer no filme, é súbito, além de conter muitas informações. No começo e até no meio ele é simples, de fácil entendimento, mas quando os segredos são revelados o filme toma um outro rumo, confundindo um pouco o espectador. Porém, como depois da tempestade sempre vem a calmaria, a briga gera um clima de paz e, com os fatos claros, os dois se abrem para essa relação que “arrastam” a tanto tempo.

Na maior parte silencioso, o filme pode ser um pouco monótono em alguns momentos. Mas a beleza e a sabedoria que esse senhor passa comovem quem o assiste, mesmo sabendo dos erros da personagem, como pai. Um homem que tem sede de conversas e se relaciona com qualquer um que se sente ao seu lado, no banco da praça ou no avião, e mesmo assim nunca teve uma conversa franca com a própria filha. Apesar disso, essa sabedoria também pode ser vista sutilmente e cada vez mais, no decorrer do filme, na própria filha. É como se a tradição tivesse sido sim passada para ela, mesmo com a falta de dialógo com o pai. O próprio título do filme tem origem em um provérbio chinês: “São necessários três mil anos de orações para repousar a cabeça no travesseiro com alguém que amamos. Para um pai e uma filha? Mil anos, talvez.” Na verdade, para um pai e uma filha, mil anos também são muita coisa.

MIL ANOS DE ORAÇÕES
(A Thousand Years of Good Prayers, EUA/China. 2007. 83 min)
Dir.: Wayne Wang

17/10 (Sex) | 18:40 | Reserva Cultural 1
18/10 (Sab) | 13:30 | Espaço Unibanco Augusta 3
19/10 (Dom) | 21:00 | Cine TAM
20/10 (Seg) | 19:50 | iG Cine
26/10 (Dom) | 15:40 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 4