Arquivo do dia: 13/10/2008

Alexandra

A guerra em passos lentos
O cotidiano dos soldados russos aos olhos de Alexandra

NATHALIA GARCIA
O FINO DA MOSTRA

Menos ação e mais observação é o formato adotado pelo diretor Alexander Sokurov no filme Alexandra (Alexandra, Rússia). Tanques carregados, soldados limpando suas armas e outros descansando são algumas das cenas que Alexandra Nikolaevna (Galina Vishnevskaya) descreve com seu olhar minucioso durante sua estadia em um acampamento militar russo na Chechênia. O filme relata o reencontro da protagonista com seu neto, o capitão Denis (Vasily Shevtsov), após 7 anos de afastamento.

As câmeras percorrem o cenário seguindo o ritmo lento dos passos de Alexandra, que com sua inquieta curiosidade não permanecia em seu “hotel”, tenda de lona que dividia com o neto. De um lado para o outro, dialogava com soldados ainda adolescentes e procurava zelar por seu bem-estar, fornecendo-lhes comida e repreendendo-lhes quanto à falta de higiene de suas roupas. A avó pode ser encarada metaforicamente como a “mãe-Rússia”, dentro desse universo masculino.

Alexandra é uma senhora de personalidade forte, rígida com sua família e seguidora de valores tradicionais como o casamento. Não fazia questão de ser simpática com os soldados, chegando até a parecer rabugenta. Ainda assim, tratavam-na com respeito. A interação entre a avó e o neto revela uma crescente cumplicidade e afeto.

O filme recorre ao uso de artifícios sensoriais. A paisagem ganha força com o marrom das imagens em tom sépia, traduzindo um desconforto, um ambiente pesado, inóspito e quente, vítima da guerra. A própria presença de Alexandra é contrastante. Temos a experiência em oposição à vulnerabilidade dos soldados, que possibilita a avó encontrar liberdade para ir e vir enquanto os combatentes vivem regidos pela disciplina.

A visita de Alexandra à vila mais próxima e seu encontro com uma vendedora é sutilmente capaz de transformar a percepção do espectador. Ela passa a observar o funcionamento de um local afetado pela guerra, destacando a necessidade do trabalho feminino para o sustento da família em épocas de combate. O diretor consegue representar uma guerra sem retratar o conflito, abusando de sensibilidade e delicadeza.

ALEXANDRA
(Alexandra, 2007. Rússia. 92min)
Dir.: Alexander Sokurov

17/10 (Sex) | 22:20 | iG Cine
18/10 (Sab) | 19:00 | Cine Tam
19/10 (Dom) | 21:40 | Cine Bombril 1
25/10 (Sab) | 14:30 | Espaço Unibanco Pompéia 10

Africa Unite

Don’t give up the fight
Documentário sobre as lutas políticas e sociais na África mostra o legado que Bob Marley deixou à juventude africana

MARIA SILVIA FERRAZ
O FINO DA MOSTRA

Bob Marley pediu e o documentário Africa Unite (Africa Unite, EUA), de Stephanie Black, tem o objetivo de mostrar que a juventude africana não vai desistir tão cedo. O filme mostra como os africanos têm se organizado nessa longa luta por real independência e direitos iguais. Emocionante, possui inúmeras cenas de debates sobre o tema e entrevistas com jovens extremamente politizados e conscientes de que a luta de Bob Marley está apenas começando.

Além de abordar o problema da emancipação africana, Africa Unite mostra cenas do memorável show em tributo aos sessenta anos do grande rei do reggae, que aconteceu em fevereiro de 2005, na Etiópia, e contou com a presença de vários Marleys. A sensação é de que o próprio Bob está ali, de tanto que seus filhos se parecem com ele. Muitas vezes criticados por seguirem exatamente o mesmo caminho do pai, os jovens Marleys dão um show de música, ativismo político e estilo. Afinal, como ter uma vida não ligada à música quando seu pai é Bob Marley?

Para os fãs de Bob, é impossível segurar o choro quando sua mãe, Mrs. Booker, faz um emocionado discurso sobre o sonho de uma única África, unida pela paz. Ao fundo, a música “No Woman No Cry” e imagens em preto-e-branco de um jovem e magro Bob em uma cachoeira. “One love, one heart, one soul, one home” são as palavras com que a simpática senhora encerra sua participação no filme.

Os adoradores de Bob Marley e de sua filosofia não podem perder o documentário. É também uma ótima opção para quem quer saber o que pensam e cantam os jovens africanos. Para os expectadores, fica o desejo de que essas idéias possam um dia sair da mente das pessoas para se tornarem realidade.

AFRICA UNITE
(Africa Unite, 2008. EUA. 92 min)

17/10 (Sex) | 14:00 | HSBC Belas Artes 2
20/10 (Seg) | 19:20 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 4
23/10 (Qui) | 16:00 | Espaço Unibanco Augusta 5
24/10 (Sex) | 16:20 | Reserva Cultural Sala 1

Enigma de Macaco

Americano em pele de australiano
Enigma de Macaco segue modelo hollywoodiano ao contar clichê de aventura selvagem

CATARINA CICARELLI
O FINO DA MOSTRA

Para quem gosta daquela velha história em que um grupo de adolescentes resolve se aventurar em uma floresta, se perde e acaba tendo que lutar por sua sobrevivência, este filme está mais do que indicado. Pra quem não gosta, melhor pensar duas vezes. Achou o resumo parecido com algum filminho americano de baixo orçamento, com atores completamente desconhecidos, tipo aqueles que passam no SBT na sexta à noite? É… Ele não foge disso!

Claramente uma cópia do modelo americano – só o que difere é o sotaque pendendo pro britânico no filme australiano.

Já nos primeiros minutos, notamos a tendência americanizada do filme. Nos próximos 90 minutos, isso só se reitera. Diálogos fracos, um aprofundamento psicológico que de profundo não tem nada, e doses galopantes de drama nos envolvem em uma trama cansativa e que não acrescenta praticamente nada ao espectador (a não ser, talvez, sono).

Na história, temos como plano de fundo para a busca épica pela árvore antiga (Monkey Puzzle), a luta pela sobrevivência em um ambiente selvagem desconhecido, ambiente esse que é uma das poucas coisas que se salvam no filme. Não é à toa que o longa abocanhou o prêmio de “Best Environment Film” no Festival Internacional de Shangai de 2008.

Mas, em meio à canyons e despenhadeiros, a paisagem é ofuscada por crises existenciais e outros conflitos que surgem ao longo da história e que abalam a relação dos personagens, chegando a pôr em risco suas vidas.

ENIGMA DE MACACO
(Monkey Puzzle, 2008. Austrália. 92 min)
Dir.: Mark Forstmann

17/10 (Sex) | 15:00 | Cine Olido
20/10 (Seg) | 21:20 | Espaço Unibanco Pompéia 10
27/10 (Seg) | 19:30 | HSBC Belas Artes 2