COMENTÁRIO
Por que Horas de Verão foi exibido na coletiva de imprensa da Mostra
LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA
Leon Cakoff, idealizador da Mostra, tinha em mãos 450 filmes para escolher qual deles seria exibido após a coletiva de imprensa, realizada no sábado (11/10). Horas de Verão não foi selecionado para desagradar os jornalistas, como esbravejou Rubens Ewald Filho no elevador do shopping Frei Caneca. “Não tem conflito. E se não tem conflito, não tem filme. O Cakoff faz isso sempre, é de propósito!”, mandou ver Rubens Ewald minutos após os créditos finais do filme. Foi escolhido para que cada crítico descesse os elevadores levando suas próprias impressões sobre o filme. No mesmo elevador em que o nosso comentarista-do-Oscar manifestou sua raiva contra a escolha de (e contra o próprio) Horas de Verão, outro jornalista tentou conter-lhe os ânimos. “Achei um filme sensível…”
Horas de Verão pode não ser um dos destaques da Mostra, mas veio a calhar em uma sala de cinema cheia de jornalistas porque uma das questões centrais no filme é justamente o exercício da crítica. Olivier Assayas, que antes de se tornar cineasta era crítico da prestigiada Cahiers du Cinema, cria uma história em que, na maioria das cenas, os personagens estabelecem uma relação de divergência, de discordância de opiniões. (Talvez recaia sobre isso o desabafo de Rubens Ewald: realmente, o filme às vezes se ocupa mais em satisfazer suas pretensões do que em contar a história e os tais “conflitos”).
Hélène Berthier deixa aos três filhos como espólio a casa e os objetos que decoravam a casa de seu tio, um reconhecido artista plástico. O que fazer com esses objetos, a maioria deles desenhada por importantes artistas, que Paul Berthier mantinha em sua casa? Hélène tem um carinho fora do normal com a casa que herdou do tio, com quem manteve uma relação amorosa. Fréderic, seu filho mais velho e o único dos três que conheceu Paul, também tem apego pela casa. Mas os outros dois filhos não desejam manter sob o cuidado deles aquilo que a mãe lhes deixou. Por conta disso, esse espólio passará por uma série de avaliações, feitas pelos filhos de Hélène, pelos curadores do Museu d’Orsay e também pela octogenária empregada da casa de Paul. Se, da primeira vez, a casa de Paul Berthier foi avaliada apenas pelo olhar carinhoso da sobrinha, que manteve a casa intacta, da maneira que foi-lhe deixada por seu tio, a “segunda herança” passaria, dessa vez, pelo crivo de diversas pessoas.
Submeter a arte ao olhar crítico e, nesse caso, de caráter revisionista envolve também a carga de memórias e o apego de cada um. Horas de Verão é, portanto, um filme sobre a subjetividade da crítica e, mais do que isso, sobre a efemeridade do julgamento que se faz sobre uma obra de arte perante a própria obra. O desfecho dado a um par de vasos da casa de Paul simboliza a razão desse filme ter sido o escolhido para a coletiva. De todos os objetos daquela casa, Hélène só não apreciava esses dois vasos, que a empregada da casa mantinha escondidos, mas usava para colocar flores de vez em quando. Frédéric, o filho encarregado pelo espólio, dá de presente para a empregada um dos vasos, que ela recebe com a certeza de que não está levando daquela casa nada que pudesse ter muito valor – é apenas um “vaso com bolhas”. Quando avaliado pelos curadores do Orsay, o outro vaso ganha destaque jamais imaginado por qualquer um dos filhos e recebe um espaço na exposição permanente do Museu. Se a escolha de Hélène havia sido manter os vasos no esquecimento, a escolha do Museu foi trazer aqueles vasos à tona.
A coletiva de imprensa convidou os críticos de cinema a pensarem os filmes da Mostra como se fossem aquele vaso. Queira ou não, muitos filmes só poderão sair do fundo do armário e ganhar destaque na Mostra se a crítica der valor a eles. Mas se os críticos se esquecerem de algum filme que merecesse maior destaque, com certeza haverá alguém que vai querer levar aquele “vaso com bolhas” pra casa.
[Leia a crítica do filme aqui]
HORAS DE VERÃO
(L’Heure D’Été, 2008. França. 102 min)
Dir.: Olivier Assayas
17/10 (Sex) | 17:40 | HSBC Belas Artes 2
18/10 (Sab) | 19:00 | Cinemark Cidade Jardim
21/10 (Ter) | 16:00 | Espaço Unibanco Augusta 3
Excelente!!
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Escrevi sobre este filme no meu blog, num post que remeto a outros 2 filmes. Um, o francês ‘Paris’, o outro, o japonês ‘A Partida’.
Enfim, um belíssimo filme e ainda bem que não fui atrás da crítica que li numa outra fonte. De fato, críticos às vezes podem ser bem insensíveis ou desconectados da delicadeza da vida.
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