O FINO DA MOSTRA

Horas de Verão (I)

11/10/2008 · 5 Comentários

CRÍTICA

O valor das lembranças
A história de três irmãos que pouco conflitam entre si, mas muito consigo mesmos.

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Se algumas lembranças são valiosas, o novo filme do diretor francês Olivier Assayas, Horas de Verão (L’Heure d’Été, França), é marcante e faz jus à discussão de valores inseridos nele. A história gira em torno de uma família que, como muitas outras, se separa fisicamente devido aos novos rumos que os integrantes dela tomam. A mãe Hélène Berthier (Edith Scob), mora em uma belíssima casa que possui obras raras, como móveis e quadros feitos por artistas consagrados. Seu dono anterior, Paul Berthier, era tio de Hélène, portanto tio-avô dos três irmãos, filhos dela. A maior preocupação da mãe é com o “peso” da herança que deixará à seus filhos e netos depois da sua morte, que acaba acontecendo.

O filme retrata a decisão dos três irmãos, entrando em um consenso sobre o que fazer com a herança e sobre o que é conveniente ou não para cada um. Frédéric (Charles Berling), o único dos filhos que continua morando na França, é totalmente a favor da manutenção da casa e também dos objetos que estão nela, com a idéia de que futuramente seus filhos usufruirão daquele lugar. Jérémie (Jérémie Renier), o segundo irmão, se coloca, um pouco constrangido, a favor da venda devido ao fato de que, como já não mora mais na França e que poucas vezes voltaria à Europa, não tiraria proveito da casa como tiraria do dinheiro. Já Adrienne (Juliette Binoche) acata a decisão do irmão de vender os pertences da família, resolvendo a questão. Assim mesmo, sem nenhum conflito e sem nenhum drama, a história consegue revelar aspectos importantes do comportamento humano.

Questões importantes e muito delicadas são discutidas no filme, mas dois temas se destacam: o valor das coisas para cada um e a ambiguidade dentro de todos nós. O próprio filme provoca sensações e lembranças particulares em cada um. E é exatamente isso que o diretor passa: uma relatividade de valores. O que para a família é tão importante e simbólico, para o museu ou para as pessoas que o visitam, aquilo pode ser só uma mesa ou só um vaso. Porém inseridos na casa de onde vieram eram muito mais do que isso. Além disso, Horas de Verão discute como algo que é tão simples adquire um valor tão grande por ter sido feito por tal artista e, ao mesmo tempo, pode ser apenas um objeto que remete à uma saudade ou uma lembrança, para quem não têm conhecimento exato de quem o fez.

Além disso, o filme aborda a questão da dualidade pessoal de cada um dos personagens. O velho se contrasta com o novo. Frédéric, que é economista, é ironicamente a favor de manter a casa e os objetos, preso a um passado, quase que sozinho. Ao mesmo tempo, fuma maconha (segundo a filha) e toma cerveja com o filho no meio da tarde. Adrienne, a artista (e supostamente a “rebelde” da família) que mora em NY, pega para ela apenas alguns poucos utensílios da casa e é a favor de vender até os cadernos de desenhos do tio-avô, uma relíquia que pertence a família e que, a pedidos da mãe, não deveriam ser separados. Assim, os personagens se contradizem, brigando com os dois lados de sua personalidade, que sempre existem.

O filme conta com muita delicadeza esses conflitos e não deixa para o público a interpretação de muitas metáforas e “entrelinhas”. Com cenas absolutamente necessárias e esclarecedoras, ele não deixa nenhuma informação ao léu. O final quebra o filme e mostra, com uma sutileza bonita, o contraste do novo e do antigo, e como as coisas hoje em dia se renovam muito rápido, deixando com que recordações passem rápido pela mente. Talvez isso seja bom, talvez seja ruim. O fato que é as lembranças sempre estão lá, com o valor que cada um atribui a elas.

[Leia aqui um comentário sobre o filme >>]

HORAS DE VERÃO
(L’Heure D’Été, 2008. França. 102 min)
Dir.: Olivier Assayas

17/10 (Sex) | 17:40 | HSBC Belas Artes 2
18/10 (Sab) | 19:00 | Cinemark Cidade Jardim
21/10 (Ter) | 16:00 | Espaço Unibanco Augusta 3

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Horas de Verão (II)

11/10/2008 · 4 Comentários

COMENTÁRIO

Por que Horas de Verão foi exibido na coletiva de imprensa da Mostra

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

Leon Cakoff, idealizador da Mostra, tinha em mãos 450 filmes para escolher qual deles seria exibido após a coletiva de imprensa, realizada no sábado (11/10). Horas de Verão não foi selecionado para desagradar os jornalistas, como esbravejou Rubens Ewald Filho no elevador do shopping Frei Caneca. “Não tem conflito. E se não tem conflito, não tem filme. O Cakoff faz isso sempre, é de propósito!”, mandou ver Rubens Ewald minutos após os créditos finais do filme. Foi escolhido para que cada crítico descesse os elevadores levando suas próprias impressões sobre o filme. No mesmo elevador em que o nosso comentarista-do-Oscar manifestou sua raiva contra a escolha de (e contra o próprio) Horas de Verão, outro jornalista tentou conter-lhe os ânimos. “Achei um filme sensível…”

Horas de Verão pode não ser um dos destaques da Mostra, mas veio a calhar em uma sala de cinema cheia de jornalistas porque uma das questões centrais no filme é justamente o exercício da crítica. Olivier Assayas, que antes de se tornar cineasta era crítico da prestigiada Cahiers du Cinema, cria uma história em que, na maioria das cenas, os personagens estabelecem uma relação de divergência, de discordância de opiniões. (Talvez recaia sobre isso o desabafo de Rubens Ewald: realmente, o filme às vezes se ocupa mais em satisfazer suas pretensões do que em contar a história e os tais “conflitos”).

Hélène Berthier deixa aos três filhos como espólio a casa e os objetos que decoravam a casa de seu tio, um reconhecido artista plástico. O que fazer com esses objetos, a maioria deles desenhada por importantes artistas, que Paul Berthier mantinha em sua casa? Hélène tem um carinho fora do normal com a casa que herdou do tio, com quem manteve uma relação amorosa. Fréderic, seu filho mais velho e o único dos três que conheceu Paul, também tem apego pela casa. Mas os outros dois filhos não desejam manter sob o cuidado deles aquilo que a mãe lhes deixou. Por conta disso, esse espólio passará por uma série de avaliações, feitas pelos filhos de Hélène, pelos curadores do Museu d’Orsay e também pela octogenária empregada da casa de Paul. Se, da primeira vez, a casa de Paul Berthier foi avaliada apenas pelo olhar carinhoso da sobrinha, que manteve a casa intacta, da maneira que foi-lhe deixada por seu tio, a “segunda herança” passaria, dessa vez, pelo crivo de diversas pessoas.

Submeter a arte ao olhar crítico e, nesse caso, de caráter revisionista envolve também a carga de memórias e o apego de cada um. Horas de Verão é, portanto, um filme sobre a subjetividade da crítica e, mais do que isso, sobre a efemeridade do julgamento que se faz sobre uma obra de arte perante a própria obra. O desfecho dado a um par de vasos da casa de Paul simboliza a razão desse filme ter sido o escolhido para a coletiva. De todos os objetos daquela casa, Hélène só não apreciava esses dois vasos, que a empregada da casa mantinha escondidos, mas usava para colocar flores de vez em quando. Frédéric, o filho encarregado pelo espólio, dá de presente para a empregada um dos vasos, que ela recebe com a certeza de que não está levando daquela casa nada que pudesse ter muito valor – é apenas um “vaso com bolhas”. Quando avaliado pelos curadores do Orsay, o outro vaso ganha destaque jamais imaginado por qualquer um dos filhos e recebe um espaço na exposição permanente do Museu. Se a escolha de Hélène havia sido manter os vasos no esquecimento, a escolha do Museu foi trazer aqueles vasos à tona.

A coletiva de imprensa convidou os críticos de cinema a pensarem os filmes da Mostra como se fossem aquele vaso. Queira ou não, muitos filmes só poderão sair do fundo do armário e ganhar destaque na Mostra se a crítica der valor a eles. Mas se os críticos se esquecerem de algum filme que merecesse maior destaque, com certeza haverá alguém que vai querer levar aquele “vaso com bolhas” pra casa.

[Leia a crítica do filme aqui]

HORAS DE VERÃO
(L’Heure D’Été, 2008. França. 102 min)
Dir.: Olivier Assayas

17/10 (Sex) | 17:40 | HSBC Belas Artes 2
18/10 (Sab) | 19:00 | Cinemark Cidade Jardim
21/10 (Ter) | 16:00 | Espaço Unibanco Augusta 3

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LISTA DE FILMES

11/10/2008 · 1 Comentário

Confira a lista de filmes que estão programados para a Mostra desse ano. Em breve, comentários e mais informações sobre essa lista e sobre a programação. (mais…)

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Lokas

11/10/2008 · Deixe um comentário

Um outro lado do prisma
Comédia que escapa aos padrões da Mostra trata de forma agradável a homossexualidade

BRUNA CARICATI
O FINO DA MOSTRA

Para a literatura chilena, existe Pablo Neruda; para o cinema, Gonzalo Justiniano. O diretor e ex-jornalista, vencedor de diversos prêmios, põe em voga seu 8º filme na Mostra deste ano. Lokas (Lokas, México/Chile, 2008) tem como tema central a homossexualidade e a objeção a essa condição por parte dos homofóbicos. Apesar de tratar de um assunto relativamente polêmico, que para muitos ainda é um tabu, Justiniano criou uma obra despretensiosa, engraçada e tocante.

A história cobre a vida de Charly (Rodrigo Bastidas), um viúvo homofóbico que tem um garoto curioso e esperto. Ele acaba sendo preso e após sua saída, a mando da mãe, embarca com seu filho Pedro (Raimundo Bastidas) para o México, a fim de reencontrar o pai que não via há 30 anos. Chegando lá, tem uma surpresa: seu pai, Mario, interpretado pelo humorista chileno Coco Legrand, agora é homossexual e mora com o namorado em uma casa estranhamente decorada. Inicialmente, Charly se mantém receoso e omite ao filho a real condição do avô. De modo que passa a inventar histórias para que o menino não descubra a verdade.

Porém, Charly encontra-se desempregado, e Mario, comovido com a situação, arranja um trabalho para o rapaz em uma boate gay freqüentada pela alta sociedade mexicana. O bom salário faz com que o jovem homem não hesite e se sujeite às mudanças necessárias para poder encarar o cargo de garçom. A metamorfose é o ápice da história. O moço tenta ignorar ao máximo o preconceito, altera seu comportamento e transforma seu visual – tudo por dinheiro.

No entanto, se vê em um conflito, à medida que precisa esconder de Pedro os detalhes acerca de seu ofício. Outro dilema que Charly precisa enfrentar é a atração por Liliana (Fabiola Campomanes), dona da boate, uma vez que a bela moça não pode desconfiar de que ele é heterossexual, pois a revelação poria em risco seu emprego. Entre dúvidas, insinuações e provocações as três gerações tentam se compreender. A força da relação entre Charly e Pedro é perceptível, já que na vida real eles são pai e filho.

Lokas é uma produção chileno-mexicana que foge do clichê constantemente presente no cenário alternativo predominante na Mostra. Traz o humor aprazível em uma história que poderia se transformar em um drama. Lida com o choque de gerações, ao passo que Mario é o gay liberal, Charly, protetor e homofóbico e Pedro anseia pelo novo e desconhecido. O filme, exibido para a imprensa sem legendas, é facilmente compreensível mesmo assim. Não há sombra de dúvidas de que é uma boa opção para assistir na Mostra, pois rir ainda continua sendo o melhor remédio.

LOKAS
(Lokas, 2007. México/Chile. 90 min)
Dir.: Gonzalo Justiniano

17/10 (Sex) | 19:30 | Cinemark Shopping Eldorado
27/10 (Seg) | 16:00 | Cine Bombril 1
29/10 (Qua) | 17:00 | Cine Olido

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Hunabkú

11/10/2008 · 1 Comentário

Se o problema fosse só o nome…
Drama familiar, tradição maia, magia, falsa antropologia e unicórnios – a produção argentina Hunabkú se perde entre assuntos desconexos.

MARINA DOMINGUES
O FINO DA MOSTRA

Com a mudança do emprego do pai, Lucas se vê mudando de Buenos Aires para uma região deserta da Patagônia e então começa a grande viagem. A família instala-se em uma casa no meio do nada, cercada apenas por gelo e um vigilante noturno, que não parece ter nada para vigiar. Coisas estranhas começam a acontecer com Lucas, como premonições e sonhos anormais, e então ele se interessa por um curso de antropologia, o que o leva a conhecer Nicolas, seu mentor.

Professor e aluno se aproximam, e o garoto demonstra interesse pela sabedoria de seu mestre, e pelas figuras que adornam sua sala. Entre elas o símbolo Maia Hunab Ku, que apesar de dar nome ao filme, só é identificado e explicado no fim, sendo a simbologia da concentração de energia do centro da galáxia. Nicolas divide alguns de seus conhecimentos sobre magia e assuntos sobrenaturais com o menino.

E aí que começa a tragédia cinematográfica. Muitos assuntos que não se relacionam, tigres que não existem, passagens secretas, questionamentos inúteis, ciência e magia, tudo numa desarmonia inenarrável. E, como se isso não bastasse, a película é ainda decorada com o drama da mãe, que tem um sério problema: dorme durante a tarde e tem insônia durante a noite.

Em um filme em que nada se salva, a aparição de um unicórnio não surpreende, já que a loucura, que inicialmente era vista apenas no menino, parece se espalhar por toda a família como se fosse contagiosa. O filme termina com imagens que mais parecem de um documentário sobre o aquecimento global, deixando uma grande dúvida sobre qual é o tema ou mesmo a intenção de um filme sem pé nem cabeça.

HUNABKÚ
(Hunabkú, 2007. Argentina. 100 min)
Dir: Pablo César

17/10 (Sex) | 18:10 | Cine Bombril 1
18/10 (Sab) | 15:00 | Reserva Cultural 1
19/10 (Dom) | 19:40 | Centro Cultural São Paulo

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