Questão delicada
O resgate da vida e obra de Muhammad Asad chega em boa hora e deve ser levado em consideração
WILSON SAIKI JR.
O FINO DA MOSTRA
O diretor austríaco Georg Misch, apesar de não trazer grandes inovações ao gênero documental, resgata em seu filme Rumo à Meca – A Jornada de Muhammad Asad (A Road to Mecca, Áustria) um personagem histórico importante e pouco conhecido no mundo ocidental, Muhammad Asad. A narração segue por locais importantes na história de Asad: Viena, Arábia Saudita, Israel, Paquistão, Estados Unidos e alguns outros países.
Nascido em 1900 na cidade de Lvov (Galícia, atual Ucrânia), o judeu Leopold Weiss mudou seu nome para Muhammad Asad aos 26 anos, quando converteu-se ao islamismo e, por isso, passou a ser desconsiderado pela família, que não aceitou sua escolha. Essa decisão ocorreu a partir de uma viagem ao Oriente Médio, onde viveu a experiência que para ele era considerada única: sentir a solidão do deserto e conviver com os beduínos.
Assad participou da criação do Paquistão, e foi embaixador do país na ONU durante um ano. Além das carreiras de diplomata e jornalista (como correspondente de guerra do jornal Frankfurter Zeitung), que possibilitaram suas viagens, escreveu importantes livros, o mais destacado deles foi sua autobiografia The Road to Mecca (título internacional do documentário). Por conhecer e estudar a cultura árabe muçulmana escreveu uma das traduções mais elogiadas do Alcorão para o inglês, reconhecida até hoje.
Lutou pela causa palestina durante toda sua vida. Em um de seus comentários no livro The Road to Mecca, afirma que “Eles [sionistas, movimento judeu que defende o Estado de Israel para seu povo] não podem entender o que eu vivi com os árabes. Eles não estão ao menos interessados no que os muçulmanos pensam; quase nenhum deles se dispõe a aprender a língua árabe; e todos aceitam sem questionar a idéia imposta de que a Palestina foi a herança por direito do povo judeu.” Sua visão sempre foi contrária ao extremismo, e enxergava como principal qualidade dos ensinamentos de Maomé a aceitação do outro, independente de religião ou etnia.
Muitas entrevistas são feitas ao longo do filme, algumas interessantes como a conversa entre dois jornalistas árabes a respeito da obra de Asad além do momento em que um grupo discute a tradução feita por ele do Alcorão em comparação a outras existentes, e que, segundo uma das entrevistadas, não atingem a mesma qualidade interpretativa de Asad.
Sem deixar o documentário cair na armadilha doutrinária, o diretor George Misch equilibra as opiniões dos depoentes na maior parte do tempo, principalmente quando se trata da delicada questão israelo-palestina. O mais importante é o resgate da memória de Mohammad Asad, que faleceu em 1992, aos 91 anos, desapontado com os rumos políticos que, ainda hoje, não conseguiram uma solução justa e pacífica para árabes e judeus.
RUMO À MECA – A JORNADA DE MUHAMMAD ASAD
(Der Weg nach Mekka – Die Reise des Muhammad Asad | A Road to Mecca, 2008. Áustria. 93 min)
Dir: Georg Misch