
Válvula de escape
Com tema político, mas sem cair na panfletagem, As Lágrimas de Minha Mãe acerta ao deixar de lado os grandes dramas e valorizar os detalhes
PEDRO CANÁRIO
O FINO DA MOSTRA
Quando a história de As Lágrimas de Minha Mãe – Berlim-Buenos Aires (Die Tränen Meiner Mutter, Alemanha) começa, Ale ainda é uma criança de colo. O desaparecimento de seu tio, em decorrência da ditadura militar, faz com que ele e seus pais, Carlos e Lizzie, sejam obrigados a fugir da Argentina. Vão para a Europa, onde o sistema político não era uma ameaça para suas vidas, e ficam viajando de país em país, até que conseguem se estabelecer em um loft na extinta Berlim Ocidental.
Lizzie é uma jornalista que dirige documentários que relatam a pobreza e as condições miseráveis de vida nas diferentes partes do mundo, enquanto Carlos é um artista plástico a caminho do fracasso. O estilo de vida alternativo (dividindo um loft com outros artistas, alguns muito mais jovens do que eles) lhes cai bem e não parece ser um problema para Ale, que agora já está um pouco mais velho.
Apesar de ter como força motriz a conjuntura política da Argentina, a ditadura não é abordada de forma abusiva e panfletária como é costume no cinema brasileiro. As Lágrimas de Minha Mãe é um filme, acima de tudo, sutil. Não se trata de um drama maniqueísta, mas de uma história com foco na vida de um menino, Ale, e suas dificuldades em se adaptar a um mundo que não consegue compreender, suas aventuras e desventuras, sua posição no meio das brigas dos pais e o seu desenvolvimento numa realidade em transformação.
Um filme sobre a vida do menino poderia transformar a película num grande dramalhão, mas o diretor apostou na ficha certa: uma válvula de escape. Ale é uma criança, e com uma vida tão complicada e cheia de “problemas de adulto”, ele precisava de uma forma de fugir, então desenvolve a habilidade de mover objetos com os olhos. É o jeito que ele encontra para mudar a realidade em que se encontra e tornar a vida menos pesada.
E isso é basicamente o centro de tudo neste filme. Nos momentos em que a trama poderia ficar triste ou até mesmo pesada, o roteiro apresenta uma nova forma de escapar, de jogar algum detalhe que deixa o enredo mais interessante, mais rico. As sutilezas não deixam que a história se contamine com dramas pessoais e nem com propagandas de conscientização política (já que espaço não faltou).
Os detalhes é que fazem de As Lágrimas de Minha Mãe um ótimo filme, em que nada é sobrecarregado e tudo é tratado da forma mais branda possível. Até mesmo a possibilidade de um dos moradores do loft ter contraído AIDS é mostrada de uma forma quase cômica, mas que nem por isso perde a sua poesia. O filme é um conjunto de pequenos detalhes dentro de uma história muito maior, mas que não é mostrada de forma intensa em nenhum momento. O espectador apenas sabe que ela está lá e que é por causa dela que a história se desenvolve.
AS LÁGRIMAS DE MINHA MÃE – BERLIM-BUENOS AIRES
(Die Tränen Meiner Mutter, 2008. Alemanha. 91 min)
Dir: Alejandro Cárdenas Amelio


