Arquivo do dia: 07/10/2008

As Lágrimas de Minha Mãe – Berlim-Buenos Aires

Válvula de escape
Com tema político, mas sem cair na panfletagem, As Lágrimas de Minha Mãe acerta ao deixar de lado os grandes dramas e valorizar os detalhes

PEDRO CANÁRIO
O FINO DA MOSTRA

Quando a história de As Lágrimas de Minha Mãe – Berlim-Buenos Aires (Die Tränen Meiner Mutter, Alemanha) começa, Ale ainda é uma criança de colo. O desaparecimento de seu tio, em decorrência da ditadura militar, faz com que ele e seus pais, Carlos e Lizzie, sejam obrigados a fugir da Argentina. Vão para a Europa, onde o sistema político não era uma ameaça para suas vidas, e ficam viajando de país em país, até que conseguem se estabelecer em um loft na extinta Berlim Ocidental.

Lizzie é uma jornalista que dirige documentários que relatam a pobreza e as condições miseráveis de vida nas diferentes partes do mundo, enquanto Carlos é um artista plástico a caminho do fracasso. O estilo de vida alternativo (dividindo um loft com outros artistas, alguns muito mais jovens do que eles) lhes cai bem e não parece ser um problema para Ale, que agora já está um pouco mais velho.

Apesar de ter como força motriz a conjuntura política da Argentina, a ditadura não é abordada de forma abusiva e panfletária como é costume no cinema brasileiro. As Lágrimas de Minha Mãe é um filme, acima de tudo, sutil. Não se trata de um drama maniqueísta, mas de uma história com foco na vida de um menino, Ale, e suas dificuldades em se adaptar a um mundo que não consegue compreender, suas aventuras e desventuras, sua posição no meio das brigas dos pais e o seu desenvolvimento numa realidade em transformação.

Um filme sobre a vida do menino poderia transformar a película num grande dramalhão, mas o diretor apostou na ficha certa: uma válvula de escape. Ale é uma criança, e com uma vida tão complicada e cheia de “problemas de adulto”, ele precisava de uma forma de fugir, então desenvolve a habilidade de mover objetos com os olhos. É o jeito que ele encontra para mudar a realidade em que se encontra e tornar a vida menos pesada.

E isso é basicamente o centro de tudo neste filme. Nos momentos em que a trama poderia ficar triste ou até mesmo pesada, o roteiro apresenta uma nova forma de escapar, de jogar algum detalhe que deixa o enredo mais interessante, mais rico. As sutilezas não deixam que a história se contamine com dramas pessoais e nem com propagandas de conscientização política (já que espaço não faltou).

Os detalhes é que fazem de As Lágrimas de Minha Mãe um ótimo filme, em que nada é sobrecarregado e tudo é tratado da forma mais branda possível. Até mesmo a possibilidade de um dos moradores do loft ter contraído AIDS é mostrada de uma forma quase cômica, mas que nem por isso perde a sua poesia. O filme é um conjunto de pequenos detalhes dentro de uma história muito maior, mas que não é mostrada de forma intensa em nenhum momento. O espectador apenas sabe que ela está lá e que é por causa dela que a história se desenvolve.

AS LÁGRIMAS DE MINHA MÃE – BERLIM-BUENOS AIRES
(Die Tränen Meiner Mutter, 2008. Alemanha. 91 min)
Dir: Alejandro Cárdenas Amelio

Mostra para iniciantes

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

A 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é um evento anual que, ao longo de duas semanas, exibe mais de 500 filmes de todas as partes do mundo.

Os filmes são exibidos em diversas salas de cinema de São Paulo, a maior parte delas na região da avenida Paulista próxima às ruas Augusta e Consolação. Ao longo do dia, são exibidos entre 4 e 5 filmes diferentes em cada sala. Geralmente, cada filme é exibido 3 vezes durante a Mostra, em dias e salas diferentes.

Os ingressos começam a ser vendidos 4 dias antes da exibição do filme que se deseja ver, mas apenas para quem compra pacotes de 20 ou de 40 ingressos ou o passe-livre (a “permanente”). Esses pacotes começam a ser vendidos no próximo sábado, dia 11, e devem esgotar em poucos dias. Quem não compra nenhum pacote, pode adquirir o ingresso apenas no dia da exibição e deve tentar comprá-los assim que abre a bilheteria do cinema (geralmente ao meio-dia). É quase impossível conseguir ingressos minutos antes da exibição do filme – em dias de semana à tarde, quem sabe…

A programação dá preferência para filmes de arte, falados em diversos idiomas e sem tanto apelo comercial.

Nem sempre os filmes são legendados em português. Filmes que não estão previstos para estrear no circuito comercial muitas vezes são legendados simultaneamente à sua exibição. Alguns filmes são legendados em inglês ou em espanhol e, muitas vezes, filmes em língua espanhola não são nem mesmo legendados.

Alguns filmes entram em cartaz poucas semanas após sua exibição na Mostra. O Silêncio de Lorna, que deve lotar as salas nas três exibições previstas para essa Mostra, estréia em novembro (e provavelmente com as salas bem vazias). Outros podem demorar alguns anos para entrar em cartaz – Goodbye Bafana, exibido na Mostra do ano passado, chega aos cinemas nesse mês de outubro com o título Mandela – Luta pela Liberdade. Por fim, filmes muito bem recebidos na Mostra podem simplesmente sumir do mapa, como aconteceu com o polonês Truques, de Andrzej Jakimowski, exibido no ano passado e sem previsão de lançamento no cinema ou em DVD.

Ao contrário de grandes festivais internacionais, como Cannes, Veneza e Berlim, a Mostra de Cinema de São Paulo não tem uma premiação tão relevante. Competem pelo prêmio do júri os filmes de diretores que ainda estão em seu primeiro ou segundo longa-metragem da carreira.

É de praxe homenagear cineastas por meio de retrospectivas de sua carreira. Nesse ano, serão exibidos os primeiros filmes da carreira do recém-falecido Ingmar Bergman, além de boa parte da obra do cineasta japonês Kihachi Okamoto.

[As fotos acima são da Central da Mostra em anos anteriores. Na Central, que fica no Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073), você compra os passes-livres e os pacotes a partir de sábado (11/10) e, quando começar a Mostra, adquire os ingressos com até 4 dias de antecedência.]