A Novela de El Greco
Seguindo o formato dramalhão, El Greco é um filme chato e irritante
MARIANA PASINI
O FINO DA MOSTRA
O verdadeiro nome do pintor, escultor e arquiteto barroco El Greco era Doménikos Theotokópoulos. Ignorando regras de proporção e de luz, ele valorizava a imaginação e a intuição em suas obras, cuja dramaticidade influenciou o cubismo e o expressionismo. A perseguição que o artista sofreu por parte da Inquisição é o ponto de partida do filme El Greco (El Greco, vários países): ele senta-se a uma mesa e, preocupado com a possibilidade de morrer no dia seguinte, escreve suas memórias. É apenas o começo do longa, mas a obviedade da trama não pára no título ou nas suas cenas iniciais.
Em vez de ousar um formato mais arriscado, o diretor Yannis Smaragdis decidiu navegar em águas mais conhecidas e calmas: o padronizado dramalhão. Fugiu de possíveis erros, mas caiu num maior: tudo segue o modelo novela. Chega a ser quase impossível acreditar que a opção foi essa; você pensa que é algum tipo de piada. Não. O filme é realmente um insulto à inteligência e principalmente à paciência de quem assiste.
Logo na abertura, a música de fundo cria um “climão” que se mostra totalmente dispensável. A trilha, aliás, não poderia ser mais óbvia: ópera com vozeirões opressores. Nick Ashdon, que interpreta o papel-título, revela-se um ator péssimo. Ele não sabe mostrar horror ao ver um campo de homens mortos – e entendo porque nesse caso: a cena é tão falsa que você sente que o filme foi feito para crianças – e tampouco medir a intensidade de seus gritos a Nino de Guevara. Este último, o padre que se volta contra El Greco quando se torna inquisidor, é interpretado por Juan Diego Botto, o único que salva a escalação lamentável de atores que não conseguem terminar uma fala sem distrair o espectador com sua pronúncia de inglês.
Todos acreditam na capacidade artística do grego e querem impulsionar sua carreira, até mesmo Nino de Guevara. O longa é um preto no branco irritante: os inquisidores são os malvados, os amigos de El Greco são os mocinhos, e o artista é o melhor do mundo. Falta um cinza, um risco, uma alternativa – faltam as imperfeições e os erros que todo artista que se preze tem. Por que Doménikos Theotokópoulos se tornou um pintor? O que sua obra tinha de especial? Por que sua obra era tão perigosa para a Inquisição? Assuntos tão interessantes e traduzíveis em inúmeras formas permanecem totalmente ignorados.
Merece elogio a cena que mostra o pintor misturando corantes e óleo para fazer suas tintas. E só. As cenas são forçadas e irreais – em uma que mostra Veneza, a computação fica grosseiramente evidente. A originalidade da obra do grego não consegue se destacar em meio à série de estereótipos romanescos que vão sendo repetidos: o fiel escudeiro, a amada belíssima (nem tanto, devo admitir), o inimigo declarado. O resultado é o pior possível: o desperdício de um personagem tão intrigante como El Greco.
O filme foi uma parceria entre Espanha, Hungria e Grécia, sendo que este último país contribuiu com 60% de um orçamento de mais de seis milhões de euros. Talvez os gregos devessem filosofar um pouco mais sobre onde aplicar o dinheiro.
EL GRECO
(El Greco, 2007. Grécia / Espanha / Hungria. 117 min)
Dir.: Iannis Smaragdis