Arquivo do dia: 02/10/2008

O Silêncio de Lorna

O olhar próximo

Novo filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne propõe mais reflexão e menos sentimentalismo

WILSON SAIKI JR.
O FINO DA MOSTRA

O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna, vários países), último filme dos irmãos Dardenne, segue a mesma linha de suas produções anteriores: retratar um drama pessoal, seguindo de perto os personagens e seus conflitos. Com a experiência de ambos em documentários, levam a câmera sempre próxima acompanhando as ações com o olhar descritivo, montando aos poucos o mosaico que situa o espectador à trama. Assim foi em A Criança, vencedor da Palma de Ouro em 2005, e também neste último, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro em Cannes.

Como o dinheiro e a ambição podem levar pessoas a tomar determinadas atitudes? Lorna, imigrante albanesa, paga à Claudy para que se casem e possibilite a ela conseguir a cidadania belga. Ao mesmo tempo Lorna tem um romance com Sokol, que sabe da situação de sua namorada com Claudy. Juntos, o casal pretende abrir uma lanchonete, mas para obter o dinheiro e, depois, adquirir a condição de cidadã belga, a personagem principal terá que se divorciar de seu “marido” e estabelecer, novamente, um casamento de fachada com um mafioso russo, que é intermediado por um taxista albanês que recebe uma boa parte do dinheiro envolvido no negócio.

Quando Lorna encara o divórcio com Claudy, em dificuldades com a abstinência das drogas, cria por ele um afeto antes inexistente, o que a faz tentar a separação de maneira conciliatória.

Uma boa história em seqüências interessantes que seguem Lorna antes e depois do acontecimento que virá a ser o principal do filme, sua rotina e situações de tensão interpretadas pela albanesa Arta Dobroshi, que aprendeu a língua francesa para participar da produção, ela realiza uma atuação convincente e realista em seus modos de interpretação. Outro destaque é o ator Jeremie Renier, um dos protagonistas de A Criança (2005), no papel do viciado Claudy.

A partir daí, o filme entra nas questões humanas da culpa e das conseqüências por decisões tomadas, onde os personagens se revelam. Ainda que em alguns momentos exagere nas referências aos problemas políticos e sociais – drogas, imigração, máfia, aborto (de uma gravidez que não se confirma) –, consegue evitar os julgamentos e sentimentalismos, mais presentes nas obras anteriores dos dois irmãos.

O SILÊNCIO DE LORNA
(Le Silence de Lorna, 2008. Bélgica/França/Itália/Alemanha. 105 min)
Dir.: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne

17/10 (Sex) | 17:30 | Frei Caneca Unibanco Arteplex 2
18/10 (Sab) | 22:20 | Reserva Cultural 1
20/10 (Seg) | 21:00 | Cine TAM 3
24/10 (Sex) | 17:10 | Espaço Unibanco Augusta 3
26/10 (Dom) | 22:00 | Espaço Unibanco Pompéia 1
Estréia em circuito no dia 07/11

Set

O trabalho que dá…

Com um objetivo simples, narrativa clara e alguns deslizes, Set cumpre bem com a sua função.

PEDRO CANÁRIO
O FINO DA MOSTRA

Desde o primeiro momento do filme, Set (Set, México) se propõe a apenas uma coisa: mostrar o processo de criação dos diretores de arte de grandes produções audiovisuais mexicanas e, recheado de entrevistas com as equipes responsáveis pelos cenários de propagandas, filmes e novelas, o documentário consegue mostrar de maneira perspicaz a construção de uma realidade.

A diretora Adriana Camacho não deixa dúvidas quanto às suas intenções com a película. Ela se prende apenas a retratar de que forma uma parte aparentemente descartável da produção cinematográfica é exatamente uma das que requer mais atenção, trabalho e dedicação, e que, no resultado final, é tão importante quanto um bom roteiro. O filme mostra, de maneira muito interessante, o processo por que passam os criadores de cenários e ambientes e o trabalho que eles têm para conseguir passar isso para as telas (tanto de TV quanto de cinema) de maneira fiel às intenções do diretor.

Apesar de extremamente bem definido e com um objetivo muito claro, Set se perde com uma narração em off (narração em que só aparece a voz do narrador), fazendo algumas análises e conclusões pelo espectador, dando a impressão de que as palavras da diretora dizem o que ela não conseguiu ouvir nas inúmeras entrevistas que fez. A voz de Adriana Camacho acaba quebrando o ritmo do documentário, apresentando uma visão pretensamente política e falsamente analítica, fazendo parecer que apenas os entrevistados não foram suficientes para contar a história do filme.

Outro obstáculo para o desenvolvimento da narrativa de Set são as passagens de montagem de estúdio cobertas apenas com a trilha sonora. São imagens que não acrescentam nada a quem está assistindo o filme, e que por isso acabam por torná-lo arrastado, e faz com que ele perca um pouco da objetividade que conquista a atenção do espectador nos primeiros minutos do filme.

Com uma narrativa muito bem amarrada e entrevistas muito bem conduzidas, Set proporciona aos espectadores um mergulho na construção física de uma produção audiovisual. Mesmo com as digressões e passagens mais lentas, Adriana Camacho conseguiu mostrar o tema de seu documentário de forma bastante atraente sem perder o foco.

SET
(Set. México. 74 min)
Dir.: Adriana Camacho

UNIBANCO ARTEPLEX 1        18/10/2008 – 17:50 – Sessão: 91 (Sábado)

CINE BOMBRIL 2                    24/10/2008 – 21:50 – Sessão: 678 (Sexta)

HSBC BELAS ARTES 2             29/10/2008 – 15:50 – Sessão: 1116 (Quarta)

Canção Cubana

Melancolia ou questionamento?

Cheio de imagens, quase sem diálogos e com muita música tradicional, Canção Cubana é político sem ser engajado

LUIZ FELIPE FUSTAINO
O FINO DA MOSTRA

Um filme em que a câmera parece ter sido esquecida em diversos lugares de Cuba, apenas retratando o dia-a-dia dos habitantes da ilha, sem nenhum depoimento. Acrescente a isso as muitas músicas tradicionais cubanas que se destacam sobre essas imagens. A impressão que o filme pode deixar é a de ser um filme musical com imagens meramente ilustrativas, como aqueles DVDs em que o que interessa é a música, deixando as imagens apenas como pano-de-fundo.

Até por conta do nome, Canção Cubana (Cuban Song, Canadá) pode deixar essa impressão, mas não é só isso. O retrato crítico da ilha feito por Fernand Bélanger tem seus altos e baixos. Ao omitir o discurso engajado e escolher o distanciamento como recurso narrativo, o diretor permite que cada espectador faça sua própria leitura sobre o que lhe parece ser Cuba.

Porém, Fernand Bélanger padece de um dos males dos documentários que querem retratar a tal “realidade cubana”: mostrar a ilha como um lugar exótico, como uma nostálgica trincheira que destoa do mundo globalizado. Embora Bélanger não pareça ser muito simpático às condições em que a ilha se encontra, ainda existe aquele ranço da maioria dos documentaristas que vão até Cuba levando na memória o país que poderia ter sido.

A cena final do filme é apoteótica: depois de mostrar a saga de uma família que foge da chuva entrando em um carro antiqüíssimo e que se locomove com dificuldade pelas vias enlameadas da cidade, o corte final mostra o diretor e sua câmera refletidos no fundo do poço.

CANÇÃO CUBANA
(Cuban Song, Canadá, 63 min)
Dir.: Fernand Bélanger, Louise Dugal, Yves Andrignon

18/10 (Sab) | 20:40 | Espaço Unibanco Augusta 5
19/10 (Dom) | 16:00 | Espaço Unibanco Augusta 5
22/10 (Qua) | 20:10 | Espaço Unibanco Pompéia 10