REPESCAGEM – 34ª MOSTRA

05/11/2010 – Sexta

CINEMATECA – SALA BNDES

Sessão 1406 – 14:00

HERMANO (HERMANO), de Marcel Rasquin (96′). VENEZUELA. Falado em espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

Sessão 1407 – 15:50

ANTONIONI SOBRE ANTONIONI (ANTONIONI SU ANTONIONI), de Carlo di Carlo (55′). ITÁLIA. Falado em italiano. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Curta: LE REGARD IMPOSÉ, de Carlo di Carlo(24′). Indicado para: LIVRE.

Sessão 1408 – 17:30

CHINA (CHUNG KUO – CINA), de Michelangelo Antonioni (208′). ITÁLIA. Falado em italiano, mandarim. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: LIVRE.

Sessão 1409 – 21:15

MEMÓRIAS DE XANGAI – I WISH I KNEW (I WISH I KNEW), de Jia Zhang Ke (125′). CHINA. Falado em mandarim. Legendas em português. Indicado para: 12 anos.

CINE LIVRARIA CULTURA 1

Sessão 1410 – 14:00

SOU TERRORISTA (ICH BIN EINE TERRORISTIN), de Valérie Gaudissart (94′). FRANÇA. Falado em francês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

Sessão 1411 – 16:00

ABEL (ABEL), de Diego Luna (85′). MÉXICO. Falado em espanhol. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 12 anos.

Sessão 1412 – 17:50

A ÁRVORE (THE TREE), de Julie Bertucelli (100′). FRANÇA, AUSTRÁLIA. Falado em inglês. Legendas em português. Indicado para: 14 anos.

Sessão 1413 – 19:50

ROSA MORENA (ROSA MORENA), de Carlos Oliveira (95′). BRASIL, DINAMARCA. Falado em português, inglês, dinamarquês. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

Sessão 1414 – 21:50

A VALSA DAS FLORES (RYABINOVIY VALS), de Alyona Semenova, Alexander Smirnov (98′). RÚSSIA. Falado em russo. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

Sessão 1415 – 23:50

HOWL (HOWL), de Rob Epstein, Jeffrey Friedman (90′). EUA. Falado em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

CINESESC

Sessão 1417 – 14:00

ATÉ O FIM DO MUNDO – DIRECTOR´S CUT (BIS ANS ENDE DER WELT), de Wim Wenders (279′). ALEMANHA, FRANÇA, AUSTRÁLIA. Falado em alemão, inglês, francês, italiano, japonês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 16 ANOS.

Sessão 1418 – 18:50

UMA CARTA PARA ELIA (A LETTER TO ELIA), de Martin Scorsese, Kent Jones (60′). EUA. Falado em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 12 anos.

Sessão 1419 – 20:10

JARDIM SONORO (NEL GIARDINO DEI SUONI), de Nicola Bellucci (86′). SUÍÇA. Falado em italiano, suíço-alemão. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: Livre.

Sessão 1420 – 21:50

PENSE GLOBAL, AJA RURAL (SOLUTIONS LOCALES POUR UN DÉSORDRE GLOBAL), de Coline Serreau (113′). FRANÇA. Falado em francês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

Sessão 1421 – 00:00

SUBMARINO (SUBMARINO), de Thomas Vinterberg (110′). DINAMARCA. Falado em dinamarquês.Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

06/11/2010 – Sábado

CINEMATECA – SALA BNDES

Sessão 1422 – 14:00

COMO EU TERMINEI ESTE VERÃO (KAK YA PROVEL ETIM LETOM), de Alexei Popogrebsky (124′). RÚSSIA. Falado em russo. Legendas em alemão. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

Sessão 1423 – 16:30

HOWL (HOWL), de Rob Epstein, Jeffrey Friedman (90′). EUA. Falado em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

Sessão 1424 – 18:20

SUBMARINO (SUBMARINO), de Thomas Vinterberg (110′). DINAMARCA. Falado em dinamarquês.Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

Sessão 1425 – 20:30

EM UM MUNDO MELHOR (HÆVNEN), de Susanne Bier (105′). DINAMARCA. Falado em dinamarques, suéco, inglês. Legendas em português. Indicado para: 14 anos.

CINE LIVRARIA CULTURA 1

Sessão 1426 – 14:00

BUGSY MALONE – QUANDO AS METRALHADORAS COSPEM (BUGSY MALONE), de Alan Parker (93′). REINO UNIDO. Falado em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

Sessão 1427 – 15:50

PINK FLOYD THE WALL (PINK FLOYD THE WALL), de Alan Parker (95′). REINO UNIDO. Falado em inglês. Legendas em francês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

Sessão 1428 – 17:50

O MÁGICO (L´ILLUSIONNISTE), de Sylvain Chomet (80′). FRANÇA, INGLATERRA. Falado em francês, inglês, escocês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: Livre.

Sessão 1429 – 19:30

BEYOND (SVINALÄNGORNA), de Pernilla August (94′). SUÉCIA, FINLÂNDIA. Falado em sueco, finlandês. Legendas em italiano. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 16 anos.

Sessão 1430 – 21:30

JOSÉ & PILAR (JOSÉ & PILAR), de Miguel Gonçalves Mendes (125′). BRASIL, PORTUGAL, ESPANHA. Falado em português, espanhol. Legendas em português. Indicado para: Livre.

Sessão 1431 – 00:00

CATERPILLAR (CATERPILLAR), de Koji Wakamatsu (85′). JAPÃO. Falado em japonês. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 12 anos.

CINE LIVRARIA CULTURA 2

Sessão 1432 – 14:00

ME ALUGO PARA SONHAR – PARTE 1 (ME ALQUILO PARA SOÑAR – PARTE 1), de Ruy Guerra (100′). CUBA. Falado em espanhol. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

Sessão 1433 – 16:00

ME ALUGO PARA SONHAR – PARTE 2 (ME ALQUILO PARA SOÑAR – PARTE 2), de Ruy Guerra (100′). CUBA. Falado em espanhol. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

Sessão 1434 – 18:00

ME ALUGO PARA SONHAR – PARTE 3 (ME ALQUILO PARA SOÑAR – PARTE 3), de Ruy Guerra (100′). CUBA. Falado em espanhol. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 ANOS.

Sessão 1435 – 20:00

MICHEL CIMENT, A ARTE DE PARTILHAR FILMES (MICHEL CIMENT, LE CINÉMA EN PARTAGE), de Simone Lainé (52′). FRANÇA. Falado em francês, inglês. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Curta: MANOEL DE OLIVEIRA ABSOLUTO, de Leon Cakoff(35′). Indicado para: Livre.

CINESESC

Sessão 1436 – 14:00

A VALA (LE FOSSÉ), de Wang Bing (109′). FRANÇA, BÉLGICA. Falado em mandarim. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 16 ANOS.

Sessão 1437 – 16:10

MISTÉRIOS DE LISBOA (MISTÉRIOS DE LISBOA), de Raúl Ruiz (266′). PORTUGAL. Falado em português, francês. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 12 anos.

Sessão 1438 – 20:50

QUANDO PARTIMOS (DIE FREMDE), de Feo Aladag (119′). ALEMANHA. Falado em alemão, turco. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 12 anos.

Sessão 1439 – 23:10

BALIBO (BALIBO), de Robert Connolly (111′). AUSTRÁLIA, TIMOR LESTE. Falado em inglês, tetum, português. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

07/11/2010 – Domingo

CINEMATECA – SALA BNDES

Sessão 1440 – 14:00

OUTUBRO (OCTUBRE), de Daniel Vega, Diego Vega (83′). PERÚ, ESPANHA, VENEZUELA. Falado em espanhol. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 16 anos.

Sessão 1441 – 15:40

MENINOS DE KICHUTE (MENINOS DE KICHUTE), de Luca Amberg (102′). BRASIL. Falado em português. Indicado para: Livre.

Sessão 1442 – 17:40

UM HOMEM QUE GRITA (UN HOMME QUI CRIE), de Mahamat Saleh Haroun (92′). FRANÇA, BÉLGICA, CHADE. Falado em francês, árabe. Legendas em português. Indicado para: 12 anos.

Sessão 1443 – 19:30

MINHA FELICIDADE (SCHASTYE MOYE), de Sergei Loznitsa (127′). ALEMANHA, UCRÂNIA, HOLANDA. Falado em russo. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

Sessão 1444 – 22:00

ALMAS SILENCIOSAS (OVSYANKI), de Aleksei Fedorchenko (75′). RÚSSIA. Falado em russo. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

CINE LIVRARIA CULTURA 1

Sessão 1445 – 14:00

SUBMARINO (SUBMARINO), de Thomas Vinterberg (110′). DINAMARCA. Falado em dinamarquês.Legendas em inglês.Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

Sessão 1446 – 16:10

CARLOS (CARLOS), de Olivier Assayas (330′). FRANÇA, ALEMANHA. Falado em francês, alemão, inglês, espanhol, árabe. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

Sessão 1447 – 22:00

OS DOIS ESCOBARES (THE TWO ESCOBARS), de Jeff Zimbalist, Michael Zimbalist (100′). COLÔMBIA, EUA. Falado em espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

CINESESC

Sessão 1448 – 14:00

A VALA (LE FOSSÉ), de Wang Bing (109′). FRANÇA, BÉLGICA. Falado em mandarim. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 16 ANOS.

Sessão 1449 – 16:10

SEM MEDO – AS CANÇÕES DE LUCIANO LIGABUE (NIENTE PAURA – COME SIAMO COME ERAVAMO E LE CANZONI DI LUCIANO LIGABUE), de Piergiorgio Gay (85′). ITÁLIA. Falado em italiano. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: Livre.

Sessão 1450 – 18:00

O SAMBA QUE MORA EM MIM (O SAMBA QUE MORA EM MIM), de Georgia Guerra-Peixe (72′). BRASIL, PORTUGAL. Falado em português. Indicado para: Livre.

Sessão 1451 – 19:40

LIXO EXTRAORDINÁRIO (WASTE LAND), de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley (99′). BRASIL, INGLATERRA. Falado em inglês, português. Legendas em português. Indicado para: Livre.

Sessão 1452 – 21:40

HOWL (HOWL), de Rob Epstein, Jeffrey Friedman (90′). EUA. Falado em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.

A necessidade e a dificuldade da escolha

Sinceridade marca filme dinamarquês sobre relações familiares

 ADRIANO GARRETT
O FINO DA MOSTRA

 Agraciado com o Prêmio da Crítica no último Festival de Berlim, Uma Família já apresenta ao espectador, desde as cenas iniciais, um conflito que permeará todo o filme. Após Ditte (Lene Maria Christensen), que é dona de uma galeria de arte na Dinamarca, se entusiasmar com uma oferta de emprego vinda de Nova York, o longa é interrompido para a exibição de um curto vídeo em preto e branco que mostra toda a tradição da família da moça, os Rheinwald, que possuem uma padaria há quatro gerações e que, há algum tempo, são fornecedores oficiais da corte dinamarquesa.

A escolha inicial de Ditte, que namora o artista plástico Peter (Pilou Asbaek), depende da saúde do pai, Rikard (Jesper Christensen), que se curou de um câncer recentemente. Por acreditar que ele não corre mais riscos de saúde, a moça decide ir para Nova York, mas outros acontecimentos insistem em adiar a ida para os EUA, o que faz com que o filme cresça em sua abrangência temática, não se limitando apenas a falar sobre um conflito familiar/geracional.

Uma gravidez que se torna indesejada, a volta da doença do pai, a necessidade de seguir a tradição centenária da família, enfim, uma série de obstáculos são colocados para dificultar a viagem do casal para a América. E, no meio de tantas decisões difíceis, a diretora Pernille Fischer Christensen consegue tirar de seus atores/atrizes atuações verdadeiras, em grande parte pela falta de vontade de julgar os seus personagens.

Conduzindo o filme deste jeito, por mais pesados que os temas abordados possam parecer (e o são, na realidade), a diretora atinge o tom ideal para contar a história, que trata de difíceis escolhas. A família, apesar de ser um fardo indissociável (a necessidade de preservar a padaria, por exemplo, é tida como obrigação pelo pai), é também o local em que os maiores ciclos da vida se desenvolvem. Por isso, quando o núcleo maior dos Rheinwald está prestes a se desintegrar, as reações opostas dos familiares se encontram no final, quando o que resta para todos, especialmente para Ditte, é o começo de mais um ciclo. 

UMA FAMÍLIA

(En Familie), 2010, Dinamarca. (102 min.)
Dir: Pernille Fischer Christensen 

27/10 (Qua) | 15:50 – Sessão 546  | Espaço Unibanco 3
30/10 (Sab) | 15:40 – Sessão 818 | Unibanco Arteplex 1

A liberdade agonizante

O novo filme do cineasta tailandês traz uma visão melancólica da experiência humana – e das outras além
 
PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA
 
Desde o início, Apichatpong Weerasethakul esteve atrás de liberdade. A busca transparece tanto nas pulsões que movem os personagens quanto na produção em si. Em Eternamente Sua o ideal é perceptível, tanto quanto suas limitações: um dia na floresta pode ser livre de tudo que existe fora, mas continua sendo apenas um dia.
 
Então, a solução foi estender a lógica e dinamizar os processos da narrativa. Com Síndromes e um Século, uma percepção fresca de acontecimento cênico e narrativo é valorizada. Mais que distensão, a palavra-chave é dispersão, pois histórias, personagens, espaços e eventos vão e vêm, tendo em comum apenas a visão grave do cineasta. Esta proposta se intensifica em Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas.
 
É verdade que a trama é mais compacta que a do longa anterior de Weerasethakul, pois Boonmee, sua cunhada Jen o filho desta, Thong, participam de boa parte da trama. Os locais, como a casa de Boonmee, o campo ao lado e as florestas próximas também causam uma sensação (mais que uma percepção mensurável) de unidade. Na linha narrativa, apenas uma digressão, sólida e linear, é introduzida. Mesmo assim, é possível ver a lógica do universo fílmico se repartir.
 
A cena do jantar apresenta várias perspectivas díspares. Lendas anunciam entidades mitológicas, aparições se insinuam pelo misticismo da morte, um flerte com a criptozoologia aponta para animais desconhecidos e novas possibilidades de presença cênica são permitidas pela transmutação corpórea e espiritual no além-vida. E mesmo levando em conta o coletivo destas noções de mundo, existe alguma coesão – de novo, mais sensível que perceptível – nas partes e no todo.
 
A liberdade para não destrinchá-las, às vezes apenas tocando-as brevemente, eleva o filme a um estado onírico nada etéreo. Os macacos-fantasma, por exemplo, têm nome e comportamento definido, mas sua natureza se mantém misteriosa – em parte graças à maravilhosa fotografia, que os destaca ao homogeneizar o ambiente. A firmeza de cada devaneio, em alternância com rotinas e dramas mundanos, já garante a predisposição do diretor a evitar atmosferas triviais e generalizantes, pois encontramos muitas em trânsito no filme. E esta é apenas a dispersão posta em prática na estrutura narrativa.
 
É de se estranhar a pronunciada montagem, sendo este um filme de “Joe” (como Weerasethakul se intitula para estrangeiros). O interior do carro, recorrente nos filmes do cineasta, passa por vários cortes, de um personagem para o outro e para a estrada em frente. Em comparação com Eternamente Sua ou Síndromes e um Século, os planos são breves, indicando que há muito a enquadrar e muitas maneiras de fazê-lo.
 
Afinal, tudo que a obra acompanha parece prestes a se despedaçar. Este é inclusive o movimento, gradual ou brusco, de todos, mais ou menos ajudados pelo meio: a princesa que se livra de suas jóias, o líquido que escorre de Boonmee, os macacos-fantasma que se multiplicam e a própria percepção da morte como ruptura com quase todos os pontos de convergência da vida.
 
Todos passamos por esse processo de dispersão sem notar, seja em vida (atenção para a tevê) ou na morte. E como fica a liberdade? Seriamente lesada, a julgar pela passagem que fecha o filme: uma simples bipartição aleija as duas metades. Uma conversa de Boonmee com sua falecida esposa Huay reforça o pessimismo, pois a perda de amarras é compulsória, jogando os mortos em incerteza. O indivíduo é livre, na vida ou na morte, para acertar e errar, mas apenas dentro de regras auto-estabelecidas.
 
É uma constatação conquistada com o suor de um cineasta que vive sua utopia enquanto realizador. Mesmo vivendo essa liberdade expressiva, ele não consegue enxergá-la como uma perspectiva positiva para o mundo. O cinema é seu sonho, onde, de alguma forma ilógica, a divisibilidade torna a obra mais sublime.

TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS
(Lung Boonme Raluek Chat), 2010, Tailândia, Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Espanha. (113 min.)
 
30/10 (Sáb) | Unibanco Arteplex 1 – Sessão 819 | 17:50
31/10 (Dom) | Reserva Cultural 1 – Sessão 988 | 19:20
02/11 (Ter) | Unibanco Arteplex 2 – Sessão 1120 | 21:00

Atração Perigosa entretém, mas desliza nos clichês

Direção e atuação de coadjuvantes são destaque de filme de Ben Affleck

RODRIGO TOLOTTI
O FINO DA MOSTRA

Ben Affleck nunca foi considerado um ator excepcional, mas sua carreira como roteirista, apesar computar apenas duas produções, é bastante premiada (ganhador do Oscar e Globo de Ouro, ambos por Gênio Indomável, em 1998). Em Atração Perigosa, Affleck volta a roteirizar e dirigir após três anos.

A trama é muito bem articulada, mas cheia de clichês. A película se passa em um pequeno bairro de Boston, Charlestown, onde mais de 300 roubos a bancos ocorrem por ano. Doug (Ben Affleck) é líder de uma gangue que age na região. Após um assalto, ele conhece Claire Keesey (Rebecca Hall), gerente do local, e se apaixona por ela. A partir disso ele decide mudar de vida e realizar seu último crime.

Seu melhor amigo e quase irmão, Jem (numa ótima atuação de Jeremy Renner), desconfia da lealdade de Doug e pede para que ele siga Claire, cuidando dela para que eles não corram o risco de serem encontrados pelo FBI. Mas Doug não sabe se faz isso ou se abandona a vida de crimes para fugir com a amada.

É uma boa produção, mas se prolonga mais que o necessário. Situações como a paixão entre o bandido e a vítima e a vontade de largar a vida de criminoso são clichês. Affleck tenta criar uma reviravolta na história explicando o passado de Doug, mas não é o suficiente para surpreender o espectador.

Baseado no romance Prince of Thieves, de Chuck Hogan, Affleck faz um bom trabalho ao mostrar a história desse pequeno bairro, onde a “profissão” de assaltante é passada de pai para filho. Além disso, as grandes atuações dos coadjuvantes engrandecem essa obra, que não é espetacular, mas também não deixa de ser uma boa diversão. 

ATRAÇÃO PERIGOSA
(The Town), 2009, Estados Unidos. (125min).
Dir.: Ben Affleck

26/10 (Ter) | 21:30 |Cine Tam – Sala 4
27/10 (Qua) |21:40 |Cine Livraria Cultura 1

A convenção X William S. Burroughs

Ao falar de um dos escritores mais ousados do século passado, documentário adota um formato convencional

PEDRO DE BIASI
O FINO DA MOSTRA

Uma das técnicas que o escritor William S. Burroughs usava era a “cut-up”, que consistia em cortar textos comuns em vários pedaços e rearranjá-los para gerar um sentido distorcido. Processo similar era o do “fold-in”, que consiste em dobrar a folha de um livro, jornal ou revista para baixo e lê o texto que se forma com a metade da primeira página com a metade da página abaixo. Os dois métodos foram utilizados por Burroughs. Por que, então, William S. Burroughs: Um Retrato Íntimo é tão convencional é um mistério.
 
O diretor Yony Leyser aborda aspectos variados da vida do autor, como sua alardeada homossexualidade, as experiências com drogas, o vício em heroína e a fixação por armas de fogo. O título sugere revelações sentimentais que são feitas ao longo do filme, mas sobram muitas lacunas em que ninguém encontra explicação. Neste quesito misterioso, e menos no emocional, o formato quadrado do documentário pesa negativamente.
 
Não contente apenas em setorizar as facetas de Burroughs, Leyser ainda escancara a escolha através de pequenas vinhetas em stop-motion, bem feitas, mas patéticas em sua função simplória. Toda e qualquer anarquia, liberdade destrutiva, desapego a ditames – ou seja, qualquer possibilidade não-óbvia – vem diretamente dos registros audiovisuais e escritos do escritor. Quando os fragmentos de entrevistas, frases polêmicas e registros caseiros causam alguma impressão, é porque falam por si só.
 
As referências autobiográficas em vários dos livros do autor são meramente tangenciadas, nunca trabalhadas; as polêmicas seguem um caminho engessado de exposição-consequência-justificativa-elogio; até mesmo a escolha predominante por declarações de artistas amigos ou influenciados (Cronenberg, van Sant, Waters, Iggy Pop, Patti Smith, Genesis P-orridge) revela um esquematismo difícil de engolir.
 
O trunfo que resta é a inusitada busca ao homem sentimental. Que ele seja encontrado, ao lado de uma fragilidade que ia muito além de senilidade e problemas com drogas, é uma surpresa não só para a figura pública, como para o retrato feito ao longo do filme. Detalhes menos pessoais, como o gosto por atirar com revólveres e espingardas, permanecem turvos, ao passo que os afetos amorosos são devassados com uma naturalidade quase elementar.

Esse viés específico tem a prerrogativa de seguir uma lógica linear – no caso, investigativa e dedutiva –, já que sempre teve como objetivo montar uma faceta obscura, de aspectos fragmentários. Daí para desculpar todo o desserviço de fazer um verdadeiro catálogo humano há uma grande distância. A linearidade não fere a integridade do documentário nos casos particulares, e sim no contexto geral.
 
Por mais que a investigação de Leyser tenha sido produtiva, seu medo de experimentar puxa a obra para baixo de forma irremediável. Um registro esquemático de William S. Burroughs, que, em sua época, pensou coisas que “nem eram ilegais ainda” é puro desperdício. Não precisava emular o autor, mas se bastar nos cânones narrativos é quase uma ofensa.

(William S. Burroughs: A Man Within), 2010, EUA. (87 min).
Dir.: Yony Leyser
 
29/10 (Sex) | 16h40 – Sessão 767 | Reserva Cultural 1

Estranhos no ninho

Neonazismo e homossexualidade se entrelaçam no longa dinamarquês

NATALIA HORITA
O FINO DA MOSTRA

O primeiro longa do diretor dinamarquês Nicolo Donato, Irmandade, tem tudo para passar despercebido pela 34º Mostra Internacional de São Paulo… infelizmente.

Sem recorrer a clichês puídos ou análises desgastadas, o filme consegue abordar dois temas espinhosos sem apelar para o sensacionalismo ou melodrama. Após ser demitido do exército, Lars (Thure Lindhardt) passa a integrar um grupo neonazista liderado por Fatty. Apesar de relutar no começo, o ex-militar começa a compactuar com as ideias propagadas pelo grupo. Expulso de casa, Lars vai morar com Jimmy (David Dencik), também membro da fraternidade, com quem logo esboça um tratamento que ultrapassa a linha da amizade. A relação homossexual se desenvolve aos poucos, com uma cautela por parte de ambos por ir tão contra suas convicções de extrema direita. Mas, inevitavelmente, cai no conhecimento de todos.

O filme se assemelha a obras como Tolerância Zero, filme de 2001 que apresenta um protagonista judeu e neonazista. A trama focada nas heranças da segunda guerra tinha tudo para se submergir aos clichês que enevoam o assunto. Só que ao abordar somente essa polêmica – a ética nas ações do grupo neonazista nunca são contestadas – o diretor consegue cristalizar um único debate, ao invés de tentar abraçar o mundo e superficializar as discussões. Pelo contrário: somente algumas cenas remetem ao assunto, como as da deliberação que envolve um ataque a um refúgio de gays e imigrantes ou uma briga em um bar em que o grupo se depara com um casal homossexual.

As atuações também merecem destaque. O casal de protagonistas consegue traduzir claramente o conflito interno que enfrentam, sem deixar resíduos de dramatização excessiva ou até mesmo sensacionalismo. O embate psicológico transparece nas feições agoniadas de cada um, que tentam coibir o sentimento que aflora com a convivência – sem êxito.  A única cena sexual do filme não apela para a vulgaridade. É lenta, e consegue produzir efeito sem mostrar explicitamente muita coisa.

Irmandade acerta por ser unifocal. Não se perde nem se deixa seduzir pelas inúmeras polêmicas que podem ser alavancadas a partir de brechas como o grupo neonazista, a homossexualidade, a discriminação e a violência. Ao mirar apenas o problema psicológico que o casal enfrenta e algumas consequências de suas orientações, o longa expõe mais um impasse ao qual os homossexuais estão submetidos. É um filme que provoca.

IRMANDADE
(Brotherskab). Dinamarca. 97 min.
Dir.: Nicolo Donato
01/11/2010 | 18h | Sala Cinemateca BNDES

Exit Through the Gift Shop

Piada de bom gosto

Diversão e polêmica no documentário dirigido por Banksy

WILSON SAIKI JR.
O FINO DA MOSTRA

Sensação do último festival de Sundance, Exit Through the Gift Shop trabalha um aspecto do documentário que vem se tornando comum nos últimos anos, a mistura de realidade e ficção. O brasileiro Eduardo Coutinho em Jogo de Cena e o chinês Jia Zangke em 24 City já usaram desse artifício. Agora, o artista plástico/grafiteiro/diretor Banksy explora outras formas dessa mistura.

Banksy é reconhecido mundialmente por seu anonimato e suas obras polêmicas – entre elas grafitar no muro entre Israel e a Faixa de Gaza ou criar uma instalação distorcendo as tradicionais cabines telefônicas londrinas –, mas em Exit é apenas um dos personagens da história contada pelo “artista” francês Thierry Guetta. Logo na apresentação, Banksy aparece com a imagem escurecida e a voz distorcida para fazer um alerta: o documentário seria sobre ele, mas o personagem de Guetta tornou-se mais interessante.

Na primeira parte do documentário conhecemos a obsessão de um videomaker. Guetta vive nos Estados Unidos e não larga a sua câmera, produzindo imagens aleatórias. Até que descobre o mundo da arte de rua e se propõe a explorar esses artistas. Na Califórnia, em Paris ou Londres, passamos a acompanhar o trabalho de artistas de rua, como Space Invader e Shepard Fairey (aquele do pôster do então candidato Barack Obama e que assina a co-direção do filme).

Guetta, porém, apenas registra e não edita seu trabalho. Quando realiza seu grande objetivo – conhecer Banksy –, é que recebe o desafio: produzir um documentário com o material coletado durante anos. O resultado é desastroso e é a deixa para a segunda parte do filme. Agora o francês é desafiado a produzir sua própria arte, sob a alcunha de Mr. Brainwash (MBW).

Mr. Brainwash

A caricatura construída por Guetta convence a imprensa de Los Angeles, que, mesmo sem conhecer o “novo artista”, cria grande expectativa para a abertura de sua exposição de estreia. Longe de ser algo pequeno, Mr. Brainwash arrisca seu début Life Is Beautiful em um grande galpão nos antigos estúdios da CBS. Investindo na publicidade e no aval de artistas renomados (coincidentemente Banksy e Fairey), ele consegue atrair um grande público para a exposição. Suas obras? Clichês artísticos inspirados em Andy Warhol e exibidos em quadros e instalações.

O alvoroço no mercado de arte faz com que as obras sejam rapidamente vendidas, atraindo os “especialistas” em arte contemporânea. À época, Banksy soltou comentários irônicos sobre o sucesso do seu pupilo e provocou dizendo: “A capacidade da América de ser irritante é igualada apenas pela sua capacidade de reinventar-se em algo brilhante.”

Exit Through the Gift Shop
diverte e pode ser tema de boas conversas em mesas de bar. Tanto para duvidar da construção do “documentário”, como para discutir a arte contemporânea e os excessos de um mercado que cria figuras como Damien Hirst e Mr. Brainwash.

EXIT THROUGH THE GIFT SHOP
(Idem), 2010, Reino Unido. (87 min.)
Dir.: Banksy

26/10 (Ter) | 19:50 – Sessão 464 | Belas Artes 2
29/10 (Sex) | 19:50 – Sessão 763 | Espaço Unibanco 3